O médico, professor e pesquisador Luiz Arraes é um profícuo escritor. Tem contos em antologias e revistas literárias e diversos livros publicados. Quinta-feira próxima, dia 14, lança dois inéditos livros de contos: “Bloco de notas – Escrita, a de dentro e a de fora” e “A minúscula morada do espírito humano”, este último ilustrado por Maurício Arraes. A Revista Araçá se antecipa ao lançamento e traz em primeira mão o conto “Consentimento”, de “A minúscula morada do espírito humano”.
CONSENTIMENTO
Meu pai começava a trabalhar cedo. Ele e a minha mãe acordavam na mesma hora como se fosse combinado.
Ela ia para a cozinha preparar seu café e ele ia tomar banho e se arrumar para sair.
Ela lhe servia o café, ele o tomava calado. Em pé junto a ele, minha mãe atenta para ver se faltava algo.
Ele ia embora com a sua pasta dizendo algo entre os dentes.
Batia a porta com força. Minha mãe a abria com cuidado e a fechava com delicadeza, como a consertar uma estupidez, “a ternura é lenta.”*
Em seguida, era a minha vez e a de minha irmã. Preparava nosso café e nos acordava. Tomava conta do que comíamos e em seguida nos levava até a parada do ônibus.
Minha mãe passava o dia em casa, saía para poucas coisas. Fazer compras; gostava de ir no mercado de frutas e verduras e no supermercado. Tinha alguns poucos amigos na rua com quem costumava conversar.
Chegávamos antes do meu pai e íamos direto ao banho e, sem intervalos, mergulhávamos nas tarefas da escola.
Meu pai chegava já escuro, sempre na mesma hora. Calado, ia direto ao banho também e saía já de pijama e robe de chambre. Falava algo com minha mãe, perguntava-lhe pelo dia que passou. Era toda a conversa dos dois.
Ia para a sala ouvir rádio e depois televisão, era quando minha mãe se juntava a ele até a hora do jantar.
A gente pensava que a vida era assim.
Um dia, meu pai chegou com um garoto nos braços de mais ou menos um ano de idade. Trancou-se no quarto com minha mãe e o menino e demorou mais de uma hora lá dentro.
Minha irmã e eu fomos dormir antes da porta abrir-se.
No dia seguinte, no café, minha mãe estava dando de comer ao pequeno e nos apresentou ele como nosso novo irmão. Chamava-se João.
João foi crescendo e logo estava na escola. Ia conosco. Minha irmã sempre cuidadosa com ele.
Meu pai o tratava como a mim e a minha irmã. Com distância e silêncio. A gente pensava que a vida era assim.
Fomos no cinema um domingo à tarde, os cinco.
Minha mãe de braços dados com meu pai e nós a poucos metros atrás, conversando.
Vi como se estivesse filmando um casal passar por nós e a mulher alisar a cabeça de João.
Minha mãe, que nos observava de vez em quando, também viu. Viu também quando a mulher passou por eles e apertou o braço de meu pai com força. Minha mãe olhou para ele com olhos firmes e ele, corado, desajeitado, balançou a cabeça.
Apressamos os passos para pegar um bom lugar no cinema.
* Júlia Panades





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