Curadoria em cinema como invenção coletiva

25 jun 2026 | 0 comentários

Pagode do Didi no São Luiz. Foto Ivana Milka

Por Pedro Severien

Toda e qualquer tecnologia não surge do vácuo, mas justamente das condições materiais e subjetivas de um determinado tempo histórico. Uma tecnologia não é  apenas um aparato ou uma máquina, é muitas vezes uma ferramenta de produção social. Daí deriva a ideia de tecnologia social. O cinema pernambucano é uma dessas invenções. Explico. Havia uma história de experimentação do cinema em Pernambuco, que já tinha marcos importantes como o Ciclo do Recife, explosão produtiva do cinema silencioso nos anos 1920 e 1930, e o Ciclo do Super 8, conjunto de obras realizadas de forma autônoma,  usando o suporte da película moldada para uso caseiro e que ganhou aplicação experimental, política e cultural nas décadas de 1970 e 1980. Mas até os anos 1990 não existia um cinema pernambucano. Um desejo profundo de expressão cinematográfica faz surgir o Baile Perfumado. O argumento já existia há anos a partir da pesquisa de Fernando Spencer, conhecido como cineasta das três bitolas, por ter filmado em super 8, 16 mm e 35mm. Os jovens Paulo Caldas e Lírio Ferreira pediram ao mestre para usar o argumento de O repórter das arábias para construção do roteiro. Ao que foram prontamente atendidos. Daí um primeiro exemplo de que uma invenção nunca é individual. 

Da mesma maneira, uma invenção não para. O surgimento de uma ideia estimula e ativa outras ideias subsequentes. Num arco de cerca de trinta anos entre o lançamento de Baile Perfumado e O agente secreto,  o cinema pernambucano não cessou de se reinventar. Podemos dizer que Kleber Mendonça Filho inventou um arrasa quarteirão autoral e profundamente local, que com sua sintaxe projetou um Recife prenhe de tradições e vivo em suas contradições e inovações. Durante o período em que O agente secreto esteve em cartaz no Cinema São Luiz, entre uma sessão e outra, encontrei Beto Normal, figurinista e diretor, que sugeriu exibir o curta-metragem A perna cabiluda (assim mesmo, cabiluda), realizado junto com Marcelo Gomes, João Vieira Júnior e Gil Vicente nos anos 1990. O curta aborda essa lenda urbana que tinha ganhado ares de pequena mitologia do Recife em chave crítica e popular através de muitas mãos, como a do comunicador Jota Ferreira e do jornalista e escritor Raimundo Carrero (a quem a cultura brasileira perdeu recentemente). Como curador do São Luiz, acolhi de imediato essa ideia e no dia da sessão cerca de quinhentas pessoas gargalharam com os relatos da mais autêntica presença do imaginário popular na tela com esse inventivo documentário.

Pedro Severien: "Tornei-me mais curador, mais programador, mais fazedor de encontros". Foto Morgana Narjara - SecultPE/Fundarpe

Assistir a A perna cabiluda antes de O agente secreto tirou a originalidade da abordagem de Kleber, que reinventou o mito da perna cabeluda na tela? Não! Só deu a ver tentáculos de uma genealogia criativa que vai abrindo janelas para o passado como ato de reinvenção. Como já dizia Walter Benjamin, a história não é uma linha progressiva de ações direcionadas a um futuro libertador. É preciso ler a história à contrapelo. Desloca-se assim o sentido dos acontecimentos, abrindo um novo horizonte de possibilidades no presente. E é assim que chego ao tema da curadoria cinematográfica também como tecnologia social. Curadoria em cinema é justamente criar relações nascentes entre as narrativas audiovisuais. Ao juntar filmes em um determinado espaço, produz-se uma experiência com potencial de desdobramentos no público, mas também na rede de realizadores. É comum se utilizar o termo programação para o trabalho de junção de filmes em uma sala de cinema. Programação também é um termo bastante presente no mundo da informática. 

Há pouco tempo convidei a diretora Yane Mendes para realizarmos no São Luiz uma retrospectiva com a sua trajetória. Yane então organizou os seus filmes dentro de um conceito: 15 anos de cinema periférico. Ao celebrar os seus quinze anos como realizadora audiovisual e comunicadora periférica, ela criou o emblema de uma festa de quinze anos com um convite às pessoas que fazem parte dessa caminhada, da comunidade do Totó para o mundo. Com isso, Yane não estava apenas propondo uma celebração pessoal, estava deslocando imaginários do que midiaticamente se hegemonizou sobre as favelas. A festa é uma afirmação da vida na comunidade e isso é parte fundamental do seu cinema. Ela fez uma curadoria do seu próprio trabalho colocando uma afirmação que não apaga a história das imagens, e sim subverte-a, desprogramando visões estigmatizadas.

