Por Tereza Perman
Batom, sorriso, remédios, vaidade, cuidado, dormir, atraso, feminino, bijuterias, esmalte, cabelos, Freud, pitomba, azeitona, umbu, cartola, chamego, empacotar meus pés com o lençol antes de dormir… Minha mãe. Nas minhas lembranças remotas, vejo uma figura de mulher pequena e meiga, de pele bronzeada, cabelos escuros e sorriso branco. Vejo-a preparando as queijadinhas dos nossos aniversários; ensinando-me a boiar no mar (embora não soubesse nadar); ensaboando as pernas antes de depilar e me vejo imitando seus gestos, com um pequeno brinquedo azul-ciano fazendo as vezes de lâmina.
Vejo as gérberas cor-de-rosa que ela comprava todos os sábados e colocava numa chaleira de ferro para enfeitar a mesa redonda da sala; e ela passando acetona com um algodão para limpar a fórmica branca que revestia seu tampo. Vejo-a manuseando os últimos lançamentos em vinil — Chico Buarque, Roberto Carlos; de biquíni de listras largas e horizontais, amarelas, laranjas e marrons; sua penteadeira recheada de atrações; colar de cristais dos anos 60; sapatos de festa prateados e meias transparentes e brilhantes, com pequenos florais; idas à costureira; revistas de moda; cabelos cacheados pelo permanente; sombras azuis nos olhos; linda no vestido vermelho de costas nuas.
Cristais (Teca), 2024 40 × 40 cm Pintura a óleo sobre tela Série Retratos de Memória Este trabalho integra a exposição Tempo, de Tereza Perman, com curadoria de Joana D’Arc Lima, em cartaz no Instituto Ploeg (Rua de Santa Cruz, 190, Boa Vista, Recife). Como desdobramento da exposição, acontecerá a roda de conversa O Tempo e os Caminhos da Memória, no dia 11 de julho, no Instituto Ploeg.





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