Por Paulo André Leitão
Cristiano Ramos não é um estreante. Conhecido por seu olhar afiado na crítica literária, mais de dez anos depois de seu primeiro livro, o poemário Muito antes da meia noite (Confraria do Vento, 2015), lança agora pela Patuá Mil novecentos setenta cinco, sua chegada ao romance como um furacão, em uma narrativa na qual o silêncio é parte da estrutura.
Nesta entrevista, ele nos fala do processo de construção da protagonista e narradora Marina, uma mulher que enfrenta as violências da ditadura e que desde o começo conhece seu final trágico. Como o próprio Cristiano define, o título do livro é mais que uma data: funciona como uma contagem regressiva. “Contagem essa que jamais terminou.”
Revista Araçá — Por que você escolheu uma mulher como protagonista de Mil novecentos setenta cinco?
Cristiano Ramos — Não planejei ter uma narradora. Mas o primeiro protagonista, homem, simplesmente não funcionou. Além da sensação de que faltava algo, ele parecia demais comigo (pelo menos era isso que eu sentia). Ao mudar o gênero, ao “criar” a Marina, tudo fluiu. As peças não só se encaixaram, elas ganharam força, enriqueceram o enredo de uma forma que não seria possível com um personagem masculino. Em dois fins de semana, o livro estava pronto. Saí desse processo com a convicção de que, pelo menos nos textos em prosa, eu consigo render bem mais quando me imponho essa distância, esse exercício de alteridade.
Revista Araçá — Você teve receio, por ser um homem escrevendo sobre uma personagem feminina?
Cristiano Ramos — Com certeza. Pensei que eu me expunha ao risco não só de ser criticado, como também cancelado. Lembrei-me, então, de uma fala do escritor Jefferson Tenório, para quem um autor branco só deve optar por narradores negros se for algo realmente essencial à obra, uma escolha incontornável. Creio que vale o mesmo para a representação da mulher. Mas, veja bem! Não estou ditando regras, é só o meu modo de lidar com o assunto.
Revista Araçá — A situação das mulheres que lutavam contra a ditadura era muito diferente em relação à dos homens.
Cristiano Ramos — Muito. A começar pelo sentimento de solidão. Além de serem minoria, elas enfrentavam a falta de confiança de muitos dos seus companheiros de luta. Havia sempre a suspeição. Elas seriam capazes de cumprir os treinamentos, de executar as missões que lhes fossem designadas? Ao serem presas, suportariam pelo menos 24 horas de tortura, para que os militantes do grupo, do lado de fora das grades, percebessem a situação e tivessem tempo de desmobilizar aparelhos e fugir?
Revista Araçá — E a violência do regime contra as mulheres era maior…
Cristiano Ramos — Bem maior. Logo na chegada aos porões, era comum que fossem deixadas nuas. E a nudez imposta a elas tinha um impacto muito mais forte, assim como o modo como eram tocadas, como seus corpos eram invadidos, transformados em válvula de escape para um ódio que ia muito além da simples repressão a opositores do regime. É muito comum, nos depoimentos de mulheres que sobreviveram àquele inferno, afirmações do tipo: “Eles nos olhavam e tocavam de forma muito diferente, com muito mais ressentimento, raiva, nojo”.
Revista Araçá — Como você explica a presença de tantos espaços em branco, de tantos silêncios na narrativa, apesar de a história se passar basicamente em sete dias?
Cristiano Ramos — Uma das coisas que pensei foi: não vou usar monólogos intermináveis, páginas e páginas seguidas de fluxo de consciência. Não combinava com o momento da personagem, nem causaria nos leitores o efeito que eu desejava. Porque imagina essa protagonista, voltando do exílio e novamente na clandestinidade, escondida numa kitnet, sem saber o que seria da sua vida, da militância (após a luta armada ter sido aniquilada já nos anos anteriores)! E precisando comer, cuidar da saúde, estar atenta a tudo em seu redor!
