Jota.pê sobe ao palco do Teatro do Parque para cantar sem armadura e expor o que sente
Tem artista que sobe ao palco para performar. Jota.pê parece fazer o caminho contrário: desmonta a própria armadura diante do público. Entre silêncios, histórias e canções que soam quase como páginas arrancadas de um diário, o cantor transformou a sinceridade em linguagem artística. Tudo isso justamente em um tempo rápido e calculado demais. Nesta sexta-feira (8), essa intimidade ganha endereço no Recife, quando o artista sobe ao palco do Teatro do Parque, pelo Projeto Seis e Meia, trazendo na bagagem o repertório de “Se o Meu Peito Fosse o Mundo”, álbum que lhe rendeu três Grammys Latinos, além das canções de “Dominguinho”, projeto dividido com João Gomes e Mestrinho.
Mas, antes dos prêmios, dos festivais e das turnês pela Europa, havia um desejo mais simples: fazer músicas honestas. É dessa forma que Jota.pê fala à Araçá sobre o trabalho, que consolidou seu nome entre os principais artistas da cena contemporânea brasileira. “O mundo que eu abro nesse trabalho é o meu mundo. Eu gosto do nome do álbum porque, pra mim, ele é uma fotografia daquele momento histórico do artista. As coisas que eu estava pensando, sentindo, vivendo, o que estava mais gritando dentro de mim foi o que coloquei nesse disco”, conta.
O resultado é um trabalho que caminha entre a delicadeza e a intensidade. Canções como “Banzo”, “Ouro Marrom” e “Feito a Maré” revelam um artista disposto a transformar emoções em narrativa, sem esconder fragilidades. “Eu não penso muito se estou sendo vulnerável demais ou não. Só tento ser sincero com o que estou escrevendo. Eu sinto e coloco no papel. É quase uma terapia pra mim”, revela o cantor de 33 anos, que tem como nome no registro de nascimento João Paulo Gomes da Silva.

Foto: Clara Lobo/Divulgação
Essa sinceridade talvez seja o que aproximou tanta gente de sua música nos últimos anos. Em um cenário cada vez mais acelerado, guiado por tendências instantâneas e pela lógica das redes sociais, Jota.pê parece caminhar na contramão. Sem rejeitar o universo digital, ele reconhece os paradoxos do próprio tempo. “As redes democratizaram muita coisa. Hoje você pode criar seu próprio canal e fazer as pessoas chegarem até você. Mas também existe uma disputa enorme pela atenção. Tudo acontece muito rápido. O mercado gosta de dizer que as músicas têm que ser menores, que você precisa seguir tendências”, observa.
Para ele, no entanto, o que permanece são justamente os artistas que conseguem sustentar uma identidade própria. “Carreiras que duram são carreiras originais, em que o artista se arrisca e faz o que realmente acredita. Acho que o que é verdadeiro aproxima as pessoas”, opina. Mais do que cantar, Jota.pê gosta de contextualizar as músicas, dividir memórias, explicar sentimentos e apresentar ao público os bastidores das composições.
No palco, o compromisso permanece o mesmo, independentemente do tamanho da plateia. “Toda vez que eu subo para cantar, tenho a responsabilidade de fazer o melhor possível. Seja num barzinho ou num grande festival, as pessoas estão consumindo cultura, dedicando tempo para estar ali”, afirma.
A apresentação no Recife chega em um momento especialmente simbólico da carreira do artista. Nos últimos meses, além do Grammy Latino e do Prêmio BTG Pactual da Música, na categoria Melhor Lançamento de MPB, Jota.pê também foi escolhido Artista do Ano pelo Prêmio Potências e anunciado como atração da próxima edição do Rock in Rio.
Ainda assim, ele evita olhar para a própria trajetória como algo consolidado. “Vou estar sempre em evolução, conquistando espaço. Mesmo com Grammy, show em estádio e tudo isso acontecendo, nunca me considero uma realidade pronta. Quero continuar fazendo mais, diferente, melhor”, reflete Jota.pê, que recentemente gravou o álbum “Dominguinho 2” em apresentação intimista do trio no Centro Histórico de Salvador (BA).
A relação com Pernambuco também ajuda a explicar a expectativa para o show desta sexta. O artista fala do estado quase como quem reencontra velhos amigos. “Sou muito apaixonado por Recife e por Pernambuco. Conheço menos do que gostaria, mas tenho grandes amizades e referências musicais. Toda vez que venho, sou muito bem recebido”, afirma. “Estou animado para trazer o show solo e ver como as pessoas vão reagir, cantar junto, viver esse momento comigo.”
No Teatro do Parque, a apresentação terá abertura da banda Los Cubanos. O show integra a circulação do Projeto Seis e Meia, que democratiza o acesso à MPB com ingressos populares. Além da capital pernambucana, a turnê também passa por Natal, João Pessoa, Maceió e Penedo.
No fim das contas, o que torna Jota.pê um artista tão singular neste momento da música brasileira é a capacidade de transformar o palco em extensão da própria humanidade. Sem personagens grandiosos. Sem fórmulas prontas. Apenas alguém disposto a cantar aquilo que ainda pulsa dentro do peito.






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