O sol ainda nem esquentou direito o casario de Olinda quando a música de Alceu Valença já parece estar no ar, como se viesse de algum lugar entre a memória e o vento. Não é de hoje. Há décadas, ela atravessa ladeiras, rádios, carnavais e salas de estar. Agora, volta a se espalhar com outra camada de tempo: a dos 80 anos que se aproximam, sem pressa, mas também sem cerimônia. Do jeito que ele quer.
“Nem 8 nem 80”, diz Alceu Valença, rindo, como quem desmonta o peso da própria idade. Aos quase oito decênios — que ele completa em 1º de julho —, o artista prefere se sentir com 18. Não como metáfora, mas como estado de espírito. É desse impulso que nasce a turnê “Alceu 80 Girassóis”, uma travessia por 10 capitais brasileiras, com parada em Olinda, no próximo dia 15, no Classic Hall. Uma celebração não só do aniversário redondo, mas de uma vitalidade que parece não obedecer ao calendário.
“Sou um eterno menino. Me sinto com oitenta ao contrário. Oito anos, talvez. Ou o oito traçado na horizontal, que é o símbolo do infinito. Minha mãe dizia: ‘meu filho, você veio ao mundo para levar alegria às pessoas’. É uma espécie de missão”, afirma o artista. “Sigo ligado em infinitos volts de energia limpa, renovada, solar. Acho que é isso que me move até hoje”.
Filho de São Bento do Una, município do interior de Pernambuco, Alceu se tornou, com o tempo, uma espécie de cidadão afetivo de Olinda, cidade que o adotou e que ele ajudou a reinventar no imaginário popular. Entre o Agreste e as ladeiras coloridas, construiu uma obra que nunca coube em rótulos: mistura de aboio e rock, de frevo e psicodelia, de tradição e invenção.
A nova turnê marca um retorno do artista elétrico, depois de incursões recentes em formatos mais intimistas e concertos sinfônicos com a Orquestra Ouro Preto, que o levaram inclusive à Europa. No palco, ele estará acompanhado por uma banda afiada: Tovinho (teclados e direção musical), Cássio Cunha (bateria), Zi Ferreira (guitarra), Nando Barreto (baixo), André Julião (sanfona) e Costinha (flautas), além das participações de Lui Coimbra e Natália Mitre. Um time que sustenta uma apresentação de duas horas, desenhada para percorrer mais de meio século de carreira.
Não é pouca coisa. Desde “Papagaio do Futuro”, apresentada no Festival Internacional da Canção de 1972 ao lado de Geraldo Azevedo e Jackson do Pandeiro, até os clássicos que atravessaram gerações, Alceu acumula quase 300 composições registradas. Entre elas, “Anunciação”, “Tropicana”, “La Belle de Jour”, “Coração Bobo”, “Como Dois Animais”, canções que não apenas marcaram época, mas continuam sendo reapropriadas, cantadas e reinventadas pelo público.
O roteiro da turnê foi montado pelo próprio cantor, que prefere pensar o repertório como uma narrativa. “É uma sequência poética. Eu sobrevoo a minha própria história, desde os anos 1970 até agora. Tudo o que vivi está no HD da minha memória. As músicas vão se encadeando como se fossem caminhos: o Agreste, o carnaval, as viagens, a infância. É como revisitar tudo, mas com o olhar de hoje”, detalha Alceu.
A escolha do repertório, segundo ele, segue uma lógica própria, quase intuitiva, mas profundamente organizada. “Eu pensei esse show como uma narrativa poética. As músicas não estão ali soltas. Por exemplo, ‘Martelo Agalopado’ vem do cantador, da cultura do Agreste profundo, de onde eu nasci, em São Bento do Una. Logo depois, entra o repertório de Luiz Gonzaga, porque ele faz parte disso, ele completa essa paisagem. Aí já vem uma outra memória, de quando eu era criança, correndo, brincando, como em ‘Cavalo de Pau’. É como se eu fosse costurando minha vida em forma de música”, descreve.
O lado folião, inevitável em sua trajetória, também ganha espaço na construção desse roteiro. “Não dá pra falar de mim sem falar de carnaval. Isso está em mim, em Olinda, nos trios elétricos. Em São Paulo, há mais de 10 anos, e no Recife, mas recentemente, eu saio com o bloco ‘Bicho Maluco Beleza’ e a gente arrasta milhares de pessoas”, pontua. “Isso também faz parte dessa história que eu estou contando no palco, essa energia coletiva, essa alegria compartilhada”.
Há ainda o Alceu viajante, o artista atravessado por geografias e afetos: “Tem o Alceu caminhador, o cara que vive aqui e lá. ‘Coração Bobo’, por exemplo, eu compus em Paris, quando morei lá, com uma saudade imensa de Jackson do Pandeiro e de Geraldo Azevedo. Tem ‘Pelas Ruas que Andei’, que fala das ruas do Recife. E tem música que traz lembranças de Nova York, mas que eu compus no Rio de Janeiro”. Desta forma, os muitos momentos vividos pelo cantor se encontram dentro das canções.
