Entre a repressão e o afeto

21 maio 2026 | 0 comentários

Gianecchini e Casadevall
Gianecchini e Casadevall se apresentam no Teatro do Parque. Foto: Priscila Prade / Divulgação

Por Pedro Cunha

Do lado de fora do prédio, Roma celebra o fascismo como espetáculo. Bandeiras ocupam as janelas, marchas atravessam as ruas, e milhares de pessoas acompanham a visita de Adolf Hitler à Itália de Benito Mussolini em maio de 1938. Dentro de um apartamento silencioso, porém, um homem sozinho tenta reorganizar os próprios pedaços depois de ser demitido, perseguido e transformado em ameaça por causa da própria existência. É desse lugar de vulnerabilidade que Reynaldo Gianecchini parte para construir Gabriele em Um Dia Muito Especial, espetáculo em cartaz sábado (23) e domingo (24), no Teatro do Parque.

Adaptada do clássico dirigido por Ettore Scola em 1977, a montagem coloca Gianecchini diante de um personagem distante dos galãs que ajudaram a consolidar sua imagem na televisão, como o Edu de Laços de Família e o divertido Pascoal de Belíssima. Em Um Dia Muito Especial, ele interpreta um radialista gay antifascista, que acaba de perder o emprego por causa da orientação sexual e teme ser levado pelo regime. Sozinho no prédio enquanto a cidade acompanha a parada militar que celebra a aproximação política entre Hitler e Mussolini, ele atravessa um dia suspenso entre medo, humilhação e desesperança.

Tudo muda quando o pássaro de estimação da vizinha Antonietta invade seu apartamento. Interpretada por Maria Casadevall, ela surge inicialmente como o oposto de Gabriele: uma dona de casa conservadora, moldada pela lógica fascista e dedicada integralmente ao marido e aos seis filhos. O encontro entre os dois, porém, desmonta aos poucos as certezas construídas pelo regime. É essa relação improvável que mais mobiliza Gianecchini.

“O que me comove na peça é a relação entre esse homem e essa mulher que são opostos naquele contexto sociopolítico. A tendência seria um julgar o outro, um não ouvir o outro. E eles fazem justamente o contrário. Eles se acolhem e conseguem se conectar com o lado humano de cada um”, afirma, em conversa exclusiva com a Revista Araçá.

Gianecchini

Gianecchini interpreta um radialista gay antifascista. Foto: Priscila Prade / Divulgação

Sob direção de Alexandre Reinecke, a peça abandona excessos cenográficos para concentrar força nos atores e nas tensões emocionais da história. Reinecke adaptou o texto a partir da tradução de Célia Tolentino e optou por uma encenação mais íntima, interessada menos em reproduzir literalmente o filme e mais em aprofundar as fragilidades dos personagens.

No centro disso está Gabriele. Um homem que carrega humor, delicadeza e melancolia ao mesmo tempo. Em vários momentos, Gianecchini permite que o personagem escape da tragédia e encontre pequenas brechas de leveza, ironia e até comicidade. Há um corpo menos rígido em cena, distante da postura tradicionalmente associada à masculinidade clássica.

Talvez por isso o ator diga enxergar nesse trabalho um prolongamento das escolhas que vem fazendo nos últimos anos, especialmente depois do fim dos contratos fixos na televisão. “Eu tenho escolhido a dedo os personagens que me interessam, principalmente aqueles que quebram um pouco os rótulos do galã, do mocinho, do herói”, confessa ele. “Eu adoro ousar em outros personagens, fazer coisas que estejam distantes daquilo que todo mundo espera de mim”.

Essa vontade de romper expectativas aparece também na maneira como ele encara o próprio ofício. Gianecchini fala sobre o prazer de experimentar personagens contraditórios, vulneráveis e até ridículos em cena — não no sentido pejorativo, mas humano. “O mais interessante da profissão de ator é poder viver várias vidas diferentes. Não ficar preso numa zona de conforto fazendo sempre aquilo que as pessoas esperam. Quanto mais distante de mim ou do que esperam de mim, mais prazer eu tenho”.

