Mulheres forrozeiras

25 jun 2026 | 0 comentários

Por José Teles                                                        

Projeto de autoria da vereadora Luciana Boiteux, desde 6 de setembro de 2023, o Rio passou a ter, no calendário oficial da cidade, o Dia Municipal da Forrozeira – Carmélia Alves que naquele ano completaria cem anos (faleceu em 2012). Filha de pai cearense e mãe baiana, nascida no Rio, ela começou a carreira em 1943, contando-se da estreia em disco, com dois sambas. Descobriu a música nordestina, e pernambucana, o baião em particular, numa temporada que realizou, no Recife em 1950, com o marido, o cantor Jimmy Lester. O casal fez muitas amizades na cidade, e Carmélia Alves, na volta, levou na bagagem composições de Luiz Bandeira e Capiba.

Assim como as demais intérpretes da era do rádio, Carmélia Alves abraçaria o gênero da vez. O baião, no final dos anos 1940, entrou na moda, um ritmo adaptado do intermezzo tocado na viola pelos repentistas, entre um improviso e outro de versos. Ela e a maioria dos colegas passaram a priorizar o baião e mais ritmos estilizados por Luiz Gonzaga e parceiros. O sucesso do baião foi arrasador como nunca aconteceu a nenhum gênero musical no país antes, nem mesmo com o iê-iê-iê. Basta uma conferida na parada das dez mais da Revista do Rádio, no mês de junho de 1951. Sete das mais tocadas são baiões.

É indiscutível que Luiz Gonzaga foi o responsável pela febre do acordeom que se espalhou pelo Brasil. Claro, não foi o pioneiro, inspirou-se, entre outros, no gaúcho Pedro Raimundo, mas com o estouro do baião, surgiu uma leva de intérpretes copiando a música de Lua no Sudeste, e imitadores no Nordeste. Um grupo em especial ganhou notoriedade. Inicialmente ficou conhecido como a Tropa de Choque do Rei do Baião, formada pelo sanfoneiro Abdias, sua mulher, Marinês, no triângulo, e o zabumbeiro Cacau. Mas a adesão da cantora ao forró foi sugestão de Abdias, pois na Rádio Borborema, de Campina Grande, da qual era contratada, e onde se conheceram, Marinês seguia um repertório das estrelas do rádio, Emilinha, sua preferida, mambos, boleros, foxe, sambas. Passou a cantar os sucessos de Luiz Gonzaga, enquanto o trio perambulava pelo Nordeste. Sem questão de dúvidas, ela se tornou a mulher pioneira no forró, termo que somente no início dos anos 60 seria empregado definitivamente para designar o balaio de ritmos cantados por Luiz Gonzaga.

Encontro histórico de Marinês e Luiz Gonzaga, 1955. Foto Acervo da Família de Luiz Gonzaga

Um parêntese. Até por volta de 1960, no Nordeste, forró e samba se confundiam com o local onde eram dançados. Samba vem desde o século 19, pelo menos. O nome é encontrado pela primeira vez na imprensa, em 1838, no jornal recifense O Carapuceiro, do Padre Lopes Gama. Em "O Cheiro da Carolina" (Zé Gonzaga/Amorim Roxo), lançada por Luiz Gonzaga em 1956, dizem os versos iniciais: “Carolina foi pro samba/Carolina/Pra dançar o xenheném/Carolina”. Segundo Chiquinha Gonzaga em entrevista para o autor deste texto, a música já era tocada pelo velho Januário, quando era criança, o nome do autor perdera-se no tempo. De maneira que quando Marinês começou a cantar com Abdias não se falava ainda em forró, mas ela já era forrozeira. 

