A força de Índia Morena rompe a lona e brilha na tela em Mambembe

14 maio 2026

Índia Morena
Índia Morena. Foto: Roseira Filmes / Divulgação

Antes de se acenderem as luzes, Índia Morena presta atenção no silêncio que antecede o espetáculo. Gosta do barulho das cordas sendo puxadas, do cheiro da lona, do movimento apressado de quem monta o picadeiro poucas horas antes de chegar a plateia. Aos 82 anos, conhece cada ruído do circo como quem conhece o próprio corpo. Não por acaso. Há mais de sete décadas, a artista pernambucana construiu sua vida inteira dentro dele: entre viagens, aplausos, tragédias, amores, perdas e resistência. Agora, essa trajetória ganha dimensão nacional no cinema com “Mambembe”, novo longa de Fabio Meira, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 14.

Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2006, Índia Morena é a grande força emocional do filme, que mistura documentário e ficção para acompanhar artistas de circos itinerantes do Norte e Nordeste. No centro da narrativa, sua presença parece condensar uma memória coletiva do circo popular brasileiro: a arte feita na estrada, sustentada pela persistência de artistas que continuam existindo mesmo diante da precariedade.

“Esse filme mexeu muito comigo porque ele mostra o circo como ele realmente é. Tem luta, tem alegria, tem cansaço, mas tem também muito amor pelo que a gente faz”, diz Índia Morena. “Quem vive de circo aprende cedo que precisa continuar mesmo quando tudo parece difícil.”

Nascida Margarida Pereira de Alcântara, no Recife, ela começou a trabalhar ainda criança para ajudar a família depois da morte do pai. Cresceu pescando mariscos no mangue, em Afogados, enquanto tentava proteger os irmãos da fome. Mas havia algo que a acompanhava desde cedo: a vontade de cantar. Fazia apresentações improvisadas para vizinhos, decorava canções ouvidas no rádio e transformava a rua em palco.

O primeiro encontro com o circo veio em um concurso de calouros promovido por uma companhia itinerante na Vila São Miguel, nos arredores de Afogados. Foi recebida com deboche por parte do público. “Naquele dia eu pensei: ou eu chorava ou mostrava quem eu era. Resolvi cantar”, relembra. A apresentação emocionou a plateia e mudou o rumo de sua vida.

Pouco tempo depois, Índia já estava integrada ao universo circense. Aprendeu trapézio, contorcionismo, acrobacia, escada giratória, interpretação e canto. Tornou-se uma artista múltipla, dessas que entram e saem do espetáculo o tempo inteiro. Passou por grandes companhias, cruzou fronteiras pela América do Sul e ajudou a consolidar o nome do circo pernambucano dentro e fora do Brasil.

Grupo de pessoas sentadas à mesa

Foto: Roseira Filmes / Divulgação

“Mambembe” captura essa dimensão humana. Fabio Meira evita transformar Índia em uma figura distante ou folclórica. O filme se interessa por sua inteligência, seu humor afiado, sua capacidade de observar o mundo e transformar dor em narrativa. “O circo me ensinou tudo. Me ensinou a trabalhar, a criar coragem, a não baixar a cabeça. Foi o lugar onde aprendi que uma mulher pode ocupar espaço”, revela Índia. Em cena, ela fala do circo como quem fala de um organismo vivo.

Mas a vida sob a lona também carregava violências silenciosas. Índia enfrentou violência doméstica, preconceito e relações abusivas dentro de um ambiente historicamente duro para mulheres circenses. Em muitos circos da época, mulheres desacompanhadas sequer eram aceitas. Ela permaneceu.

“Teve um tempo em que eu achava que precisava suportar tudo para continuar trabalhando. A gente vivia com medo de perder espaço, de ser deixada para trás, de não conseguir mais sustentar a família. Muitas mulheres do circo passaram por isso em silêncio. Depois eu entendi que ninguém tinha o direito de apagar minha voz, minha coragem e tudo o que construí dentro do picadeiro com tanto esforço”, revela.

“Mambembe” também funciona como um retrato melancólico do desaparecimento gradual dos circos itinerantes brasileiros. O filme começou a ser pensado há mais de 15 anos e acabou incorporando à narrativa as mudanças do tempo, as interrupções da produção e o envelhecimento natural dos próprios personagens.

Em meio a isso, Índia Morena surge como símbolo de permanência. Mesmo fora da rotina intensa dos picadeiros, continua participando de ações culturais, palestras e encontros com jovens artistas. Mantém viva a defesa dos direitos dos circenses e fala frequentemente sobre a necessidade de políticas públicas para impedir o desaparecimento dessa tradição.

“Hoje está tudo mais difícil para quem vive do circo. Antigamente a gente chegava nas cidades e encontrava mais acolhimento, mais espaço, mais incentivo para trabalhar. Hoje são muitas exigências, muito gasto, pouca ajuda e quase nenhum apoio para os artistas que passam a vida inteira levando alegria para o povo”, lamenta. “O público continua gostando do circo, continua levando os filhos, continua se emocionando, mas quem está por trás da lona está cansado de lutar sozinho para manter essa arte viva. Se não houver mais cuidado com o circo itinerante, apoio cultural e políticas públicas de verdade, muita coisa pode desaparecer nos próximos anos.”

