Poema inédito de Luna Vitrolira

21 maio 2026

A imagem mostra uma mulher posando dramaticamente diante de um fundo marrom texturizado, em um estúdio fotográfico com iluminação baixa e cinematográfica. Ela veste uma roupa ampla e fluida em tom vermelho-alaranjado, com mangas largas que lembram um figurino teatral ou ritualístico. O cabelo é o elemento mais marcante da composição: dividido ao meio, forma duas estruturas altas e enroladas no topo da cabeça, descendo em longos cachos volumosos até a altura do peito. O penteado cria uma silhueta forte e quase escultórica. Ela usa argolas douradas grandes e maquiagem intensa, com destaque para os olhos e o batom escuro. A modelo encara diretamente a câmera com expressão séria e imponente. As mãos estão erguidas em direção ao observador, com os dedos curvados, como se estivesse lançando um feitiço, conduzindo uma performance ou incorporando uma personagem mística. A iluminação destaca o rosto e o tecido avermelhado, enquanto o restante da cena permanece em sombras suaves, reforçando o clima dramático e sobrenatural da fotografia.
Foto: José de Holanda

Por Luna Vitrolira

FUI CRIADA NUM QUARTO
sem janela

era caroço
uma espécie de dentro

o bafo do ar feito de ficar ali
não corria
não ventava

aquela coisa parada
parecia ter esquecido de se mexer

infância tinha gosto abafado
do mofo da parede
desbotada de cal

inventava janelas para enganar o tempo
na minha cabeça de gafanhota

mainha dizia que o mundo era grande

grande era quando fechava os olhos
e o teto escapava da vista

grande é

dormir o sono de uma lesma
correr a maratona de uma traça
a trilha que faz o cupim
no telhado de um abandono
o trabalho suado da construção
de um formigueiro
        no coração de uma criança

grande era o tanto de mel que choravam as abelhas
dentro da colmeia dos meus olhos
        sem ninguém ver

as pessoas normais demoram
para entender o tamanho das coisas

eu não


Luna Vitrolira é escritora e cantora. Mestra em Teoria da Literatura pela UFPE. Autora dos livros Aquenda – o amor às vezes é isso, finalista do Prêmio Jabuti 2019, obra que se transformou em projeto transmídia homônimo com livro, disco, filme e show, e Memória tem Águas Espessas, seu livro mais recente.

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