Pode-se considerar o marco zero da mulher no forró a estreia de Marínês em disco, quando gravou "Mané e Zabé", com Luiz Gonzaga, em 1956. Mesmo ano em que o paraibano Zito Borborema lançou "Forró no Alecrim", da dupla de pernambucanos Venâncio e Corumba, primeira vez em que o termo aparecia em rótulo de discos significando um gênero musical. Coincidência, uma suburbana dos confins da Zona Norte do Recife, Lucinete Ferreira, chegou ao disco por intermédio de Venâncio, depois de ter migrado para São Paulo, em 1960. Garota, ela foi descoberta num programa de calouros, na fábrica de tecidos no bairro da Macaxeira em que a mãe trabalhava. Recebeu um convite para um teste na Rádio Jornal do Commercio e foi contratada como cantora, também atuando como teleatriz e comediante. Quando o grupo F. Pessoa de Queiroz inaugurou a estação de TV em 1960, os programas de auditório da Rádio Jornal do Commercio esvaziaram-se. Com uma carta de recomendação da direção da emissora para apresentar às congêneres em São Paulo, Lucinete foi morar na capital paulista. Sem vez nem no rádio nem na TV, descolou um emprego numa cooperativa de empregados da extinta Viação Aérea de São Paulo (Vasp). Através de um amigo pernambucano, chegou a Venâncio e Corumba, dois conterrâneos. Eles formaram a dupla no Recife nos anos 1930. Em São Paulo, iam além do sertanejo, eram inspirados compositores, em diversos estilos, além de bons cantores. 

Venâncio, 31 anos a mais, tornou-se mentor profissional e companheiro de Anastácia. Ele era um homem do negócio da música. Íntimo de gravadoras,  conseguiu um contrato de Lucinete com a Continental, onde os produtores, a dupla Biá e Palmeira, estavam à frente da ala sertaneja e nordestina. Biá sugeriu que Lucinete adotasse o nome artístico de Anastácia. Não apenas isso, mas a queriam também uma concorrente de Marinês, o único nome até então no forró. Impetuosa, birrenta, ela só caiu na estrada por ser companheira de Abdias, mas com muito talento triunfou como intérprete apesar de se submeter em demasia a ele. Porém seria muito difícil vencer sozinha os preconceitos do seu tempo. A Continental tentou, mas faltava a Anastácia o corpo a corpo da pernambucana de São Vicente Férrer (Zona da Mata), ainda por cima apadrinhada por Luiz Gonzaga. Quando chegaram ao Rio, seu Luiz a hospedou em sua casa, no Méier, com o marido e Cacau, e a levou para o rádio e TV. 

Stefana de Macedo

Na primeira metade dos anos 1960, com fornecedores como Rosil Cavalcanti, Onildo Almeida e Luiz Queiroga, Marinês peitava Luiz Gonzaga nas paradas. A condição de nordestina tornou Marinês forrozeira. A única que cantava a música regional. A exceção eram as intérpretes de folk-lore (como se escrevia folclore nos anos 1930 até parte dos 1940), que cantavam o cancioneiro da cultura, porém, não apenas para entretenimento puro e simples, muito menos para a dança, no máximo para balé moderno ou clássico. Apresentavam concertos. Uma das mais populares dessas intérpretes foi uma recifense, que raros concidadãos, nos dias atuais, sabem quem é: Stefana Moura de Macedo (1903-–1975), das primeiras mulheres a cantar temas da cultura popular, nicho no qual até então predominavam os marmanjos. Além de tocar, e bem, violão, tinha voz privilegiada. Há quem a considere pioneira no forró quando em verdade ela estava mais próxima de Villa-Lobos do que do que de artistas do rádio, seus contemporâneos, feito Augusto Calheiros, que interpretavam cocos, emboladas, toadas, porém lhes dando um tratamento popular.

Nascida em berço ilustre pernambucano, Stefana de Macedo estava com 12 anos quando o pai, Erasmo de Macedo, foi eleito para a Câmara Federal, e a família mudou-se para o Rio. Adaptou-se logo à então capital do país. Estudou violão com Patrício Teixeira e prosseguiu o aprendizado sozinha. Fez amizade com João Pernambuco e com ele aprendeu a música do sertão, passando também à pesquisa. Começou a se apresentar em público nas festinhas do seleto Colégio Rampi Williams, em Botafogo, onde estudava. Pode-se datar o início de sua carreira artística em 6 de dezembro de 1926, com um concerto no teatro do cassino do Copacabana Palace.

