Lá vem ela: Marília Gabi Gabriela

30 abr 2026

Marília Gabriela e Theodoro Cochrane
A Última Entrevista - Marília Gabriela e Theodoro Cochrane. Foto: Divulgação

Os anos 1980 e suas mulheres icônicas: Hebes, Ritas, Elkes, Zezés, Closes, Moniques, Xuxas. E ela – Barbarella, loura bela, às vezes Cruella – a tal da Marília, Gabi, Gabriela. Marília Gabriela. Eu, uma criança de três ou quatro anos, numa manhã qualquer de 1983 ou 1984, sentado no tapete da sala em frente a uma Telefunken, hipnotizado. Havia algo naquela mulher loira de voz grave, firme, quase teatral, que me capturava de um jeito difícil de explicar. Ela falava abertamente sobre o que era ser mulher num país que ensaiava liberdades, num tempo em que dizer certas coisas ainda exigia coragem e presença.

Curiosamente, ela me fascinava mais do que o colorido exuberante da Turma do Balão Mágico anunciando o início das manhãs. Talvez porque ali não houvesse só brilho e música, mas um certo mistério. Um tipo de autoridade que se impunha pelo timbre, nunca pelo grito. Pela pausa. Pelo olhar.

Eu, um menino curioso da periferia de Olinda, achava intrigante aquela figura. Talvez porque minha mãe, Zenaide – também loira, mas de voz menos grave –, me oferecesse um espelho imperfeito, um quase. E nesse jogo de aproximações e diferenças, eu inventava pontes: imitava Marília no quintal, improvisava entrevistas com personagens invisíveis, criava meu próprio programa de variedades. Ali, sem saber, eu experimentava linguagem, performance e escuta.

Era menos sobre entender o que ela dizia – porque, convenhamos, eu não entendia quase nada – e mais sobre perceber como ela dizia. O gesto, a cadência, a postura, a liberdade de perguntar. Talvez tenha sido um dos meus primeiros encontros com a ideia de que a palavra pode ocupar espaços. Pode abrir caminhos.

Essa lembrança ficou guardada em algum lugar entre a infância e o esquecimento, até que, décadas depois, ela reapareceu com força inesperada. Especificamente em São Paulo, sentado numa plateia, assistindo ao espetáculo A Última Entrevista de Marília Gabriela, que será encenado no Recife, no próximo dia 7, no Teatro RioMar.

De repente, lá estava ela de novo. Não mais através do vidro da televisão, mas ao vivo, em carne, voz e presença. E que presença! Diante dela, conduzindo de forma notável a conversa, seu filho caçula, Theodoro Cochrane. A escolha, além de ser um recurso dramatúrgico engenhoso, é um dispositivo de tensão. Porque não se trata de qualquer entrevistador; trata-se de alguém que conhece os bastidores, as fissuras, as entrelinhas e os silêncios.

O espetáculo se constrói nesse jogo instável entre ficção e realidade. Quem entrevista quem? Onde termina a personagem pública e começa a mulher? E, talvez mais incômodo: o que um filho pode – ou ousa – perguntar à própria mãe diante de uma plateia? Sem a proteção da quarta parede, o público é convocado a participar, quase como cúmplice. O famoso bate-bola de Marília reaparece, mas agora atravessado por camadas de memória, de ironia e de exposição. Há momentos de humor, sim – e eles funcionam demais –, porém o que permanece é uma espécie de vertigem; uma sensação de estar assistindo a algo que escapa ao controle total.

A presença de Theodoro desloca o eixo do espetáculo. Não é apenas sobre a trajetória de uma mulher pública, mas sobre os arquétipos que atravessam a relação entre mãe e filho: confronto, admiração, disputa, cuidado. E feminismo, etarismo, conflitos geracionais – tudo aparece, mas nunca de forma panfletária. O texto provoca porque encarna essas tensões em cena.

E foi impossível não pensar no impacto que aquelas mulheres dos anos 1980 tiveram sobre nós, especialmente sobre aqueles que, como eu, cresceram à margem dos centros de poder, mas com a televisão como janela aberta para outras possibilidades de existência. Elas não apenas ocupavam espaços; elas redesenhavam o que era possível ser em público. No meu caso, aquela mulher de voz grave me ensinou, antes mesmo de eu saber nomear, que falar também é um gesto político. Que perguntar pode ser um ato de coragem. E que existir, às vezes, começa por imitar – até que a gente encontre a própria voz.

Agora, vendo-a ser entrevistada pelo próprio filho, há um deslocamento inevitável: a mulher que antes conduzia as perguntas se oferece ao risco de respondê-las. E talvez seja aí que o espetáculo ganha sua força maior; menos no que revela, mais no que expõe como irresoluto. Lá vem ela. E, de algum modo, eu também venho junto.

Rodrigo Fischer
Rodrigo FischerIlustrador e professor

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