Imagens de uma rebelião

30 abr 2026

Ilustração de um elefante passando em frente ao Cinema São Luiz. Em sua cabeça tem a sobreposição da imagem de uma câmera de cinema e pássaros voando
Arte: Luciano Mattos

A impossível resposta para a pergunta:

para onde vai o cinema feito em Pernambuco?

 

Das experiências luminosas que conheço, o cinema foi e continua a ser a mais marcante. Certamente porque é multifacetada e envolve desde o gesto de sentar numa sala de projeção e deixar imagens e sons me carregarem, até a alegria de juntar um bando de amigos e amigas com uma pequena câmera de super-8 para “fazer filmes” — não tanto para ser “cineasta”, com toda a pompa do profissionalismo, mas só para estar juntos, andar pelas ruas do Recife, ampliar os afetos. O cinema sentido como efeito de assistir ao belo Hatari, de Howard Hawks, ainda criança, ao lado do meu pai, no Art-Palácio, e depois imaginar rinocerontes correndo disparados pela Avenida Guararapes, ao entardecer, quando a cidade se rosalaranja. Cinema compreendido como força tão ampla que acaba por se insinuar na minha trajetória acadêmica, definindo a escolha do tema do meu doutorado, levando-me a um concurso para ensinar na universidade. Não é só isso: trago em mim, por exemplo, a vivíssima memória de atravessar temerariamente o Aterro do Flamengo, da Glória até a Cinemateca do MAM (para o desespero de amigos cariocas: “Não sejam loucos! Vocês vão ser assaltados!”), ao lado de Amin Stepple, só para rever a chanchada O Homem do Sputnik, de Carlos Manga, com Oscarito e Zezé Macedo — e perceber que filmes como aquele, ao lado dos realizados por Glauber Rocha e Júlio Bressane, nos ofereciam uma visão clara, inédita e profunda dos brasileiros. Um cinema que era de película, mas também de papel, através dos livros de Godard ou de Eisenstein que comprávamos na Livro 7 de Tarcísio Pereira e na Síntese de Sueli Pereira e Murilo Alves — e não foram poucos, naqueles tempos sem Internet e sem streaming, os filmes lidos muito antes de serem vistos.

Decorre provavelmente desse modo de sentir — de ser atingido pelos filmes —  a sorte de ter nascido e vivido na cidade do Recife, paisagem de uma paixão antiga pelo cinema. Desde o comecinho do século XX, com a instalação das primeiras salas de rua no bairro da Boa Vista, e rapidamente incorporando a realização de filmes. Inacreditável que uma cidade periférica, que lutava contra a decadência econômica, fruto das espoliações punitivas do poder central contra a rebeldia pernambucana, pudesse ousar realizar primeiro documentários governamentais e logo em seguida longas-metragens de ficção, produzidos por empresas privadas. Sempre considerei insano que, entre 1923 e 1931, o Recife tenha sido o maior centro regional de produção de cinema do Brasil. A historiadora paulista Lucila Ribeiro Bernardet considerava que os treze longas do período er am fruto de um surto, uma febre que se abateu sobre nós. Discordo: a produção de cinema em Pernambuco, desde então, é parte da nossa rebelião, da nossa insatisfação contra o empobrecimento, o colonialismo interno, contra a sentença condenatória que surge, ainda hoje, quando ouvimos um forasteiro dizer: “Mas quem são vocês para se meter com cinema?”

A resposta é: nós somos a fúria, a tempestade, nós somos a rebelião. Por isso Pernambuco cultiva tal vontade e tal prática cinematográfica que vem de tão longe, literalmente aos trancos e barrancos. Saber disso me faz sorrir quando percebo que novos cineastas e críticos pernambucanos se expressam como se só agora estivéssemos inventando ex nihilo o nosso cinema. Trata-se de desconhecimento histórico, ou um tanto de arrogância talvez, esquecer que houve um Edson Chagas (1901-1958), um Firmo Neto (1916-1998), um Fernando Spencer (1927-2014), um Geneton Moraes Neto (1956-2016), um Jomard Muniz de Britto (este vivíssimo, graças a Deus), entre dezenas de outros, estes cinco absolutamente geniais, elos de uma longa cadeia criativa, um arco teso que há décadas lança no espaço flechas de luz e de som. 

