Aguinaldo Silva nasceu em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, em 1943, em uma família que não tinha muito além da vontade de que o filho estudasse. O pai trabalhava em um posto de gasolina. A mãe se chamava Maria do Carmo. Quando Aguinaldo terminou o primário, a família inteira se mudou para o Recife para que ele pudesse continuar nos bons colégios, os caros, que o pai bancava com um esforço que Aguinaldo descreveu décadas depois como um sacrifício do qual só compreendeu o tamanho quando já era adulto. Conto isso não para romantizar pobreza nordestina, narrativa da qual já temos estoque suficiente, mas porque essa origem atravessa tudo o que ele escreveu, e ignorá-la é perder a chave da obra inteira.
Ver esse autor ainda no centro da TV brasileira tem um sabor particular para quem é de Pernambuco. Não vou fingir neutralidade aqui. Há algo que vai além do orgulho regional, embora ele também exista: a satisfação de ver um talento com identidade forte envelhecer melhor do que muita gente que passou a vida tentando seguir o que estava na moda. Aguinaldo nunca tentou parecer contemporâneo. Talvez por isso ainda o seja.
A cidade natal não aparece nas novelas de Aguinaldo como cenário nem como nostalgia. Aparece como método. Quando criou Greenville, em “A Indomada”, cidade fictícia do interior na divisa da Bahia com Pernambuco, supostamente colonizada por ingleses, com uma aristocracia local que não fazia sentido nenhum e, ao mesmo tempo, era completamente verossímil, ele não estava inventando loucura por loucura. Estava fazendo o que as pessoas que cresceram no interior pernambucano aprendem cedo: enxergar o absurdo como dado da realidade, não como exagero. O Cadeirudo entrou para o imaginário popular com a naturalidade com que o Nordeste convive com suas próprias lendas, sem precisar que ninguém explique a razão. É diferente do que o audiovisual brasileiro costuma fazer quando se volta para o Nordeste, que é transformá-lo em problema social a ser interpretado por quem veio de fora. Aguinaldo olhou para dentro e achou linguagem.
A volta de Aguinaldo Silva à TV Globo, com “Três Graças” (cujo último capítulo será exibido nesta sexta, 15 de maio), foi, antes de qualquer coisa, uma segunda chance que ele mesmo talvez não esperasse ganhar tão cedo, ou tão tarde. Em janeiro de 2020, depois de mais de quatro décadas de casa, a emissora não renovou seu contrato. O motivo talvez tenha sido o fracasso de “O Sétimo Guardião”, novela de realismo fantástico que não encontrou o fio e foi perdendo o público antes de ter condições de se reencontrar. Sobre a saída, Aguinaldo disse ao jornal O Globo, com a ironia seca que é sua assinatura: “Sempre disse que não tinha mágoa da Globo. Pelo contrário, devo muito. E ela também me deve. Estamos empatados e seremos felizes para sempre”. A frase é boa demais para ser simples. Tem orgulho, tem acerto de contas, tem humor e não resolve nada, que é exatamente o que fazem as melhores frases de Aguinaldo Silva.
“Três Graças” chegou ainda carregando outro peso involuntário: estreou logo depois do remake de “Vale Tudo”, trama da qual Aguinaldo foi um dos autores originais, ao lado de Gilberto Braga e Leonor Bassères. A adaptação reacendeu a memória afetiva de uma geração, mas não replicou a força política da versão original. Aguinaldo entrou em cena depois disso, e parte dos telespectadores ainda estava com aquele sabor agridoce na boca.
A nova história foi escrita com Virgílio Silva e Zé Dassilva e trouxe um detalhe que muitos não perceberam de imediato: pela primeira vez, Aguinaldo ambientou o enredo em São Paulo, em uma comunidade da Zona Norte da cidade. A decisão foi calculada, pensada para reconquistar o público paulistano que vinha se distanciando do horário nobre da Globo. E funcionou, ao menos no que a televisão ainda mede com obsessão: audiência, chegando a picos de 27 pontos no Ibope.
Tudo acontece em torno de três mulheres de gerações diferentes da mesma família. Em comum, o fato de terem enfrentado uma gravidez na adolescência e criado as filhas sem a presença paterna. Gerluce é a protagonista, vivida por Sophie Charlotte em sua primeira experiência como mocinha do horário das nove, uma mulher que articula um roubo por justiça social sem pedir licença ao melodrama convencional. Dira Paes faz Lígia e Alana Cabral é Joélly, completando o trio que dá nome à novela. Do outro lado, Grazi Massafera entregou Arminda, sua primeira grande vilã, com uma presença que tomou as redes sociais semana após semana. Murilo Benício interpreta Ferette, empresário e político cúmplice em um esquema que vitimava os mais pobres. Os dois juntos sustentaram o coração da trama durante boa parte do folhetim.
O título merece uma nota: “Três Graças” remete à escultura de Antonio Canova, obra neoclássica inspirada nas três divindades do encanto, da alegria e da beleza na mitologia grega. Na novela, a peça que desencadeia o enredo é uma estátua cenográfica inspirada nessa tradição, que durante muitos capítulos ficou escondida no quarto secreto da mansão de Arminda. Aguinaldo usa a referência sem precisar explicá-la. Quem conhece Canova encontra uma camada a mais. Quem não conhece acompanha a trama sem perder nada. Esse equilíbrio é uma das habilidades mais difíceis de qualquer dramaturgo, e ele exerce isso há décadas sem aparente esforço.

A conterrânea Arlete Salles viveu várias personagens criadas pelo autor.
Foto: Victor Pollak/TV Globo
A pernambucana Arlete Salles marcou presença na novela como Josefa, mãe da vilã Arminda, e isso não é uma escala qualquer. Ela faz parte do universo do conterrâneo desde “O Outro”, passando por “Tieta”, “Pedra sobre Pedra”, “Fera Ferida”, “Porto dos Milagres” e “Fina Estampa”. São quase 40 anos de parceria, e parceria é mesmo a palavra certa, não convivência profissional. Aguinaldo cria mulheres que parecem ter história antes do primeiro capítulo, com um passado que a tela não precisa revelar inteiro. Arlete não explica a personagem. Deixa ela existir. É uma distinção pequena na descrição e enorme na tela.
Ex-repórter policial do clássico jornal Última Hora, Aguinaldo nunca foi um autor que tentou se atualizar à força. Não correu atrás de linguagem de série, não tentou parecer menos folhetinesco do que é, não pediu desculpa pelo melodrama. Continua fazendo mulheres fortes que entram nas nossas casas e ali permanecem, vilões que o público odeia com afeto, bordões que sobrevivem às novelas por anos. Nazaré Tedesco é o caso mais evidente, eternizada pelas cenas de escada e que virou meme antes mesmo que a palavra existisse no vocabulário cotidiano. Antes dela vieram Perpétua, Adma, Maria Regina. Do outro lado, o mordomo Crô, Giovanni Improtta, Téo Pereira e José Alfredo, o Comendador. Gente que existiu além da tela. E Maria do Carmo, claro, a protagonista de “Senhora do Destino” inspirada em sua própria mãe, que comoveu o país na busca por uma filha sequestrada ainda bebê. Seus personagens foram mais longe do que muita teoria sobre cultura popular.
A última palavra, como quase sempre, fica com Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque, vivida por Eva Wilma em “A Indomada”: “Oxente, my God… Aguinaldo Silva is the ABSOLUTE autor das narrativas brasileiras”.






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