O parto da Arte Plural, vinte anos atrás

14 maio 2026

Fernando Neves
Foto: Gustavo Bettini

O ambiente da casa na rua da Moeda é bonito, colorido, bem iluminado, refrigerado e funcional, mas já foi sujo e deteriorado. O berço e, desde sempre, morada da Arte Plural Galeria era um restaurante e bar com porta metálica de correr, feia que só. Como o dono bebia todas, o bar – Real, o nome dele – faliu, foi abandonado e virou ruína.

O economista Fernando Neves trabalhava bem perto, no Paço Alfândega, e estava a fim de mudar de vida. À época, ao olhar pra trás, via anos e anos de cálculos, finanças, projetos, planejamento, o dia a dia profissional bem arrumadinho. A mente começou a viajar fora dos esquadros matemáticos, e Fernando, que ainda hoje gosta muito de fotografia, reuniu-se com fotógrafos amigos para conversar sobre o que fazer caso comprasse o Real. “Renata Victor, Roberta Guimarães e Roberto Lúcio foram os primeiros cúmplices. Perguntaram se eu estava doido, mas juntaram-se a mim”, ri ele. “Fiz um empréstimo, comprei o bar, derrubei quase tudo por dentro e comecei a reforma”.

Foto da fachada, antes da reforma

Foto: Arquivo da Galeria

Reforma para quê? Inicialmente para um café, do qual a irmã passou a tomar conta. A esposa, Luciana Carvalho, fazia porcelana e ocupou o primeiro andar. Com o tempo, amigos e amigos dos amigos ampliaram a frequência. A Arte Plural funcionava no horário do Paço, das 9h às 21h – a cabeça de Fernando ainda não tinha se desligado totalmente da rotina dos vários shoppings onde trabalhou. Os clientes achavam ótimo porque não faltava conversa boa. O café deu mais que conversa boa à família. “Servir café foi um exercício de humildade para nós e principalmente para mim, eu que estava acostumado a lidar com grandes números”, resume.

O dono da galeria faz questão de dizer que não é marchand simplesmente porque não sabe vender. Prefere se apresentar como empreendedor, ressalta que nunca foi pretencioso e que, na Arte Plural, só se faz o que é do agrado da equipe. O trabalho, garante ele, começou assim e fidelizou a clientela.

A primeira exposição, de Tiago Amorim, veio naturalmente pelo fato de Luciana ter sido aluna dele. Oficinas, cursos, palestras e encontros com fotógrafos ajudavam a irrigar as finanças. A mente calculadamente arrumada de Fernando se bagunçou com a nova vida. Criou-se uma bagunça do bem, criativa. As mesas de trabalho, que eram pra lá de organizadas no tempo dos shoppings e do banco – sim, ele também trabalhou em banco -, ficaram de pernas pro ar. E ele gostava cada vez mais da falta de planejamento, da inexistência de ambição. Foram assim o parto e os primeiros anos.

Quando o olhar de Fernando passeia por entre as vinte e oito obras dos vinte artistas que compõem a coletiva Reviramundo, aberta ao público até 31 de julho, encontra uma pequena parcela dos vinte anos da Arte Plural Galeria. Se esticar a visão desde o parto até os dias de hoje, sai uma síntese: “A gente tem o que contar”.

Paulo André Leitão
Paulo André LeitãoRepórter

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