Desde 1996, com a chamada Retomada do Cinema de Pernambuco, atingimos um patamar diferente. Voltamos aos longas, depois de um intervalo de duas décadas, desde o inusitado O Palavrão. Vinte anos depois da pornochanchada surrealista de Cleto Mergulhão, a organização política dos realizadores e realizadoras, a colaboração entre eles e elas, acabou por implantar novas plataformas de financiamento, com forte participação governamental. O modo de produção evoluiu aos poucos, se profissionalizou, equalizando as tecnologias (primeiro ainda o 35 milímetros analógico, em seguida os sucessivos formatos digitais), formando técnicos qualificados, vendo florescer atrizes e atores de primeira grandeza e permitindo que os filmes fossem exibidos em festivais e salas do Brasil e do mundo. Foi o período em que se consolidou a ideia de que havia  particularidades, ou peculiaridades, que contaminam os filmes criados em Pernambuco, quando a crítica sudestina passou a abrir as páginas dos jornais para tentar entender o que estava acontecendo. Textos —  às vezes carregados de ironia ou mesmo desprezo — que revelavam o óbvio: a mocidade independente “do Norte” tem algo diferente para mostrar: os filmes autorais dos corações futuristas pernambucanos.

Muitos ainda se lembram do espanto total gerado pelo lançamento de Baile Perfumado (Lírio Ferreira e Paulo Caldas, 1996) no 29º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A plateia urrava literalmente, espantada com o que via. Seguiram-se outras epifanias (ouso dizer), com filmes de Cláudio de Assis, Renata Pinheiro, Marcelo Gomes, Hilton Lacerda, Katia Mesel, Marcelo Pedroso, Adelina Pontual, Pedro Severien, Kleber Mendonça Filho, Camilo Cavalcante, Gabriel Mascaro, Mariana Brennand, Thor Neukranz, Douglas Henrique… A lista é longa e injustamente incompleta, e seria ainda mais longa se fossem acrescentados os muitos jovens realizadores, que estão apenas iniciando suas carreiras. São autoras e autores que hoje miram festivais de Cannes, Veneza, Berlim ou o Oscar. Trazem dezenas de prêmios e forte reconhecimento crítico.

A principal dúvida que paira entre os alienígenas é a seguinte: como explicitar as marcas de estilo que perpassam tantas individualidades? Às vezes para nos encaixotar, ou para encontrar um lugar que nos caiba numa prateleira qualquer, mas outras vezes porque há evidentes correspondências na produção pernambucana. A pesquisadora Amanda Mansur foi uma das primeiras a enfrentar essa dúvida, em sucessivos trabalhos. Diz ela que há claras influências recíprocas entre cineastas que apontam para pontos de convergência estéticos, no mínimo recorrências: o caráter autoral e independente, o tensionamento com a produção musical, a força da paisagem como protagonista, os intercâmbios com a cultura popular ou com os novos mitos urbanos. 

Para além dessas interseções, efetivamente visíveis, as principais qualidades da produção cinematográfica de Pernambuco são a diversidade dos olhares e a colaboração. Atenção para o refrão: se conseguimos tanto no cinema foi por ter permitido que cineastas pudessem desenvolver histórias a partir de suas próprias visões do mundo, seus modos de ver, do chão onde pisam, de suas características de classe, raça e gênero. E por termos sido capazes de realizar os filmes com o suporte de outros cineastas, num jogo intenso de competição-colaboração. 

O cinema feito em Pernambuco não é consequência de uma monocultura. Mas da tensão das diferenças. Cresceu por conta da capacidade de elaborar e financiar diferentes projetos, com escopos diversos: documentários e ficções; curtas, médias e longas; projetos mais caros e os mais baratos. Filmes de homens e de mulheres; de gente branca e de gente preta. A sobrevivência desse modelo será determinante para que a experiência audiovisual de Pernambuco continue sua trajetória criativa ascendente. Há riscos sérios no horizonte: a crescente dependência de recursos federais, que chegam atrelados a critérios que não foram definidos localmente; o evidente surgimento de um sistema de castas/classes entre criadores — ou seja, gente importante que já entra nas disputas por financiamento com suas demandas garantidas e uma espécie de proletariado cinematográfico que sofre pelas migalhas restantes; o jogo de cartas aparentemente marcadas nos comitês de pitching dos editais; o apagamento das primeiras gerações de cineastas da retomada ou de antes ainda ativos.

São riscos que outros sinais vêm arrefecer, felizmente: a garotada voltando a curtir filmar em super-8; estudantes e recém-formados em cinema voltados não apenas para a direção, mas para outros departamentos da produção de filmes, inclusive para a crítica, a pesquisa, a exibição e a curadoria; novos projetos ousados de exibição/formação como o Bar Super-8; a interiorização da produção, com especial destaque para o Agreste; a persistência dos projetos mais experimentais (e não só do cinemão para festivais); o crescimento das coproduções internacionais. 

Em resumo: se for possível defender e preservar um modo de  financiamento da produção abrangente, democrático e colaborativo, seguiremos com a rebelião pernambucana. Se, ao contrário, elitizarmos o sistema, se perdermos as raízes, seremos esmagados pela mesmice. 

Sejamos otimistas: nossa fúria não vai se calar.

Paulo Cunha
Paulo CunhaJornalista e cineasta

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