Mais do que um exercício físico recomendado pelos médicos, fazer caminhadas é um ato de transformação interior. Um exercício, também, mas de outra natureza, o do diálogo comigo mesmo. É caminhando pelas ruas da Madalena, o bairro onde moro, ou por Bodocó, de onde eu vim, às vezes pela manhã, ou no final da tarde, que reavalio, revejo os detalhes que passaram despercebidos, encontro as respostas exatas que não dei numa situação qualquer, aperfeiçoo aquilo que eu poderia ser.
Sou das caminhadas onde a vida pulsa. Sou um cara das ruas. Uma coisa é você se manter enjaulado nas academias, suando em monótonas esteiras e bicicletas ergométricas, olhando para o mundo lá fora através das paredes de vidro fumê, no ar-condicionado, no conforto. Mas, afastado do mundo real. A outra coisa é andar pelas ruas, perto do Mercado da Madalena ou perto do mato. Ainda que as pistas de corrida sejam ao ar livre, não são iguais a seguir por aí, a pé, nas ruas, vendo, especulando, surpreendendo-me.
Gosto de acordar cedo para criar um tempo livre. Depois de escrever alguma coisa, é bom abrir a porta do apartamento, descer as escadas, sair sem rumo certo. Mesmo quando está nublado, como ontem, com jeito de que vai cair um toró, me arrisco a caminhar, como quem se joga numa aventura. Será que vai chover? Digo a mim mesmo que, qualquer coisa, volto; e atravesso o portão.
São as ruas de sempre, mas o que importa? Não sou, necessariamente, caçador de paisagens. Sei de antemão que encontrarei os antigos problemas. O que muda, sem dúvida alguma, é o meu olhar para as velhas paisagens. É assim que, enquanto caminho, me chegam os argumentos corretos, abro possibilidades, arejo o coração, planejo as tarefas. Ou rezo. Gosto de rezar enquanto caminho.
Percorrer essas velhas ruas cheias de passado, algumas vezes, também é descobrir becos, observar pequenas novidades, vivenciar histórias. Nem sempre boas: na semana passada, percebi que um casarão, que eu achava lindo, com a fachada cheia de detalhes, foi demolido. Com certeza, vão construir torres de apartamentos residenciais. Não tinha valor histórico, isso eu sei, muito menos importância arquitetônica. Há outros exemplares semelhantes em vários bairros e ruas. Mas, eu gostava da sua presença.
É assim que, nas caminhadas, as histórias vêm ao meu encontro, pedindo o registro das palavras. Argumentos parecem brotar no ritmo dos passos. Também é caminhando que as memórias atracam. Ontem, na caminhada, começou a chover e eu tive que voltar pra casa. Na chuva, lembrei-me da infância. Eu e meus irmãos amávamos tomar banho de chuva no quintal. A chuva, então, era uma festa. Enquanto mamãe não nos mandava entrar, aquilo era a nossa alegria profunda.
Entre as lembranças felizes, sem dúvida, guardo aqueles momentos em que os pingos brincavam conosco. O que me molhava, ontem, não era mais a poesia vertical da infância. Andar na chuva, nestes dias, pode ser preocupante. A chuva aumentou.
Um tanto constrangido, molhado, retornei. Caminhei apressado de volta, quase correndo. Alguém que passava me perguntou, irônico: “Ficou com medo da chuva?”. A frase me fez refletir sobre os enigmas da vida. A chuva continua a mesma, eu que mudei. As cidades e o tempo transmutaram em mim o entendimento sobre o que é alegria.






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