Se nós mesmos, em nossas vidas tão menos agitadas, não conseguimos nos prender a uma memória ou reflexão por tanto tempo, se a todo instante algo interrompe os nossos pensamentos, por que com essa personagem (em situação tão precária) seria de outra forma?
Optei, então, por breves passagens entre muitos silêncios. E, nestes espaços sem texto, o leitor pode até se tornar mais próximo da Marina, imaginando o que ela teria feito, pensado e sentido durante os intervalos da narrativa. Umberto Eco dizia que o romance é uma máquina preguiçosa, que deixa boa parte do seu trabalho para os leitores. Digamos que o meu livro é um tanto a mais!
Revista Araçá — Você falou de fluxo de consciência. Lembrei-me de Clarice Lispector. Além de citá-la, você colocou uma barata em cena.
Cristiano Ramos — Sim. E tem um lance muito sutil, mas que considero relevante: todas as referências masculinas que aparecem são, em maior ou menor grau, impostas à personagem. Até os três últimos livros que ela lê na vida, todos publicados no Brasil naquele 1975 (Zero, de Ignácio de Loyola Brandão; Dentro da noite veloz, de Ferreira Gullar; e Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar), foram deixados na estante por um homem. Ela não os escolheu.
Já as mulheres citadas ou referenciadas no romance (cineastas, cantoras, escritoras etc.) são memórias espontâneas, carregadas de afeto, de significações — e sempre com uma radical corporeidade, que é algo muito forte nas memórias, reflexões e produções artísticas das mulheres.
Revista Araçá — Voltando ao silêncio, ou melhor, aos silêncios, e também lembrando os bilhetes deixados para Marina (escritos numa máquina de datilografia com teclas a menos), como foi trabalhar isso em termos gráficos?
Cristiano Ramos — Eduardo Lacerda, editor da Patuá, optou por um formato maior para o livro e diagramou as páginas de forma a amplificar esses silêncios. Ele realmente dedicou muito carinho à feitura desse projeto. A delicadeza da edição, levada até o mínimo detalhe, foi algo que me tocou profundamente.
Quanto aos bilhetes, meu amigo e escritor Wellington de Melo foi dos primeiros a ler o livro. Apaixonado colecionador de máquinas de datilografia, ele deu “corpo” aos bilhetes e me mandou. Alguns aparecem como imagem mesmo no livro, que tem essa coisa de misturar epígrafes, documentos, poemas, letras de canções da época… Creio que esse lance seria ainda mais radical se o livro não tivesse sido enviado para um concurso, algo que impôs limites à formatação.
Revista Araçá — Ele foi inscrito em um concurso literário?
Cristiano Ramos — Sim. Na verdade, a ideia inicial de escrever um romance teve um motivo bem prático: conseguir dinheiro para dois outros projetos independentes, livros de poesia que eu tenho prontos e certamente nenhuma editora convencional toparia bancar. Mas Mil novecentos setenta cinco e a Marina chegaram como um furacão. Mudaram tudo, inclusive meus planos profissionais e literários.

Foto: Reprodução
Revista Araçá — Por que os seus livros de poesia inéditos não seriam aceitos numa editora convencional?
Cristiano Ramos — São projetos muito experimentais, radicais mesmo. Nem tanto quanto aos poemas, mas no que se refere a questões de autoria, natureza dos paratextos, conceito do objeto livro.
Revista Araçá — Apesar do inegável papel político da obra, Mil novecentos setenta cinco buscou evitar o tom panfletário. E, de fato, quase todo o livro evita cair nessa cilada. Mas, no desfecho do romance…
Cristiano Ramos — Aí foi proposital. Ao longo do livro, o leitor perceberá que existe mais de uma narradora, que elas mantêm um laço de parentesco e são de gerações diferentes. Enquanto a maior parte do romance é aparentemente contada a partir do ponto de vista da Marina, a parte final possui outra voz, com outro modo de se relacionar com o passado, lutas e textos.
