“Basta de feminicídios! Isso é muito urgente mesmo!”

28 maio 2026 | 0 comentários

Fabiana Pirro como Medusa

Por Paulo André Leitão
Fotos de Fred Jordão

MedusaMusaMulher revisita o clássico mito grego de Medusa. Violada pelo deus Poseidon, provoca o ciúme da deusa Atena, que a amaldiçoa, e termina degolada. A história traduz a regra, ainda hoje vigente, de punir a vítima. Fabiana Pirro interpreta Medusa, protagonizando um videoarte de dez minutos de duração, gravado na França. A exibição do vídeo é seguida de performance no palco do Instituto Marcos Hacker, com cerca de trinta minutos. A criação da performance, concebida e vivida por Fabiana, é de Breno Fittipaldi; o texto, de Cida Pedrosa; Silvia de Góes poetiza o videoarte.

MedusaMusaMulher estreou em 2018, andou pelo Brasil e aporta de novo no Recife em apresentação única, às 20h de sábado (30). De lá pra cá, o tempo, desgraçadamente, não mudou o quadro de violência contra as mulheres em nosso país. Apenas exigiu da produção atualizar o número de casos oficialmente registrados e citados por Fabiana.

Revista Araçá – O que fez você voltar ao mito de Medusa?
Fabiana Pirro
– Eu acho que a gente precisa recontar muitas histórias. Quando chegou pra mim a versão de que Medusa tinha sido violada, ruiu a versão de que ela era um monstro. Medusa foi amaldiçoada pelo mesmo motivo do que ocorre hoje, a culpabilização da vítima. Quantas mulheres ainda sofrem por isso e são amaldiçoadas, eliminadas da sociedade! Como pra mim o teatro é o agora, o urgente, o agoríssima, eu senti a necessidade de contar a história de Medusa no teatro com base no que acredito porque é no teatro que me sinto poderosa.

Revista Araçá – De que forma sua performance atualiza o mito?
Fabiana Pirro
– Medusa já passou por vários sentimentos dentro de mim, Primeiro, o de revolta. Com o passar do tempo, outros sentimentos se misturaram à revolta, mas ela permanece porque as mulheres continuam a ser violentadas no Brasil. Os números de casos de violência sempre crescem, eu tenho que atualizá-los. São estatísticas dolorosas que eu tenho que levar para a cena.

Revista Araçá – Que entendimento você tem, simbolicamente, do deus que violou Medusa?
Fabiana Pirro
– É o patriarcado, o masculino achar que tem o domínio sobre os corpos das mulheres, matar ao término de um relacionamento, cortar o cabelo da mulher para que ela não tenha mais a força e a beleza do cabelo. Isso é comum, informações das violências chegam pra mim, inclusive em cena. Tem uma frase que eu digo na performance – “Devolvam os meus cabelos” – que é para o patriarcado mesmo.

Revista Araçá – O deus é um homem qualquer?
Fabiana Pirro
– O deus é um homem qualquer. Os homens se endeusam uns aos outros. É uma coisa muito antiga, é cultural, infelizmente. Não tem mais como a gente se calar, que era o que acontecia até pouco tempo atrás.

Revista Araçá – A Medusa que você interpreta é uma vencedora?
Fabiana Pirro
– Ela é uma sobrevivente.

Revista Araçá – A sua personagem instiga propositadamente a plateia ou você se mantém distante?
Fabiana Pirro
– Não, eu estou o tempo todinho de mãos dadas com a plateia. Prefiro até fazer as apresentações em praças, nas ruas, mas, mesmo em teatros convencionais, o olhar de Medusa é o contato mais importante porque vem de uma figura de quem se diz que o olhar petrifica.

Revista Araçá – A reação dos homens que estão na plateia, qual tem sido, geralmente?
Fabiana Pirro
– Regra geral, sinto uma cumplicidade. Um ou outro virou as costas e saiu, como quem diz “essa conversa não é comigo, eu não sou esse homem”. Tudo bem, noventa e nove por cento são os homens olhando, refletindo. Eu faço perguntas para a plateia, tem perguntas que faço para os homens, e as respostas são sempre lúcidas, como “que direito tem um deus de violar uma sacerdotisa?”

Revista Araçá – A sua visão do homem, então, é otimista? A sua Medusa acha que o homem brasileiro tem salvação?
Fabiana Pirro
– A gente tem que acreditar e eu acredito no poder da sensibilização que a arte traz. Acho que os homens estão atentos e até entendendo que essa luta não é só das mulheres. Eu deixo isso muito claro. Tem gente que acha que feminismo são as mulheres contra os homens. Eu também falo um pouco sobre isso, mas não dou uma aula de história porque não sou professora. Eu acredito no poder da reflexão. Um professor de história que assistiu à apresentação no sertão do Cariri me disse: “Eu não sabia dessa versão da Medusa. Muito obrigado por ter me aberto os olhos”. O teatro tem uma forma poética de educar, e eu acho isso tão lindo!

Revista Araçá – A sua Medusa é pacífica?
Fabiana Pirro
– Ela é pacífica, mas está viva. Eu, Fabiana, sou muito pacífica, mas no teatro tenho minhas explosões. Acho que a gente precisa tocar o coração e pra isso tem que ter delicadeza, mesmo na luta. Eu acredito muito mais no poder do amor do que em qualquer outro sentimento na face da Terra. A minha Medusa tem muito de mim porque ela tem as minhas dores, misturadas com as dela.

Revista Araçá – Parece-me que você transmite, com Medusa, a convicção de que é possível mudar o mundo.
Fabiana Pirro
– Eu acredito muito nessa transformação, a gente ainda pode salvar esse mundo. Basta de feminicídios, isso é muito urgente mesmo!

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