Por Lorena Falcão
Quando o inconsciente e subjetivo encontram o real e objetivo, surgem coisas como essa. Há um bom tempo eu estava com vontade de pintar uma boneca. Não sabia o motivo e muito menos qual boneca seria. Considerei a clássica boneca loira dos filmes e até bonecos da marca de peças de montar, porém, a decisão veio quando meu namorado chegou em casa após um dia de ensaios da série de que participou e me contou que falou de mim para uma das atrizes – travesti – que contracenava com ele. Ao mostrar uma foto minha, a reação dela foi: “Que linda, parece uma bonequinha!”. Era esse sentimento que estava faltando: o fofo, e para acessá-lo tive certeza de que precisava fazer uma boneca de porcelana… mas qual?
Na busca, me deparei com o livro “Brinquedos subliminares: doutrinação de crianças e introjeção de papéis sociais no Rio de Janeiro oitocentista”, de Tania Andrade Lima, e nele achei perfeitamente o que havia imaginado: a figura 12 do livro ilustra uma “Frozen Charlotte”.
A partir disso, iniciei a pintura, mas ainda sentia falta de algo. Foi aí que caiu a ficha de algo que estava na cara, mas a que não estava dando atenção: boneca no pajubá quer dizer travesti. Quando me dei conta disso, a obra ganhou uma dimensão enorme e tive certeza do que estava faltando: uma neca. Pintei um pênis, não ereto, afinal, a proposta da boneca é para ser infantil. A pequena boneca de neca estava finalizada.
Foi assim que surgiu a primeira boneca de porcelana, uma representação do que era Lorena em porcelana. Porém no decorrer do tempo ela foi exposta na feira Art.PE 2025 e foi adquirida. Não foi uma simples venda, foi um gesto de partilha e apoio nessa minha trajetória de artista. Bárbara Banida (artista e curadora cearense) chegou ao stand da Galeria Capibaribe encantada e assim que disse que iria levar a bonequinha eu explodi de emoção, pois eu ou a representação de mim estaria com outra mulher trans/travesti!
Nessa movimentação também conheci o trabalho de Bárbara, com seus totens e formas cerâmicas, e percebi uma similaridade: ela também trabalha com porcelana. Já que ela me levou, nada mais justo que fazer uma obra em sua homenagem, então Boneca Banida é uma homenagem a essa grande amiga que me apoiou num momento tão especial!
Lorena Falcão é mulher trans, pessoa com deficiência e bacharel em Artes Visuais pela UFPE. Finalizou na semana passada sua terceira individual no Centro de Design do Recife e está em produção de novos projetos.





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