Por Fábio Cabral de Mello
O ano era 1976, fazia pouco tempo que papai finalmente havia comprado uma radiola lá pra casa. Eu estava com 13 anos e já era um apaixonado por música. Para comemorar, mamãe comprou na banca de revista em frente ao Hiper Bompreço de Casa Amarela os dois primeiros exemplares da coleção “Nova História da Música Popular Brasileira”: Chico Buarque (vol. 01) e Dorival Caymmi (vol. 02). Aqueles discos foram alumbramentos para mim, que – até então – ouvia música num pequeno gravador que tinha desde os 10 anos, quando ainda morava na Usina Pumaty, no município de Joaquim Nabuco.
Ouvir esses dois álbuns era o meu ritual diário… Fiquei encantado por Chico e Caymmi. As músicas do baiano eu já conhecia, pois mamãe vivia cantarolando pela casa “Marina”, “Dora”, “Saudade da Bahia” (tempos depois, quando fui pai de uma menina, ela tinha que se chamar Marina, claro), mas Chico Buarque eu conhecia muito pouco. Fiquei apaixonado por ele e pelo repertório daquela coletânea: “Pedro Pedreiro”, “A Banda”, “Olê, Olá”, “Funeral de Um Lavrador”, “Roda Viva”, “Construção”, “Acorda, Amor” e “Gota d’Água”… E só falava de Chico, fosse na escola, fosse na rua com meus amigos Sérgio, Ricardo, Wellington…
Até que, no final daquele mesmo 1976, meu irmão Liberato, dez anos mais velho, me convidou pra lanchar no Bompreço e, na saída, passou na seção de vinil e mandou eu escolher um LP de presente. E é claro que escolhi “Meus Caros Amigos”, o lançamento mais recente de Chico Buarque. Aí, o estrago estava feito… E pra aumentar mais ainda esse estrago, meus pais alugaram uma casa de veraneio em Itamaracá, que tinha uma radiola muito mais potente e eu levei o LP pra passar as férias de verão comigo. No fim de semana, eu quase não ouvia o disco, mas quando meu pai voltava pro Recife e eu ficava com mamãe e meus irmãos, colocava Chico várias vezes ao dia… Nem sei como eles aquentavam. Alguns anos depois, fui passar um fim de semana na ilha e resolvi procurar a casa… Fui caminhando pela beira-mar com minha esposa e entrei num bequinho, que tinha quase certeza que chegaria na rua em que veraneamos. E, ao entrar nessa rua, na minha cabeça veio “Mulheres de Atenas”, e as lágrimas correram dos olhos, lembrando daqueles meses que passamos naquela casinha.
Mas vamos ao que interessa, ao motivo pelo qual fui convidado a escrever para esse saboroso Araçá: os 50 anos do lançamento de “Meus Caros Amigos”. Nesse período, o cantor e compositor era um dos alvos principais da ditadura militar, tanto é que, no seu álbum de estúdio anterior, o “Sinal Fechado” (de 1974), ele precisou criar um pseudônimo (Julinho de Adelaide) para enganar a censura. Então, um novo álbum com 10 canções inéditas foi bastante festejado pelo público e pela crítica.
O disco começa com “O Que Será” (“À Flor da Terra”), assinada apenas por Chico, contando com a participação especial de Milton Nascimento. Uma curiosidade sobre essa música é que ela também foi gravada por Milton no LP “Geraes”, com o subtítulo “À Flor da Pele”, e por Simone, com o subtítulo “Abertura”, cada uma com uma letra diferente.
Em seguida vem a parceria com Augusto Boal em “Mulheres de Atenas”, composta para a peça “Lisa, A Mulher Libertadora”, do próprio Boal. Uma ironia à ditadura militar, como se os compositores dissessem que as mulheres de Atenas eram o povo brasileiro (“Elas não têm gosto ou vontade / Nem defeito nem qualidade / Têm medo apenas…”). Continuando, vem a clássica “Olhos nos Olhos”, também assinada apenas por Chico, que foi um grande sucesso e ganhou gravação de Maria Bethânia, tornando-se um clássico obrigatório do repertório da diva baiana.
“Você Vai Me Seguir”, parceria com o cineasta Ruy Guerra, composta para a peça “Calabar, O Elogio da Traição”, feita pela dupla, e “Vai Trabalhar, Vagabundo”, escrita por Chico para o filme homônimo de Hugo Carvana, encerram o lado A do vinil.
Iniciando o lado B, vem o samba “Corrente”, que também recebeu gravação do grupo MPB4 no LP “Canto dos Homens” (do mesmo ano), e “A Noiva da Cidade”, parceria com Francis Hime, da trilha do filme de mesmo nome, de Alex Vianni. Na sequência vem outra parceria com Francis, a deliciosa “Passaredo”, que já havia sido gravada no ano anterior pelo MPB4 e faria parte, em 1977, da trilha sonora do “Sítio do Picapau Amarelo”, com sua temática ecológica.
Continuando, aparece “Basta Um Dia”, da peça “Gota d’Água”, de Chico e Paulo Pontes. O álbum chega ao fim em grande estilo, com o choro “Meu Caro Amigo”, mais uma parceria com Francis e em homenagem a Augusto Boal, que se encontrava exilado em Portugal.
O time de craques que acompanha Chico nesse disco é simplesmente sensacional. Começando com Milton, que divide os vocais em “O Que Será”, e o MPB4, em “Você Vai Me Seguir”, e prossegue com Francis Hime e Antonio Adolfo (piano), Artur Verocai, Luís Cláudio Ramos, Dino Sete Cordas e Perinho Albuquerque (violão), Joel Nascimento (bandolim), Altamiro Carrilho (flauta), Abel Ferreira (clarinete), Djalma Corrêa (percussão) e o coro formado por Miúcha, Bebel Gilberto, Telma Costa e Olívia Hime. Os arranjos são de Francis, Perinho e Luiz Cláudio Ramos.
Passados 50 anos, o disco continua atual e me encantando. Ele foi, sem dúvidas, muito importante pra minha formação musical. Como alguns dos leitores sabem, fui proprietário de uma loja de CDs por mais de 20 anos, a Passa Disco. E, de uma forma ou de outra, inspirei meu filho Jáder a se transformar num cantor e compositor, daqueles que ainda lançam disco físico.
Hoje a música se transformou, e muito. Quase não são mais lançados álbuns inteiros e sim músicas virtuais, que evaporam com o tempo. Acho muito difícil que, em 2076, alguém tenha tantas recordações com um álbum como a nossa geração teve ao ouvir a obra de Chico, de Caetano Veloso, de Gilberto Gil, de Belchior, de Geraldo Azevedo, de Alceu Valença, de Gal Costa… Mesmo com a certeza de que músicas de excelente qualidade continuam sendo lançadas. Mas, descrever o prazer de ter seu primeiro vinil em mãos e poder lembrar dessa emoção meio século depois será quase como um conto de ficção científica para as próximas gerações.





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