Sempre me fazem duas perguntas quando o assunto Chico Science vem à tona. Me perguntam se o Chico fosse vivo, o que ele estaria fazendo. Difícil responder, mas tenho duas certezas nessa resposta que dou sempre. Com a ignorância das rádios brasileiras em relação a sua música e a entrada com os dois pés no mercado internacional, Chico estaria dividindo seu tempo entre sua Manguetown e, certamente, teria outra casa em alguma cidade do mundo. Arrisco “chutar” três delas, Nova Iorque, Londres e Berlim. Porque poucos artistas brasileiros foram “cidadão do mundo” como ele foi, em apenas dois anos e dez meses de carreira com disco lançado (no mundo).
A outra pergunta move o mundo, mas não move todo mundo, “ganhasse dinheiro?”. Minha resposta é “não deu tempo”. Além de não ter dado tempo, sem tocar nas rádios, o principal dinheiro vinha dos shows, esse dinheiro era dividido por nove pessoas, oito da banda e eu, depois de pagar as despesas e a nossa competente equipe.
Nos anos 80, as gravadoras lançavam um compacto com duas músicas. Se tocasse nas rádios, gravavam um disco inteiro do promissor artista, se não tocasse, tchau, não tinha disco inteiro. Isso aconteceu com Lenine, por exemplo. Lançou um compacto nos 80, nada aconteceu, só conseguiu lançar um disco inteiro quase uma década depois.
Nos anos 90, a palavra mais falada pelos executivos e diretores de gravadoras era “estourar” e, se você não estourasse nas rádios, não conseguiria chegar na TV aberta, você não era nada no mercado.
Depois dos colegas de gravadora, o Gabriel, o Pensador, vender 250.000 cópias (disco de platina) e o Skank vender 100.000 cópias (disco de ouro), o selo Chaos da Sony Music lançou Da Lama ao Caos. A expectativa era gigante e a frustração foi maior ainda. Apesar de músicas em duas telenovelas da Globo (Tropicaliente e Irmãos Coragem) e de terem feito os maiores programas da TV brasileira, tocando ao vivo, e entrevistas, Chico Science e Nação Zumbi foram ignorados pelas rádios brasileiras e pernambucanas, eram raríssimas as que tocaram algo. Aconteceu o mesmo com todas as bandas Mangue, com exceção da Jorge Cabeleira, que estourou uma música nas rádios pop, um medley de Carolina e Xote das Meninas, versão rock n’roll nordestino.
Por outro lado, Da Lama foi lançado na Europa, nos EUA e no Japão, ficando por dois meses entre os mais tocados da World Music Charts Europe, em fevereiro e março de 1995, pouco antes da turnê internacional From Mud to Chaos, que passou pelos EUA e cinco países da Europa.
No ano seguinte foi a vez de Afrociberdelia, que comemora trinta anos em 2026. Também foi lançado nesses territórios e também ficou entre os mais tocados da WMCE, em 1996, chegando em quinto lugar.
Voltando ao dinheiro, ganhar dinheiro significa pra maioria comprar bens, ninguém comprou casa, apartamento ou carro novo, não ganhamos pra isso. Pessoalmente, penso que ganhamos muito mais do que dinheiro, conseguimos levar a música contemporânea de PE, do NE, do Brasil, pra lugares onde só a bossa nova, o samba e a MPB haviam chegado, até então. Algo que dinheiro não compra, mas a cultura consegue levar.
2026 são sessenta anos do Chico e trinta do disco e turnê internacional Afrociberdelia. Há trinta anos, a música jovem dos anos 60 não fazia nenhum sentido pra nós, jovens, no máximo poucos curtiam um The Pops ou Renato e Seus Blue Caps, mas não ao ponto de comprar discos e sair ouvindo no walkman.
Trinta anos depois, a música de CSNZ e da maioria das bandas do Mangue segue fazendo muito sentido e inspirando jovens que nem eram nascidos nos anos 90. Basta ver os muros do Recife, onde a figura do Chico é onipresente e retratada pelos grafiteiros e artistas visuais. As bandas do Mangue seguem vivas, firmes e fortes, semanalmente o algoritmo me manda um texto ou postagem de alguém considerando o Movimento Mangue um dos mais importantes e o último real movimento da música brasileira.
Vejo o Chico presente e inspirando novos artistas e bandas pernambucanas, como Mago de Tarso, Clube da Lama, Louise (filha do Chico), Abulidu, Barbarize, Afroito, Janete Saiu Pra Beber, entre outros.
Gosto muito de dinheiro, me permite continuar meu hobby desde criança, colecionar coisas, mas não trocaria nenhum dinheiro por essa história que vivi e ajudei a construir.
Salve Chico Science!!!






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