Nascido em Catolé do Rocha, interior da Paraíba, Chico César guarda na mente imagens muito claras da primeira vez que visitou o Recife. Em 1975, então com 11 anos, ele deu de cara com o vaivém dos carros, ônibus e pedestres na Conde da Boa Vista, um cenário bem diferente do de sua pacata cidade natal. Neste sábado, 2 de maio, ele sobe ao palco do Teatro do Parque, localizado na Rua do Hospício, uma das transversais da movimentada avenida, para a estreia nacional de Fofo, seu novo show, que revela músicas compostas quando ele ainda era adolescente. Claro que sucessos marcantes, como À Primeira Vista e Mama África, não serão esquecidos. Para falar dessa nova fase, o cantor e compositor concedeu entrevista exclusiva à Revista Araçá, em que fala de processo criativo, da admiração pelo coletivo Reverbo e da influência da capital pernambucana em sua vida. “Recife estabeleceu um patamar muito alto para mim, no sentido de metrópole”, revela.
Revista Araçá – Como nasceu o desejo de revirar o baú e reviver essas primeiras composições?
Chico – O desejo de gravar essas músicas nasceu durante a minha turnê de 30 anos do álbum Aos Vivos, ano passado. Foram cerca de 70, 75 shows, às vezes com orquestra, mas na maioria em voz e violão. E eu fui percebendo que muito da minha expressão artística tem bastante a ver com esse formato de voz e violão. As canções nascem assim e se forem para o palco ou para o estúdio dessa maneira, estarão bem resolvidas. E aí fiquei pensando: “E aquelas primeiras canções dali da fase dos 16 aos 20 anos, ainda na Paraíba, antes de ir para o Sudeste?”. Eu gostaria de gravar essas canções, que são canções com violão complexo, melodias também bastante complexas. E se eu não fizesse isso agora, depois de tanto exercitar o formato voz e violão, não sei quando poderia fazer. Porque eu tenho muitas músicas novas, um disco semipronto com as músicas feitas na pandemia, com as bases já gravadas. Mas achei que era o momento de me colocar em perspectiva, cantando as coisas daquele adolescente, dos 17 aos 20 anos, dialogando com as coisas mais recentes. Então, dois terços do disco são dessa fase e um terço de coisas mais recentes. E fico muito feliz de poder fazer isso.
Revista Araçá – Que sonhos tinha o Chico César que escreveu essas músicas?
Chico – Eu sonhava com a volta da democracia. Nós vivíamos ainda na época da ditadura quando eu compus estas canções. Sonhava com um povo livre, que se expressasse com liberdade, que pudesse se experimentar em todos os sentidos. Sonhava com uma cultura que pudesse mudar mesmo a vida das pessoas. Uma cultura praticada e vivida por Paulo Leminski, por Nicolas Behr, por Cacaso, tantos poetas incríveis. Era com isso que eu sonhava basicamente.
Revista Araçá – O violão sempre esteve presente em sua vida?
Chico – O violão está na minha vida desde os 13 anos de idade. E dele nunca me separei. Gosto de tocar outros instrumentos, como viola de dez cordas, de 12 cordas, às vezes guitarra elétrica. Mas o violão, para quem o abraça e é abraçado por ele tão cedo, não é apenas um instrumento de trabalho. É um instrumento de afirmação pessoal, de um jeito de estar na vida. E as canções nascem nele, né? O violão brasileiro vem de Baden Powell, de Garoto, de Gilberto Gil, João Bosco, Djavan, Guinga, Elomar, Lenine… Isso é muito marcante, é um jeito de nos expressarmos. Eu estava num Grammy em Los Angeles e todos os latinos, como Celia Cruz, grupos mexicanos, grupos colombianos, estavam se apresentando fazendo um som com suas estridências. Música alta para dançar, para pegar pelo corpo e tal. E de repente o Djavan entrou representando o Brasil e cantou Faltando um Pedaço sozinho ao violão. Aquilo foi tão bonito e tão significativo, dizendo tanto do que é o nosso território, do que nós somos feitos. O violão brasileiro é incrível. É um jeito de ser.
Revista Araçá – Nos últimos anos, você se dedicou a projetos diversos, como o álbum e turnê Ao Arrepio da Lei, com Zeca Baleiro, os já citados 30 anos do álbum Aos Vivos… E agora revela essas canções. O que você ainda sonha fazer?
Chico – Ah, eu quero passar mais 30 anos no palco lançando quantos álbuns forem necessários. Álbuns inspirados, que me coloquem em diálogo com minha época. Quando eu digo minha época quero dizer toda época em que eu estiver presente. Quero levar para o palco esses sentimentos que afloram e se tornam canções. Quero circular com meus ídolos, como Geraldo Azevedo, meus parceiros, como Zeca Baleiro, quero ver surgir gente nova, que nos desafie e que traga o bafo do novo no nosso cangaço e que diga: “Pessoal, vamos lá, anda aí, pedala que nós estamos chegando”. Eu acho lindo isso.
