Por Luna Vitrolira
FUI CRIADA NUM QUARTO
sem janela
era caroço
uma espécie de dentro
o bafo do ar feito de ficar ali
não corria
não ventava
aquela coisa parada
parecia ter esquecido de se mexer
infância tinha gosto abafado
do mofo da parede
desbotada de cal
inventava janelas para enganar o tempo
na minha cabeça de gafanhota
mainha dizia que o mundo era grande
grande era quando fechava os olhos
e o teto escapava da vista
grande é
dormir o sono de uma lesma
correr a maratona de uma traça
a trilha que faz o cupim
no telhado de um abandono
o trabalho suado da construção
de um formigueiro
no coração de uma criança
grande era o tanto de mel que choravam as abelhas
dentro da colmeia dos meus olhos
sem ninguém ver
as pessoas normais demoram
para entender o tamanho das coisas
eu não
Luna Vitrolira é escritora e cantora. Mestra em Teoria da Literatura pela UFPE. Autora dos livros Aquenda – o amor às vezes é isso, finalista do Prêmio Jabuti 2019, obra que se transformou em projeto transmídia homônimo com livro, disco, filme e show, e Memória tem Águas Espessas, seu livro mais recente.





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