Há questionamentos se o pioneirismo nesse campo musical não pertenceria à paulistana Helena de Magalhães Castro, moça de família quatrocentona de São Paulo, que começou a cantar músicas no mesmo estilo, mais ou menos na mesma época que Stefana. Uma passada de vista nos autores do repertório ela que mostrou no Copacabana Palace (há um século, neste 2026) seria aproximado do que se chama hoje de cantoria. Stefana de Macedo interpreta músicas de Marcelo Tupinambá, Catullo da Paula Cearense, Américo Jacomino (Canhoto), Olegário Mariano, Tia Amélia (estes dois de Pernambuco). Também canções de domínio público (algumas argentinas) e um samba pernambucano (talvez um coco). 

Stefana de Macedo gozou de muito prestígio na capital da República, apresentando-se mais de uma vez no Palácio do Catete, chegando a viajar com a comitiva presidencial para a Argentina. Lá, deu um concerto no Teatro Colón, acompanhada ao piano por Heitor Villa-Lobos. Estava, portanto,  distante de ser “forrozeira”, até porque nas décadas em que atuou nem havia o conceito de forró. O mais próximo, indiretamente, que Stefana de Macedo esteve de Luiz Gonzaga foi quando gravou Estrela Dalva, de João Pernambuco, a primeira vez em que aparece no rótulo de um disco brasileiro o nome “baião” designando um gênero musical (embora muito diferente do baião de Gonzaga e Humberto Teixeira). Coincidentemente, esse disco foi lançado em 1930, ano em que Luiz Gonzaga, no final da adolescência, fugiu de casa, em Exu, Sertão do Araripe pernambucano, para reinventar a música brasileira.

Stefana de Macedo desacelerou a carreira no final dos anos 40. Na década seguinte, realizou poucos e prestigiados concertos, até que se mudou para Volta Redonda, onde faleceu em 1975, já esquecida pela imprensa. Deixou uma discografia de 78 rotações com 38 faixas gravadas.

Só nos 1960

Levando-se em conta que a preferência dos artistas do rádio pelo forró era circunstancial, estavam com ele enquanto o público não voltasse o paladar para outros sabores musicais, nem a Rainha Carmélia Alves, nem a Princesinha Claudete Soares, e mais a miríade de conjuntos vocais, cantores, cantoras, orquestras, conjuntos, país afora, podiam ser chancelados como do forró. Incursionavam também pelo mambo, chá-chá-chá, calipso. Em 1958 veio a bossa nova, e o baião começou a descer a rampa do sucesso. A corte do baião perdeu a rainha e a princesa para o novo estilo sofisticado de samba. Luiz Gonzaga não gostou nem um pouco de ver os ratos e ratas abandonando o navio do baião, como confessaria em 1972, em uma longa entrevista concedida ao compositor baiano José Carlos Capinam, e publicada em duas edições da primeira versão brasileira da americana Rolling Stone (então um jornal):

“Você sabe que tem cantores oportunistas, quando aparece uma jogada nova, entram logo nela. Olha, Carmélia Alves não é autêntica. Foi criada Rainha do Baião por mim. Emilinha Borba, que foi criadora de Paraíba e mais uma porção de coisas, depois caiu fora. Ivon Curi tirou proveito do baião e depois caiu fora. Em São Paulo então foi uma porção deles. Isaurinha Garcia gravou o baião e caiu fora. Orlando Silva parece que gravou alguma coisa, pra fazer experiência. Até Luiz Vieira caiu fora, uns falsos. Foram quase todos, sabe como é, mas ninguém era autêntico. Então quando foram caindo fora, começaram a vir os caboclos lá do Norte”.

O desabafo do Rei do Baião pode ser lido nas entrelinhas. Foi a partir da defecção das estrelas do rádio que o baião passaria a receber plebeus na corte, mas mulheres, ainda com parcimônia. Até mesmo no Recife, única cidade além do Rio e São Paulo (um pouco Porto Alegre) com condições de ter sua forrozeira, por ter uma indústria de entretenimento bem estruturada, incluindo uma gravadora, a Fábrica de Discos Rozenblit. Mas a capital pernambucana não era diferente do Sudeste. Os forrós eram lançados nos programas de rádio (a partir de 1960 também na TV) pelas contratadas das emissoras, nomes como Mêves Gama (matriarca dos Queiroga, uma família extremamente musical), ou Nerize Paiva, que também gravavam para o suplemento junino da Rozenblit, pelo seu selo mais conhecido, o Mocambo. Cantoras profissionais, elas iam de boleros, mambos, sambas, baladas nos períodos normais do ano, forró no São João e frevo no carnaval.