Revista Araçá – Há algum artista que você ainda sonhe em fazer um feat, um álbum ou uma turnê?
Chico – Eu sou artisticamente muito promíscuo, eu gosto de fazer colaborações com artistas diversos. Gostaria de fazer uma colaboração mais intensa com a Lia de Itamaracá, por exemplo, com Ave Sangria, com quase todas as pessoas do Reverbo, com o pessoal da Banda de Pau e Corda, com o pessoal do Quinteto Violado… Gostaria que, em algum momento, Lenine, Zeca Baleiro, Paulinho Moska, Marco Suzano e eu nos reuníssemos outra vez no palco. Acho que os cinco juntos no palco renderiam um bom álbum, uma boa turnê. E eu não digo que isso rende pensando nos ganhos financeiros, eu falo artisticamente. Acho que a minha geração tem muita força. E obviamente isso não se resume a nós cinco. Tem artistas incríveis como Zélia Duncan, Pedro Luís, Fernanda Abreu, Daúde, Vítor Ramil. Nós conseguimos romper com coisas estabelecidas, um espaço que de certo modo parecia muito ocupado pelas coisas que já existiam. E eu estou falando da brilhantíssima geração de Chico Buarque, Edu Lobo, Dori Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mílton Nascimento, a geração posterior com Alceu Valença, Fagner Ednardo, Belchior, Elba Ramalho, Zé Ramalho, João Bosco, Jards Macalé, Luiz Melodia… E a coisa do rock’n’roll que veio depois de tudo isso, o rock nacional, fazia parecer que não havia lugar para uma canção brasileira outra vez. Mas na verdade não, esse espaço esperava por nós. A nossa geração provou, sim, que há lugar para a canção sempre, coisa que o Reverbo fez também, depois do movimento avassalador, positivamente avassalador, que foi o manguebeat. Eu acho lindo esse lugar que a canção pode ocupar.
Revista Araçá – O show do novo disco estreia no Recife. Que laços você tem com a cidade?
Chico – Recife é a primeira metrópole que eu conheci. Quando tinha 11 anos, o meu patrão, Onildo Azevedo Lins, dono da loja Lunik, me colocou dentro do caminhão da Antártica, que vinha abastecer ali em Olinda, meio na divisa Olinda-Recife, e disse: “Vai pegar mercadoria”. Ou seja, livros e discos. Então eu vim na Livro 7, na Editora Ática, na Aky Discos. Foi uma aventura. Um garoto de 11 anos, entrando nesses estabelecimentos comerciais, os adultos olhavam para mim assombrados, e a minha guia era uma prima desse patrão. Eu olhava para a Conde da Boa Vista, essas ruas movimentadíssimas, cheias de gente. Um garoto de Catolé do Rocha, que nunca tinha andado sozinho nem em João Pessoa. A minha ligação com Recife vem daí. De certo modo, eu tenho medo do Recife até hoje. Na verdade, é mais respeito que medo, mas é um respeito um pouco assombroso, vamos dizer assim. E eu não tenho medo de nenhuma outra metrópole. Nem de Tóquio, nem de Berlim, nem de Nova York, nem de Londres, nem de Milão. Mas eu olho para Londres e digo: “Rapaz, te aquieta, eu conheço o Recife”. Ou falo: “Tóquio o quê? Eu já estive lá no Recife”. Recife estabeleceu um patamar muito alto para mim, no sentido de metrópole. Eu era muito garoto, então isso me faz ter um olhar bastante altaneiro para as outras metrópoles. Quando cheguei em São Paulo, pensei: “São Paulo não me assusta nada. Eu já conheço o Recife”. Então, eu acho que foi uma vacina. E, ao mesmo tempo, um gosto, um afeto respeitoso. Eu prefiro as cidades grandes, talvez, porque conheci o Recife tão jovem, tão garoto. E eu tenho outros vínculos. Fui aluno do grande Jomard Muniz de Britto na Universidade Federal da Paraíba, quando fiz o curso de Comunicação Social. Ele que me apresentou Roland Barthes (professor francês) e várias outras coisas interessantíssimas. Tenho ligação com a música de Pernambuco desde Luiz Gonzaga. que é o rei de todos nós, com a música de Alceu Valença, de Geraldo Azevedo, do Quinteto Violado, da Banda de Pau e Corda, que eu ouvia muito lá em Catolé do Rocha, a música de Azulão, que está sempre em mim. A ligação cultural com Pernambuco, com Recife, é muito forte. E é muito alvissareiro para mim escolher a cidade para lançar um disco novo, que praticamente ninguém conhece porque ainda nem chegou direito ao público, mas eu me sinto muito confiante e eu gosto disso.
Revista Araçá – Você atravessou modelos diferentes da indústria cultural. Esteve em pequenas e grandes gravadoras e viu o nascimento do mercado digital. Que lições você tirou de todas essas vivências?