Yane Mendes, 15 anos de cinema periférico. Foto Felipe Araújo

Alguns meses antes, eu havia recebido uma proposta de exibição do filme  Pagode do Didi, nosso ponto de encontro, dirigido por Maysa Carolino. Na reunião que fiz com a equipe do curta, o produtor Ivan Adriano, de forma meio reticente, perguntou se poderiam dispor de três horas da programação do cinema. O filme tinha duração de vinte e cinco minutos apenas. Então, questionei o que desejavam fazer com o restante do tempo. Eles explicaram que a sessão funcionaria como uma homenagem ao próprio Didi e a todos que constroem esse espaço de cultura negra e resistência no centro do Recife. E gostariam de fazer uma roda de samba dentro da sala. Assim, começava a se desenhar uma imagem de conexão entre a histórica sala de cinema que fica a poucos metros de distância do Pagode do Didi. É só atravessar a ponte. Mas essa ponte física não necessariamente conecta esses lugares simbólicos. Era necessário construir pontes sensíveis. O resultado foi uma junção de música, cultura popular, histórias de vida e acolhimento coletivo.

Eu nunca tinha programado uma sala de cinema antes, a não ser em mostras, festivais e cineclubes. Ou seja, em períodos demarcados e curtos. De tal maneira que os desafios iniciais já eram carregados de uma complexidade pela necessidade de aprender em movimento os fluxos de ação necessários. E não estamos falando de uma sala qualquer, mas do São Luiz, um lugar que se tornou um templo de vivências coletivas com o cinema. Eu me lancei no estudo prático, mas com algumas diretrizes que me forjaram enquanto cineasta: toda imagem é histórica (carrega passado, presente e futuro); o cinema público deve ser também popular (a ocupação da tela requer participação comunitária); e uma sessão de cinema é um ato coletivo portanto um acontecimento.

A junção dessas dimensões ativa um viés da curadoria como gesto também de cuidado, ou seja, de bem-estar. Curar imagens está, portanto, conectado com uma saúde coletiva, uma saúde que a prática da arte e da cultura promove. E isso não quer dizer buscar apenas imagens positivas, muitas vezes requer olhar para traumas individuais e coletivos em suas mais diversas formas narrativas. Para mim, a política está na estética assim como a estética está na política. O caminho de ocupação da sala, a sua curadoria, é exatamente o que se ativa entre essas dimensões – mobilizar filmes para mobilizar diversidade de públicos. Como uma espiral, fui aprendendo a olhar para todas as etapas de uma sessão, desde o recebimento de um filme ou a busca por um filme, passando pela juntada de materiais daquele trabalho, a sua comunicação na programação, a chegada das pessoas e realizadores na sala, a apresentação, a exibição, a conversa, o pensamento compartilhado, o relato do acontecido, e carregar tudo isso no corpo na caminhada pela calçada em frente ao rio Capibaribe, no centro da cidade. 

Uma energia de atuação foi se assentando em mim. Tornei-me mais curador, mais programador, mais fazedor de encontros. Encontros com imagens, pessoas e imagens. Me movi em silêncio vendo um filme ou imaginando uma fala de apresentação ou uma pergunta num debate. E me movi na fala, com o microfone ou nas inúmeras conversas dentro e fora da sala. Esse dentro e fora foi se unificando, se integrando. Minha vida foi integrada a esse cinema público e popular, e essa vivência faz uma parte da minha vida.

O pagode do Didi fez a festa no São Luiz. Foto Ivana Milka

Uso o relato desse trabalho no Cinema São Luiz porque é lá  onde venho formulando dimensões objetivas do fazer curatorial, em diálogo permanente com a comunidade audiovisual pernambucana, que inclui realizadores, festivais, mostras e cineclubes, além de distribuidoras locais e nacionais, mas também com propostas formuladas pela equipe de programação. Ou seja, a curadoria acolhe solicitações de eventos e sessões especiais, mas tem também uma ação prospectiva, criando uma programação própria, diversa e conectada com temáticas de interesse público, juntando múltiplas linguagens artísticas e pautas sociais. Essa programação abrange o cinema contemporâneo pernambucano e brasileiro, mas também traz clássicos mundiais e filmes internacionais. A ênfase, no entanto, é na produção dessa relação nascente entre os filmes. O maior desafio nesse sentido é deslocar o sentido sobre o que é cultura local e o que é universal. A arte tem raízes no território, mas caminha o mundo. De certa maneira, esse desafio é também uma janela de oportunidades. Quando acolhemos as nossas múltiplas expressões culturais abrimos o horizonte para uma outra lente sobre a realidade.

Diversos grupos vêm sendo estimulados a ocupar o São Luiz com suas narrativas e têm mobilizado pessoas, gerando um ciclo virtuoso de ocupação, invenção e debate com espectros bem diversos da sociedade. Ou seja, a sala de cinema passa a ser apropriada pelo coletivo, e isso levanta a sua vitalidade cultural e artística. Então, fazer cinema não é só fazer filmes, mas sim fazer formação, fazer cineclubismo, fazer pesquisa, fazer distribuição, fazer políticas públicas... e fazer curadoria. É esse ecossistema, uma espécie de ecologia das imagens, que nos fortalece e promove uma saúde imagética. Vivemos em uma época em que estamos imersos nas imagens enquanto sociedade, e por isso é necessário também letramento imagético. O cinema brasileiro está nessa disputa e só temos a ganhar enquanto coletividade com o fomento da produção audiovisual nacional e a curadoria como ferramenta coletiva de invenção de futuros. 


Pedro Severien é cineasta, professor e curador do Cinema São Luiz.

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