Eu te amo mesmo assim

25 jun 2026 | 0 comentários

Foto Luciano Pinheiro


Por Luciano Pinheiro

Não sou vidente, sou apenas um morador olindense, previdente e cuidadoso com a cidade. Me assusto toda vez ao adentrar na Estrada do Bonsucesso pelo Largo do Amparo, com a situação em que se encontram dois casarões em uma esquina do local. Em estado de pré-ruínas, sem cobertas, com mato subindo pelas paredes, em tempo de chuvas, fortes ventanias, além do deslizamento dos morros que acontecem no Sítio Histórico. Vejo risco de desabamento da empena lateral que dá para a Estrada do Bonsucesso. Estrada de trânsito intenso de ônibus, caminhões pesados , automóveis, transeuntes e roteiro do Homem da Meia Noite com multidões no carnaval.

Alerto então ao IPHAN, Prefeitura Municipal de Olinda e ao proprietário desses imóveis para que providências emergenciais sejam tomadas antes que ocorra alguma tragédia. Fui informado de que existe até um projeto de pousada para esses casarios já aprovado pelo Conselho de Preservação há mais de um ano, mas até então nada foi feito. Clamo então por medidas urgentes visando à estabilização das estruturas, cobertura e proteção lateral, a exemplo do que foi feito em muro da rua 15 de novembro. 

Quem avisa amigo é, pois quem ama cuida!

Olinda, ruínas em toda parte

Existem poucas ruas no Sítio Histórico de Olinda sem ruinas ou imóveis abandonados para alugar ou vender. Existem ruas "quase só ruínas" como são os casos das ruas da Praça Coronel João Lapa, rua do Sol, avenida Sigismundo Gonçalves, avenida Liberdade, na Praça do Carmo, bem como o conjunto urbano de Santa Tereza. Não pretendo fazer um inventário das ruínas, as fotos que registrei  são apenas uma pequena mostra do abandono dos imóveis pelos proprietários e do descaso dos governantes e entidades ligadas à preservação, que têm obrigação de assegurar a permanência desse patrimônio. 

Entre as ruínas e imóveis desativados encontram-se o Cine Duarte Coelho, Cine Olinda, Escola Estadual Sigismundo Gonçalves, Faculdade de Olinda (FOCCA), o antigo Hospital Herman Lundgren, Mercado da Ribeira etc.

Acompanho esta decadência e só vejo o descaso aumentando nos últimos anos. Pior, não há um plano diretor do patrimônio nem intenção da recuperação urbana previsto com ajuda necessária aos proprietários dos imóveis particulares. O caos tende a aumentar, e Olinda corre o risco de perder o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Um personagem de Mia Couto fala por mim: "De novo me chegam os sinais da decadência, como se cada ruína fosse uma ferida dentro de mim. Custa ver o tempo falecer assim. A nossa cidade está morrendo junto a nós, decompondo-se perante o nosso desarmado assombro". 

Olinda, ruas, bicas e lixo 

Bicas mal cuidadas, lixo nas calçadas, ruas esburacadas, meios-fios destruídos, fiações perigosas, bueiros entupidos, balaustradas arruinadas. Amo Olinda e aqui continuo resistindo, fazendo arte no meu ateliê no Alto da Sé, onde só resta um vizinho a meu lado. Nós, moradores, estamos pouco a pouco sendo expulsos do Sítio Histórico em deliberado projeto do poder público. 

Refiro-me principalmente ao Sítio Histórico, mas outros bairros e o Bairro Novo também assombram com ruas esburacadas, com exceção da avenida Getúlio Vargas e da rua José Cândido Pessoa. Na avenida Marcos Freire, obras com revestimentos inadequados, intermináveis e já quase ruínas.

Saudades da "Arte em Toda Parte", do extinto Centro de Preservação dos Sítios Históricos de Olinda, da Oficina Guaianases de Gravura, no Mercado da Ribeira, da Casa da Criança de Olinda, de Baccaro, do Ateliê Coletivo de Olinda, na rua de São Bento, e da conquista em 1982 do título hoje ameaçado de Olinda Patrimônio Cultural da Humanidade, graças ao empenho do saudoso Aloísio Magalhães. Tempos de sonhos e de alguns desencantos também.

Apesar dos pesares, melhor acreditar, melhor não desistir desta cidade e confiar na sua difícil porém possível recuperação. Olinda precisa mudar e eleger, em 2028, pessoas que realmente estejam comprometidas com a sua história.

Sonhar é preciso.

Sítio histórico de Olinda, boas práticas

Para não ser visto como "profeta do Apocalipse" ao denunciar problemas olindenses, resolvi fazer algumas louvações. Poucas obras, porém significativas, estão sendo realizadas no Mosteiro de São Bento, Museu de Arte Contemporânea e Igreja de São Pedro, com recursos do Governo Federal e executadas pela Fundarpe e IPHAN.

Vou destacar, no entanto, duas iniciativas que foram e continuam sendo realizadas por moradores, sem participação governamental. São exemplos de organização social e que exigem tempo para serem executadas. São iniciativas que fazem sonhar, esperançar e esperar dias melhores para Olinda. Trata-se da igreja do Bonfim, da rua e da Travessa do Bonfim, sobre as quais escrevo um pouco mais aqui. A outra é a Capela de São Pedro Advíncula e arredores, em frente ao Museu de Arte Contemporânea.

A rua do Bonfim, a igreja e o largo, nos anos 1980 não tinham nenhuma particularidade, além de uma larga calçada delimitada por meio fio, praticamente sem arborização. É nesse período que moradores se unem para mudar a árida paisagem em um espaço vegetado de acessibilidade e convivência. Desde então vêm mantendo esse compromisso. Neste processo, destaco algumas lideranças: Carlos Marinho (@catmolinda), @valeriaacampora, @mazzabessa e Cristiana Gondim, entre outras pessoas.

Recebi de Carlos Marinho fotos e expressiva documentação sobre ações que foram feitas pelos moradores nos ultimos 40 anos. A comunidade da rua do Bonfim não só vem realizando obras físicas de restauração, recuperação e acessibilidade do espaço urbano como também atua no sentido de valorizar o patrimônio imaterial, assegurando a continuidade dos tradicionais festejos nos ciclos religiosos e profanos, a exemplo do pastoril Estrela de Belém e do bloco carnavalesco Vai e Vem. Esses movimentos são realizados com contribuição financeira dos moradores, da Paróquia e dos amigos da Olinda Antiga, fortalecendo assim, entre moradores, o importante sentimento de pertencimento. 

Olinda vai resistir ao abandono e como uma fênix se reerguerá das cinzas. Viva Olinda viva!


Luciano Pinheiro é artista visual e mora em Olinda desde 1973.

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