Chico – Olha, os mercados são como se fossem, vamos dizer assim, rios diferentes. Ou às vezes o mesmo rio que vai mudando o curso, né? A lição que eu tiro é a seguinte: muda o tempo, o mundo vira, mas eu só tenho esse barco que sou eu mesmo, que é o meu corpo, que é a minha expressão. Muda o mercado e eu mudo do meu jeito. Mudo porque eu nasci para mudar. Nós artistas somos mutantes. Não apenas Rita Lee e os irmãos Baptista eram Mutantes. Nós todos somos mutantes, mas nós não mudamos para nos acomodarmos às mudanças dos mercados. Nós somos as mudanças estéticas, artísticas, éticas… E o mercado que se vire, né? E eu acho que quando você começa como eu comecei, com um disco que desafiava os modelos do mercado então existente, e eu comecei com Aos Vivos, gravado ao vivo, voz e violão, no momento em que o caminho era começar com um disco bem feito de estúdio, produzido por um produtor mais ou menos conhecido, que agregasse valor e tal… Eu comecei sozinho. Por que não? Eu não tinha dinheiro nem para pagar produtor nem para pagar estúdio e acho que isso foi muito afirmativo. Eu disse para mim mesmo: “Olha rapaz, é você sozinho com esse violão, você com a sua música, você com a sua expressão”. E eu acho que isso vale para todos os artistas: não importa por onde isso vai circular, não importa qual seja o rio, o importante é que você seja o seu barco e que o seu corpo, a sua alma e o seu espírito naveguem com liberdade.
Revista Araçá – Como você vê o movimento musical atual? Que artistas lhe chamam atenção?
Chico – Dona Onete, Lia de Itamaracá, Tom Zé são artistas jovens que me chamam bastante atenção. E por que eu digo jovens? Porque eles se mantêm inquietos, mesmo com tanta idade se mantêm altivos, e eu acho que isso é uma lição incrível. Para mim, que estou numa faixa intermediária, com 62 anos, e para os jovens artistas, eles são muito emblemáticos no sentido de mostrar que o mais importante é fazer o que se gosta. Não tem a ver com idade, não tem a ver com novidade, não tem a ver com cidade, tem a ver com postura. E isso é muito legal. E, lógico, estou atento aos artistas novos. E aí eu cito mais uma vez o Reverbo. Esse movimento de artistas, cantores, músicos, capitaneado no Recife por Juliano Holanda, Almério, Flaira Ferro, Martins, serve de exemplo para que outros também façam. Acho que vale a pena citar Seu Pereira, meu conterrâneo, um compositor incrível, que canta bem, as músicas dele se comunicam imediatamente com o Brasil inteiro, ele tem público em São Paulo, Belém do Pará, Belo Horizonte, Rio de Janeiro… E entre aqueles primeiros jovens artistas que eu citei (Dona Onete, Lia de Itamaracá e Tom Zé) também coloco outra conterrânea, Cátia de França, que está vivendo uma nova adolescência. A novíssima Cátia de França é maravilhosa. Eu fico muito feliz com esse movimento em torno dela, com a juventude abraçando a sua música.
Revista Araçá – E o que o público pode esperar desse novo espetáculo?
Chico – É difícil assim dizer o que o público pode esperar porque é tudo ainda muito novo, mesmo para mim. Muitas canções têm mais de 40 anos, 45 anos, e eu acho interessante ver o público sair de casa para escutar músicas “novelhas”, que são novas e que são velhas. Quem está em cena é o cara que você se acostumou a acompanhar desde o Aos Vivos até o Estado de Poesia, mas de repente ele aparece com algo que não está nesse período em que você o acompanhou. E isso pode ser chocante, pode até ser decepcionante também. A pessoa pensa: “Poxa, era assim que o cara era e tal…”. Mas eu acho que é legal colocar em perspectiva, porque as músicas daquele momento já dialogam com músicas de agora. E no show ainda mais, com outras canções que já fazem parte do imaginário das pessoas, como Mama África, À Primeira Vista, Onde Estará o Meu Amor, Deus Me Proteja. Tudo isso está no show, só que em perspectiva, conversando com esse artista ainda em formação. Eu me acostumei a admirar artistas inquietos, que buscam coisas dentro de si mesmos. A beleza às vezes nem está no acabamento, está na procura.
Revista Araçá – O que Chico César tem de “fofo”?
Chico – Acho que o que eu tenho de mais fofo em mim é a vontade de não ser fofo. Acho que isso é muito fofo em mim (risos).
SERVIÇO
Show “Fofo”, de Chico César
Teatro do Parque, 20h (Rua do Hospício, 81, Boa Vista)
Informações: (81) 99488.6833
Ingressos à venda via Sympla:
R$ 200 e R$ 100 (meia)








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