Mas é importante destacar: todas as falas que usei na cena de desenlace, onde um colaborador da ditadura confessa ter traído e levado ex-companheiros à morte… Todas aquelas palavras foram realmente ditas, por figuras reais, em momentos variados de nossa história, e com toda desfaçatez. De um famoso “cabo” ao ex-presidente da República — passando até por um pastor que, no passado, tinha como profissão executar pessoas e levar os corpos para serem queimados na usina de um apoiador do regime.
Se a parte final do livro restou panfletária, é porque a realidade ficcionalizada — a história desse nosso país, com tantos apagamentos e contas abertas — é de um absurdo muitas vezes irredutível.
Revista Araçá — O que você acha do comportamento das esquerdas diante dessa realidade e de como têm levado isso para o campo das artes? Elas não lhe parecem muito reativas, sempre a reboque das falas e ações da direita?
Cristiano Ramos — Acho que sim. De fato, os setores mais reacionários têm nos pautado. Precisamos assumir as rédeas dos discursos, descobrir outros caminhos, fazer da arte um instrumento para superar esse problema de agenda — como ela já provou diversas vezes que é capaz. Mas eu não saberia dizer como. Não posso apontar caminhos para terceiros. Apenas evitei (no meu romance) reproduzir o que vejo, por exemplo, nas redes sociais.
Revista Araçá — Que seria?
Cristiano Ramos — Um ambiente onde as pessoas estão sempre com pressa e necessidade de ter opinião sobre todos os assuntos, de tecer julgamentos sobre qualquer coisa. Apesar de ser uma narrativa curta, um romance com fôlego de novela, ou mesmo de conto, as urgências do Mil novecentos setenta cinco são de ordem diferente, buscam justamente não perder de vista as complexas dimensões humanas, não lidar de forma rasa com o plano da identidade, dos afetos, traumas.
Revista Araçá — Você acha que a sociedade brasileira atual não conhece o seu passado, não tem uma visão rigorosa do que aconteceu?
Cristiano Ramos — Nunca teve. E temo que a situação só piore. Eu evito muito ser saudosista, tenho pavor de me transformar num velhinho com respostas para tudo, de começar a dizer que nossa geração era melhor nisso e naquilo. Mas acho que algumas coisas são inegáveis. Basta entrar nas redes sociais, em canais com perfis os mais diversos, para perceber que as pessoas querem gastar o mínimo de tempo possível buscando informações, e o máximo de horas e energia emitindo opiniões — sempre de forma convicta, apaixonada, feroz.
Quantas pessoas hoje em dia, por exemplo, têm paciência e disposição para realmente estudar, antes de sair por aí dando aulas e ditando regras? Quantos desses jovens que vivem na internet dando pitaco sobre Nietzsche, por exemplo, topariam ver — pelo menos — uma aula de duas ou três horas no YouTube, na qual o grande professor Roberto Machado fala sobre o eterno retorno?
Não são apenas os jovens. Certa vez, levei proposta para um experiente editor aqui da cidade. Era justamente uma entrevista com esse filósofo pernambucano, renomado especialista e um pioneiro difusor no Brasil das obras de Nietzsche, Deleuze, Foucault… A resposta que tive foi: “O Roberto que conheço é Rei; e Machado, o comentarista da Globo”.
Revista Araçá — Por que esse título por extenso e sem a conjunção “e”? Para não confundir com outro livro de mesmo nome?
Cristiano Ramos — Na verdade, são outras razões. A ausência do “e” é uma referência aos desaparecidos políticos, aos apagamentos de nossa história, às minorias que ainda sofrem com a invisibilidade. E, dessa forma, o título também deixou de ser mais uma data; passou a funcionar também como contagem regressiva. Mil… novecentos… setenta… cinco…
Contagem essa que jamais terminou.





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