Em Um Dia Muito Especial, essa distância não está apenas na composição estética do personagem, mas principalmente nas discussões que ele provoca. O artista vê a peça como parte de uma trajetória mais recente em que passou a buscar trabalhos ligados à liberdade de existir e às complexidades da identidade.

“Esse trabalho tem sido mais um passo em aliar o artista que eu sou com a forma como eu quero me comunicar. Quando a gente mergulha em um personagem, entende mais sobre o ser humano e sobre nós mesmos”, depõe o ator. “Venho fazendo isso com as antenas muito ligadas para entender os universos que esses personagens me propõem”.

Ele cita, inclusive, a conexão entre Gabriele e papéis recentes ligados ao universo LGBTQIA+, como Mitzie Mitosis em Priscilla, a Rainha do Deserto. Mas, enquanto o musical celebrava a liberdade através do excesso, Um Dia Muito Especial caminha por um território mais duro. “No caso de Priscilla, era um espetáculo lindo, emocionante, cheio de brilho. Aqui é mais trágico. O homem gay em 1938 era perseguido, levado para os campos de concentração. Então existe uma dor muito forte nesse personagem”, opina.

Ainda assim, Gianecchini acredita que tanto Gabriele quanto Antonietta falam, acima de tudo, sobre o direito de existir sem precisar pedir autorização. Na peça, Antonietta talvez represente uma das faces mais silenciosas dessa opressão. Enquanto Gabriele sofre diretamente a violência do regime por ser gay e antifascista, ela vive aprisionada dentro da estrutura doméstica criada pelo próprio fascismo. A personagem repete discursos conservadores, mas também revela, aos poucos, o desgaste de uma mulher reduzida apenas ao papel de mãe e esposa.

Para o ator, Maria Casadevall constrói essa transformação de maneira gradual, evitando julgamentos fáceis. Sua Antonietta começa a perceber que também foi moldada por um sistema que define quem merece existir plenamente e quem deve apenas obedecer. “O regime autoritário tem reflexo gigante nesses personagens. Ambos sofrem com esse sistema, ambos se sentem solitários e oprimidos, mesmo estando em lados diferentes”, observa Gianecchini.

Ao longo da tarde compartilhada entre os dois vizinhos, nasce uma intimidade que desafia classificações simples. Existe desejo, mas também acolhimento, escuta e identificação. A relação ultrapassa a lógica convencional do romance. “A sexualidade também passa pelos afetos. Eles vivem um apaixonamento muito intenso, mesmo que dure apenas um dia”, comenta o ator, que afirma se identificar com uma ideia mais fluida da sexualidade.

Em cena, Gianecchini também encontra espaço para um dos momentos mais fortes da montagem: um discurso em que Gabriele desabafa sobre a pressão imposta aos homens para performarem força, virilidade e controle emocional. “Essa cobrança de que os homens precisam ser durões e nunca vulneráveis é muito tóxica”, diz ele. “Está ligada a um modelo machista de sociedade que continua sendo muito opressor. Essa é uma dor que eu compartilho com o personagem”.

Embora ambientada na Itália fascista, a peça evita transformar o contexto histórico em algo distante. Há referências italianas nas músicas, nos gestos e na atmosfera da encenação, mas a sensação é de que os conflitos apresentados continuam ecoando no presente. Gianecchini, que possui cidadania italiana, diz existir uma relação afetiva muito forte com a cultura de lá. Ainda assim, acredita que a força da peça está justamente em ultrapassar fronteiras. “Quando a gente fala de coisas humanas, isso supera tempo e cultura. Em algum momento, o público deixa de olhar para aquilo apenas como uma história da Itália de 1938”.

Talvez porque Um Dia Muito Especial entenda algo essencial sobre os autoritarismos: eles não vivem apenas nos discursos inflamados ou nas multidões que marcham nas ruas. Também sobrevivem nos silêncios, nos afetos reprimidos, nas masculinidades sufocadas e nas pessoas que aprendem a esconder quem são para continuar existindo.

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