Dolores Duran

O primeiro LP de forró lançado por uma mulher veio de fonte mais improvável possível, das enfumaçadas boates de Copacabana, na voz de Dolores Duran. Com Maysa, ela foi das raras mulheres que jogavam no time que tinha craques como Tom Jobim e Antonio Maria. Entenda-se como LP pioneiro o fato de não ser uma coletânea de faixas lançadas em bolachões de 78 rotações, feito os LPs (de 10 polegadas) iniciais de Marinês, Vamos Xaxar com Marinês e sua Gente (1957), e Aquarela Nordestina (1958), ambos pela Sinter. Este Norte Minha Sorte (Copacabana) é um dos discos mais inusitados do forró, em particular, e da música brasileira em geral. Quando Dolores Duran o gravou, seu nome já estava consolidado como uma das mais importantes compositoras brasileiras, com um viés para o samba canção, mas parceira de Tom Jobim na iluminada "Estrada do Sol". O disco de baião de Dolores é composto por músicas de autores que atuavam no Rio, mas não com ritmos regionais, entre eles Chico Anysio (assina quatro faixas como Francisco Anízio), Miguel Gustavo (de "Pra Frente Brasil"), Altamiro Carrilho, Ruy Duarte (escreveu o texto da contracapa) e, meio difícil de engolir, a compositora do samba canção "A Noite do Meu Bem" cantando Zefa Cangaceira (Francisco Anízio).

Este Norte É Minha Sorte não decolou pras paradas. Pouco mais de um mês do lançamento, Dolores Duran, depois de cantar numa boate, foi para casa dormir, e foi encontrada na cama, morta. Vítima de um infarto fulminante. Estava com 29 anos e entre seus planos mais imediatos constava uma turnê pelo Nordeste, certamente para mostrar o repertório do novo LP.

O forró

Nenhum nome de gênero musical surge com local, hora e datas certas. Em algum momento, na primeira metade da década de 1960, forró passou a designar o coletivo de ritmos nordestinos, a maioria dos quais burilados por Luiz Gonzaga. Mas continuava predominantemente masculino. Sabia-se de duas mulheres no forró, claro, Marinês e Anastácia. A carreira da primeira pegou impulso ao ser contratada pela RCA, gravadora do Rei do Baião, a da segunda levaria um tempo pra decolar.

No Recife, graças à Rozenblit/Mocambo, algumas cantoras do rádio poderiam ser enquadradas como “forrozeiras”, embora circulassem pelos mais variados estilos. Seria o caso da paraibana (de João Pessoa) Mêves Gama, uma das mais requisitadas intérpretes pernambucanas entre os anos 1960 e parte dos 1970. Embora não tenha gravado nenhum LP de forró, ela participou dos suplementos juninos anuais da gravadora recifense, sobretudo da série Viva São João, com as novas músicas para a festa joanina. Mêves Gama, geralmente, tinha direito a duas faixas do LP, mas não era a única representante do então dito “sexo frágil”. A colega Irma Santos estava quase sempre presente nesses discos. Ela teve uma das carreiras mais interessantes entre as cantoras de sua época, chegou a ser band leader, comandou uma pequena orquestra animando bailes, uma das únicas mulheres a desempenhar tal função.

Marinês desfrutou de seu grande momento entre 1960 e 1966. Teve um time de craques fornecendo-lhe músicas, entre estes, Luiz Queiroga, Onildo Almeida e João do Vale e, claro, a máquina da gravadora RCA. A pernambucana de São Vicente Férrer frequentou pouco as paradas do Sudeste, mas foi presença constante no rádio nordestino, sendo o único nome do gênero a competir em vendas e audiência com Luiz Gonzaga.