Vivendo atualmente na Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes, Índia Morena divide a vida há mais de cinco décadas com Maviael Ribeiro, presidente da Associação dos Proprietários e Artistas Circenses do Estado de Pernambuco (Apacepe), que acabou sendo levado ao universo do picadeiro pela própria artista. Hoje, ela sonha transformar sua coleção de figurinos, fotografias e objetos acumulados ao longo da vida em um espaço de memória dedicado ao circo. Guarda vestidos, adereços, recortes, imagens e lembranças de décadas de estrada. Um acervo construído não apenas por objetos, mas por experiências.

No cinema, no entanto, talvez seu maior arquivo seja o próprio rosto. Em “Mambembe”, cada ruga parece carregar uma cidade diferente, um espetáculo desmontado na chuva, uma plateia improvisada, um número executado mesmo diante do medo. Índia não surge apenas como personagem de um filme. Surge como testemunha de um Brasil popular que insiste em sobreviver apesar do abandono.

Entre a lona e o Agreste

Índia Morena

Índia Morena. Foto: Roseira Filmes / Divulgação

Grande parte da força de “Mambembe” nasce no Agreste pernambucano. Entre cidades como Arcoverde e Limoeiro, o longa de Fabio Meira encontra mais do que cenário: encontra um território historicamente marcado pela cultura popular itinerante e pela sobrevivência de artistas que seguem existindo à margem das grandes estruturas culturais do país. É desse interior atravessado por estradas, feiras, terrenos improvisados e lonas montadas temporariamente que o filme constrói sua dimensão mais política.

O longa acompanha um topógrafo solitário, interpretado por Murilo Grossi, que cruza o caminho de três mulheres ligadas ao universo circense: Índia Morena, Madona Show e Jéssica, personagem vivida por Dandara Ohana. Ao longo de anos de filmagem, Fabio Meira transformou a própria instabilidade da produção em linguagem cinematográfica. O envelhecimento dos artistas, os circos desmontados e as marcas da passagem do tempo aparecem incorporados à narrativa.

“É uma honra fazer um filme sobre o circo e ter Índia Morena como protagonista. Ela é a alma de ‘Mambembe’, por isso é a figura central do cartaz”, revela o diretor. “Eu procurava alguém completamente diferente para o papel, mas a força dela acabou mudando o filme.”

O projeto começou a ser desenvolvido quando Fabio estudava cinema em Cuba. Em 2010, o diretor percorreu cidades do Norte e Nordeste do país em busca de mulheres circenses que pudessem conduzir a narrativa. Sem recursos financeiros, o longa acabou interrompido durante quase dez anos. Quando a produção foi retomada, em 2018, os personagens já haviam envelhecido, os circos estavam ainda mais fragilizados e o próprio filme havia sido transformado pela passagem do tempo.

“Eu nunca desisti do filme”, enfatiza Meira. “No começo, existia uma ingenuidade muito grande de achar que conseguiria filmar rapidamente e captar recursos depois. Mas o projeto foi recusado inúmeras vezes. Quando consegui voltar, percebi que o tempo tinha virado parte central da narrativa.”

“Mambembe” expõe suas interrupções, questiona seus próprios caminhos narrativos e transforma a demora em elemento dramático. O resultado é um filme que discute não apenas o universo circense, mas também as condições de produção do cinema brasileiro fora dos grandes centros e dos modelos industriais.

Ao colocar o Agreste pernambucano no centro da narrativa, Fabio também desloca o olhar sobre Pernambuco para além das imagens mais recorrentes do litoral. O interior surge como espaço de permanência cultural, mas também de abandono. Em “Mambembe”, os terrenos vazios onde os circos tentam se instalar, as estradas percorridas pelas caravanas e os relatos de artistas exaustos revelam um país em que tradições populares seguem sobrevivendo muito mais pela insistência de seus artistas do que por políticas efetivas de preservação.

Nesse contexto, Índia Morena deixa de ser apenas personagem para se tornar síntese dessa resistência. Sua presença em cena carrega não só a memória do circo popular nordestino, mas também a dimensão de um cinema que insiste em existir.

“Enquanto eu tiver força, vou continuar falando do circo. Porque o circo foi o que salvou minha vida”, resume Índia. Em “Mambembe”, a frase ultrapassa o relato pessoal e sintetiza a dimensão humana e política do longa de Fabio Meira.

Mais do que falar sobre espetáculo, o filme entende o circo como modo de existência, memória e sobrevivência afetiva. E talvez seja exatamente isso que a obra compreenda: algumas pessoas apenas passam pelo picadeiro. Outras acabam se confundindo com ele.

Pedro Cunha
Pedro CunhaJornalista

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