O processo criativo, por sua vez, nem sempre obedece a uma lógica clara. Às vezes, surge como epifania. “’Anunciação’ foi quase um surto criativo”, lembra o artista. “Eu estava andando em Olinda, aprendendo a tocar flauta, fazendo uma melodia. Quando entrei em casa, uma moça disse: ‘Alceu, que música bonita você estava tocando, que coisa mais linda’. Aquilo me chamou atenção. A música podia ter se perdido se ela não tivesse falado. Aí fui pra cozinha, peguei um papel de pão e comecei a escrever a letra, a lápis. Foi assim que nasceu.”
A relação da canção com o público também segue surpreendendo o cantor. “Se você sair comigo por aí, é impressionante. Todo dia alguém vem contar uma história com ‘Anunciação’. Mulheres que dizem que tiveram filhos ouvindo a música, crianças que contam que já a escutavam desde dentro da barriga. Eu fico brincando, mas ao mesmo tempo acho bonito demais. É a música ganhando vida própria”, expressa, sem esconder o sorriso.

Os números ajudam a dimensionar esse alcance, mas não o explicam por completo. “Hoje ‘Anunciação’ já passou de 200 milhões de execuções no Spotify. ‘La Belle de Jour’ tem mais de 300 milhões no YouTube. São números grandes, claro, mas o que me toca mesmo são essas histórias das pessoas, essa relação afetiva que a música cria”, reflete.
Ao olhar para a própria trajetória, ele reconhece as origens como força motriz e lembra das raízes do interior. “Lá eu ouvia aboios, toadas de vaqueiros, aquilo tudo foi entrando em mim. Depois, isso foi se misturando com outras coisas, com o urbano, com o mundo. Mas a raiz está ali, sempre esteve”, comenta. E quase não esteve: antes da música, havia outro caminho desenhado. “Eu quis ser advogado, pensei em fazer concurso para promotor. Cheguei a me formar, mas não segui”, relembra. Hoje, o cantor olha para essa mudança de rumo com leveza e humor. “No fim das contas, a música acabou me levando por um caminho muito mais bonito do que eu imaginava”, diz, entre risos.
Há também na turnê uma dimensão visual que amplia a experiência. No palco, conta Alceu, um girassol gigante funciona como eixo para projeções que dialogam com a sua obra. A cenografia reúne criações de Oblíquo, Radiográfico e Zé Carratu, enquanto a direção artística é assinada por Rafael Todeschini. As imagens incluem referências a artistas pernambucanos, como as xilogravuras de J. Borges e o universo naif de Edmar Fernandes. Figurinos desenhados por Isabela Capeto completam a estética.
Alceu detalha que a ideia da turnê partiu de dentro de casa. Foi a advogada Yanê Montenegro, companheira de mais de duas décadas, quem sugeriu a celebração em grande escala. Ele aceitou, mas à sua maneira: sem a rigidez de uma agenda exaustiva. “O que cansa não é o show, é viajar”, confessa o pernambucano. Ainda assim, mantém o ritmo de quem caminha diariamente pela Zona Sul do Rio de Janeiro, somando cerca de 17 mil passos por dia, disciplina que ajuda a sustentar a energia no palco.
Ao falar sobre os 80 anos, Alceu evita qualquer tom de encerramento. Pelo contrário: há uma recusa quase instintiva à ideia de contagem. “O tempo não tem começo nem fim. A gente inventa essas medidas, mas a vida não cabe nelas. Eu não penso em balanço, nem em despedida. Penso em continuidade. O palco me renova”. Depois do aniversário, a turnê segue para novas datas no Brasil e na Europa. E há ainda planos de publicar um livro de crônicas e poemas, escritos durante viagens. Outra forma de transformar deslocamento em criação.
Se a música nem sempre vem — “só quando eu quiser ou quando minha mulher pedir”, brinca o cantor —, a palavra tem aparecido com frequência. Talvez seja mais uma maneira de organizar esse fluxo de tempo que ele insiste em não medir. “O tempo não tem começo nem fim”, filosofa. No fundo, faz sentido. Porque, ao ouvir Alceu, a sensação é justamente essa: de algo que escapa à contagem.
Aos quase 80 anos, Alceu prefere falar em girassóis. Esses seres que, como sua música, procuram sempre a direção da luz. E, como num refrão que atravessa o tempo, ele também volta: ao Recife, à sua gente, à sua própria história, prometendo ecoar, em carne e palco, aquele chamado eterno do frevo de Luiz Bandeira: “Foi a saudade que me trouxe pelo braço”.






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