O I Salão Universitário de Artes Visuais vai ser realizado no Centro de Design do Recife (Rua das Águas Verdes, 10, São José). A abertura é no dia 3 de julho; a visitação, de quarta a domingo, das 10h às 16h, até 16 de agosto. O texto curatorial a seguir foi escrito pelo Coletivo de Estudantes de Artes Visuais da UPPE.
Salão Universitário de Artes Visuais
A história dos Salões de Arte em Pernambuco é marcada por movimentos de permanência e interrupção, de visibilidade e esquecimento. Ao longo de décadas, essas iniciativas constituíram importantes espaços de estímulo à produção artística, de formação de novos agentes culturais e de legitimação de linguagens, poéticas e trajetórias. Contudo, essa mesma história também revela lacunas significativas, resultantes da descontinuidade das políticas públicas voltadas às artes visuais.
Entre presenças e ausências, os salões tornaram-se parte da memória cultural do estado. O último Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, promovido pelo Governo do Estado, realizou sua 47ª edição em 2013. Desde então, o Sesc Pernambuco assumiu papel fundamental na manutenção de uma política de incentivo à criação contemporânea por meio do Salão de Arte Contemporânea UNICO, cuja 13ª edição ocorreu entre 2024 e 2025.
É nesse horizonte histórico que surge o I Salão Universitário de Artes Visuais. Mais do que retomar uma tradição expositiva, esta mostra busca afirmar a universidade como território de produção de conhecimento, experimentação estética e elaboração crítica do presente. A partir de uma pesquisa curatorial coletiva, a exposição reúne trabalhos que evidenciam a diversidade de investigações desenvolvidas no âmbito acadêmico pernambucano, revelando a potência das artes visuais como campo de reflexão, criação e intervenção no mundo contemporâneo.
Apresentado no Centro de Design do Recife, este salão propõe um espaço de encontro entre diferentes gerações, poéticas e modos de fazer, reconhecendo a universidade não apenas como lugar de formação, mas também como agente ativo na construção de outras narrativas para a arte e a cultura.
Os vinte e cinco trabalhos selecionados para esta primeira edição revelam o conceito de contaminação a partir de Anna Lowenhaupte a pluralidade de investigações que atravessam a produção artística contemporânea no ambiente universitário. Longe de constituírem um conjunto homogêneo, as obras apresentadas convergem na elaboração de questões urgentes do nosso tempo, mobilizando reflexões sobre o corpo como território de experiência, memória, conflito e resistência. Os encontros se tornam acontecimentos e dos acontecimentos emergem as contaminações poéticas voltadas para corpos dissidentes, corpos afrocentrados e corpos trans, que reivindicam visibilidade e existência em um contexto historicamente marcado por processos de exclusão e silenciamento.
Do mesmo modo, o sagrado e às religiões de matriz africana ocupam lugar de destaque, afirmando saberes, cosmologias e formas de pertencimento que desafiam perspectivas coloniais ainda presentes nos campos institucionais da arte e da cultura. Entre diferentes linguagens e procedimentos, o urbano, a performance, a fotografia, o desenho, a pintura e as poéticas híbridas ampliam o campo de experimentação da mostra, evidenciando o compromisso das novas gerações de artistas com práticas que articulam criação estética, crítica social e produção de conhecimento.
Importa destacar que vinte artistas em formação foram selecionadas(os/es) por meio de edital público, e cinco artistas foram convidadas. Todas são mulheres que cursaram Artes Visuais na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e que, ao longo de suas trajetórias, tornaram-se pesquisadoras e artistas-etc, conceito formulado por Ricardo Basbaum para designar artistas que expandem sua atuação para além da produção de obras, ocupando diferentes papéis na construção do sistema da arte e na produção de conhecimento, de relações e de experiências coletivas.
Deste grupo, foram convidadas Amanda de Souza, Ana Flávia Mendonça, Brenda Bazante, Nathê Ferreira e Fany Lima. Por meio de suas poéticas, é possível adentrar os temas supracitados e compreender as diversas maneiras pelas quais as mulheres têm ocupado e transformado o campo das artes visuais na contemporaneidade. Trata-se de uma questão que atravessa toda a exposição, tensionando debates sobre formação, visibilidade, representatividade e produção de conhecimento no contexto artístico atual.
Em consonância com esses objetivos, foi concebido um projeto educativo que acompanha a exposição, propondo diferentes programas de mediação e ativação dos públicos. A ação educativa prevê visitas mediadas, rodas de conversa com artistas e pesquisadoras, encontros formativos, atividades voltadas para estudantes da educação básica e do ensino superior, além de ações acessíveis destinadas a ampliar o diálogo entre a exposição e a comunidade. Compreende-se, assim, a exposição não apenas como espaço de exibição de obras, mas como um território de encontro, troca de saberes e construção coletiva de experiências estéticas, críticas e pedagógicas.
O convite que este Salão Universitário de Artes Visuais propõe é, antes de tudo, um convite à experimentação estética. Evoco as palavras de Octavio Paz porque compartilho sua compreensão de que a obra de arte, embora enraizada em um contexto específico, ultrapassa fronteiras geográficas, temporais e culturais. A arte nos oferece a possibilidade de criar mundos, imaginar outras realidades e experimentar situações estéticas por meio da sensorialidade. Se não é o único espaço da criação humana, é, certamente, um de seus territórios privilegiados.
Nesse sentido, as obras reunidas nesta exposição dialogam com questões urgentes do presente sem se restringirem ao tempo e ao lugar de sua produção. Elas nos convidam a refletir sobre o corpo, a memória, a identidade, a espiritualidade e as múltiplas formas de existência que atravessam a contemporaneidade, produzindo encontros entre experiências singulares e questões coletivas.
Como nos lembra Octavio Paz:
"Todas las obras de arte pertenecen a un suelo y a un momento, pero todas ellas tienden a transcender a ese suelo y a ese momento: son de aquí y son de allá. De ahí que sea muy difícil señalar con claridad las fronteras entre lo nacional y lo universal: no son categorías separadas sino, felizmente, en perpetua relación."
É precisamente nessa relação permanente entre o local e o universal, entre a experiência situada e sua potência de ressonância, que este Salão se inscreve. As obras aqui apresentadas afirmam a força da produção artística universitária como espaço de investigação, invenção e diálogo, reafirmando a arte como campo aberto à pluralidade de vozes, narrativas e sensibilidades.





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