Crônicas do Recife Antigo

30 abr 2026 | 0 comentários

Ilustração mostrando uma mulher em uma cadeira de rodas, segurando uma marmita, que, pela expectativa dos 4 cachorros que a rodeiam, deverá ser compartilhada entre todos
Arte: Renato Valle

Em 2015 iniciei uma série de desenhos sobre o Recife Antigo e o seu entorno. Cheguei a fazer seis, e dois ficaram inacabados. Naquele mesmo ano mudei de endereço e me envolvi com outros projetos. Em 2020 cheguei a fazer dois pequenos para participar de um edital e interrompi a série novamente, sem mesmo finalizar os dois outros de 2015. Havia o desejo de retomá-la, mas faltava algo mais forte para me impulsionar!

No ano passado recebi um convite para expor na Torre Malakoff, essa importante edificação do século XIX, localizada no Recife Antigo. A associação com a série que estava engavetada foi imediata. A minha vontade era chegar a vinte desenhos, teria muito trabalho a fazer em um curto espaço de tempo. Havia perdido um HD com registros de imagens e estudos (alguns já bem adiantados) e para retomar a série dez anos depois teria que percorrer o bairro, observar seus personagens, suas edificações, perceber o que permaneceu e o que foi transformado nesse intervalo de tempo. Apresentei a proposta à Torre e, tendo sido aceita, mergulhei no trabalho.

Como no início, usei a câmera fotográfica em lugar de um bloco de esboços para anotar, visualmente, cenas e personagens. Tirava as fotos pensando nos desenhos que queria realizar, depois de estudá-las escolhia uma como referência, porém não descartava as outras. Por vezes, este processo exige fazer recortes em algumas imagens, para depois juntá-las, como em um quebra-cabeça, resultando na composição que quero desenhar. Elimino ou desloco alguns elementos, trabalho a luz, a sombra e os contrastes (sempre me encantava com a luz e a sombra quando desenhava do natural). Assim, o resultado é a interpretação de uma cena e não a cópia de uma fotografia.

Após essa interpretação visual da cena começam a execução do desenho e o embate entre o artista, o papel e o grafite. Algumas coisas mudam durante o processo. O resultado não é apenas a execução de uma imagem pré-definida, mesmo que o meu processo exija de mim uma elaboração esmerada. A potência de uma obra não depende disso, mas de como ela repercute, primeiro em mim e depois no público. Em todas as obras realizadas anteriormente havia a presença de pessoas, entre os estudos que perdi tinha feito alguns só com a paisagem. Ao circular pelo bairro senti a necessidade de sempre colocar a vida que lá existe e estabeleci como regra a representação de pelo menos uma vida em cada obra, fosse gente ou bicho. Prédios, ruas e calçadas (com suas pedras e seus belos desenhos) teriam que ter pessoas que trabalham, gente se divertindo — como nos carnavais de 2015 e de 2025 —, pombos, cachorros e gente que mora lá!

Neste intervalo de dez anos o Recife Antigo me pareceu um pequeno território que diz muito sobre o grande território chamado Brasil. Extremamente desigual, descuidado, cheio de contrastes e de preconceitos, essa paisagem urbana com seus bancos, empresas, trabalhadores e moradores de ruas revela o fracasso de um modelo de sociedade que insiste em não dar certo. Como inevitavelmente essas coisas se refletem em meu trabalho, as Crônicas do Recife Antigo tornam visível, pelo menos em boa parte, a vida que, para muitos, na maioria das vezes, é invisível.

Uma jovem mãe com seus filhos dentro da mesma carroça que leva bebidas durante o carnaval, um pombo mutilado, um cachorro, uma La Ursa, gente conversando ou dormindo nas calçadas. Entre essas vidas, uma chamou bastante a minha atenção! De bermuda, sem camisa e usando uma tornozeleira eletrônica, um homem dormia deitado em frente a um portão fechado. Entre duas pichações, uma placa de estacionamento proibido mostrava o que pode e o que não pode. A placa é só para veículos e não para gente!

Já na reta final da série me deparei com uma senhora que tinha visto outras vezes. Da primeira vez que a vi perguntei se poderia fotografá-la e ela disse que sim. Cadeirante e acompanhada por seis cachorros, sorriu enquanto eu a fotografava. Tentei desenhá-la mais de uma vez e não consegui. Na semana anterior ao carnaval a encontrei novamente na Praça do Arsenal e conversei com ela. Seguida pelos seis cachorros, contou que tinha mais dez em casa (os grandes e brabos), uma casa que recebeu recentemente em uma comunidade, mas não revelou qual, nem falou seu nome. Foi simpática e desconfiada ao mesmo tempo, apenas pediu um lanche pra ela e ajuda pros seus cachorros que disse serem sua família. Perguntei à senhora que vende os lanches se sabia o nome dela e ela respondeu: Rosa!

Antes de fazer seu lanche, dona Rosa tirou de uma sacola várias vasilhas e espalhou pelo chão. Colocou ração, reuniu sua família (disse que nunca havia tido uma família antes dos seus cães) “eles são tudo para mim”! Passei a tarde inteira fotografando Dona Rosa. Foram muitas imagens, difícil decidir o que e como usar essas referências. Estava muito impressionado com ela e com o que estava sentindo depois desse encontro, para mim o mais perturbador de toda a série.

Dona Rosa aparenta ter mais de setenta anos e não teve uma família até, segundo ela, adotar os cachorros e cuidar deles. Vive de esmolas e durante a maior parte de sua vida não teve uma casa pra morar. Tentei me colocar no lugar dela e não consegui. Não consegui imaginar por quanto tempo conseguiria viver nessas condições. Demorei a encontrar uma “solução plástica” para representar tudo isso.

Lembrei daquela jovem mãe com suas crianças dentro da carroça. Numa manhã de carnaval com o sol a pino, descendo a ponte Maurício de Nassau, não teve com quem deixar sua filhinha e seu filhinho e os levou pra garantir o sustento de sua família. Isso para mim já era demais, por isso saí retirando toda a decoração dos festejos e fiz um desenho representando o que realmente importava ali, a dignidade e força daquela mãe!

O que dizer então de Dona Rosa? Retirei todos os galos e adereços da decoração, a orquestra de frevo que tocava naquela tarde, toda a decoração e os prédios do Paço do Frevo e mesmo o da Torre Malakoff e deixei o que mais importa para ela.

Para mim, este é um dos desenhos mais fortes de todas as crônicas!

Renato Valle
Renato ValleArtista Plástico

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