Nesse ínterim, surge uma cantora chamada Avelina, a única mulher a lançar LP pela Rozenblit/Mocambo, em 1962. Um disco com ótima qualidade, um repertório assinado por autores pouco conhecidos, mas talentosos, feito Antônio Clemente, sempre presente nos trabalhos de Genival Lacerda (antes do duplo sentido). Talvez um “disco particular”, já que foi mal divulgado na imprensa da cidade. Raridade preciosa do forró. Mais conhecida, porém pouco lembrada, foi Hermelinda (que gravou também como Ana Paula), falecida em 2023, no Rio. Com os irmãos Oséas e João, integrou o Trio Mossoró, nascido na cidade potiguar homônima, em 1958. Mas o trio conta o início da carreira a partir de 1962, quando os irmãos se reuniram no Rio. Hermelinda foi, pois, uma das pioneiras no forró feminino, embora só tenha entrado em carreira solo anos mais tarde. Oséas Lopes, o irmão mais velho, se tornou conhecido como Carlos André, cantor no estilo brega clássico (sic).   

Duplo sentido

Forrozeiras só proliferaram mesmo nos anos 1970, o que coincidiu com a onda do duplo sentido, algo que faz parte da história do forró, mas até então com sutileza, vide Peba na Pimenta (João do Vale /José Batista /Adelino Rivera), primeiro grande sucesso de Marinês. Mas nos anos 1970, paradoxalmente, em plena fase mais pesada da ditadura militar, o forró tornou-se fescenino, a passos largos. A princípio sutil, depois escancarado. Os censores em Brasília não entendiam a safadeza no linguajar nordestino, os significados, na região, de “Ás de copa”, “Oiti”, “Boutique”, “Trouxa”, e liberavam. 

Vários dos sucessos do duplo sentido foram assinados por uma mulher, Mary Maciel Ribeiro, Cecéu, e seu parceiro e marido Antônio Barros, ambos filhos da Paraíba (de Campina Grande). Porém apenas de Cecéu são dois clássicos do subgênero, "Forró Desarmado", e "Por Debaixo dos Panos" (esta gravada por Ney Matogrosso). A clientela de Cecéu (só ou com Antonio Barros) mesmo assim ainda continuava em grande maioria masculina. Lucimar, Marinalva (irmã de Marinês), Clemilda, Hermelinda (sem o Trio Mossoró, contam-se nos dedos os nomes de forrozeiras em tempo integral. Mas o casal atendia igualmente estrelas da MPB, Elba Ramalho, Gal Costa, Alcione, Tânia Alves. Havia ainda as que, mesmo gravando por gravadoras do Sudeste, não alcançavam o público consumidor de lá, caso da caruaruense Joana Angélica, que lançou dois LPs pela pequena gravadora Esquema. Trajetória assemelhada à Joana Angélica teve a baiana Marlene Vidal, com dois LPs com selo Uirapuru/CBS, Eu e o Nordeste (1979) e Marlene Vidal (1978), discos que não aconteceram. Sabe-se pouco sobre ela.

O duplo sentido contribuiu para pavimentar o caminho para as mulheres chegarem aos palcos e estúdios. Por esta época, não eram mais impedidas de continuar a carreira depois de casadas, como aconteceu com Terezinha do Acordeom, que parou aos 18 anos, ao casar, e só voltaria depois de separada. Outras mulheres desvencilharam-se do papel de crooner de conjuntos de baile. Cristina Amaral, por exemplo, foi durante vários anos crooner da Superoara, de Arcoverde, e de os Tropicais, de Monteiro (PB), liderados por Flávio José. A mineira Irah Caldeira, antes de se estabelecer no Recife, cantou com grupos em bares e bailes em Minas Gerais, Nádia Maia cantava com os irmãos no Grupo Alcano.

Integradas à nova geração de forrozeiros que surgiu para o público nos 1990, as veteranas recebem de braços abertos as jovens que vão entrando em cena não apenas como intérpretes mas também como instrumentistas, sanfoneiras. Lais Senna, Karol Maciel, Surama, Sara Leandro, Verônica Sanfoneira, para citar uns poucos nomes. Enquanto é questionado o modelo dos festejos juninos em Pernambuco (e no Nordeste), grita-se contra a invasão de ritmos que se dizem de forró, e o gênero se fortalece com o talento de gerações de ambos os sexos. Continuam predominando os marmanjos, mas num percentual bem mais razoável.


José Teles é jornalista.

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