A veladura e a expansão da gravura

28 maio 2026 | 0 comentários

Pintura com técnica mista mostrando folhas de papel e folhas de uma árvore. A obra tem tons avermelhados e terrosos
Obra integrante da exposição "Tempo do Meio e o Outono de Novo".

Por Suzana Azevedo

Ojos de dentro que ven desde la nada para acceder a las zonas más profundas y abisales del alma humana. Esta mirada interna se transforma en tactilidad externa.
Tàpies y la ceguera, Pilar Parcerisas

Para falar da verdade da obra de arte, não há como não concordar com Heidegger quando nos ensina que o desvelar, ou seja, o revelar, o mostrar, não pode acontecer sem o velar, sem o ocultar. Para o pensador alemão, o ser se mostra ao mesmo tempo em que se esconde.

Negar a inter-relação que é presente entre o concreto e o abstrato quando se trata do processo e da fruição artística equivale a tirar as lentes de uma pessoa que delas precisa para ver. Não se pode deixar de considerar que a veladura, como instrumento técnico ou conceitual, está na natureza do ser-obra-de-arte.

A gravura, que nasceu como um instrumento de técnica exata e com a missão de repetir para propagar ideia e ideal, viu sua imprescindibilidade cair no ostracismo, devido à chegada da técnica e da virtualidade. Sua utilidade não mais seria para os fins originais, mas cresceu sua importância na arte.

Hoje, eu considero a gravura como uma técnica rica em reflexões filosóficas amparadas no seu princípio maior, que é o espelhamento, e em possibilidades concretas para uma dinâmica nova na construção de imagens.

Todo nosso conhecimento deve se manter refém de uma possibilidade de não conhecimento para que, na possibilidade do novo, floresçam a força da criatividade e a satisfação de equacionar, sob novos processos, uma gravura que agregue mais uma faceta às classificações da imagem de que nos fala Georges Didi-Huberman, que nos venha uma imagem livre do rigor e complacente com o que extrapola os limites.

A reflexão sobre a expansão da gravura agrega o pensar sobre o princípio do palimpsesto, então senti a necessidade de usar defesas para mostrar as primeiras camadas na construção da monotipia. A sobreposição modifica a imagem, mas não esconde as primeiras batidas.

O caminho que sigo na minha poética considera não somente a intervenção, mas eu também estou atenta à voz do suporte. Nesse sentido, o suporte de que me valho tem origem no descarte de todo tipo de papéis e de papelões, o LMais. Ele se compõe da memória advinda dos seus antigos usos e da textura das fibras que o construíram.

O trabalho que faço me gratifica pela transgressão que exerço nas regras e pelo resgate que faço do descarte, que é um dado transgressor da saúde do planeta.

Faço um trabalho que tem via de mão dupla. Com 26 anos de arte voltados para as questões aqui colocadas, trabalho arduamente para a interiorização da arte. Caminhar no sentido do interior do Estado de Pernambuco, levando essas premissas para serem pensadas e exercidas junto às comunidades carentes de integração cultural tem sido uma prática no meu caminho. O prazer de compartilhar essas inquietações sobre quebra de padrões com pessoas que são virgens de condicionamentos de qualquer equipamento cultural é sentir que o véu, necessário ao processo de desvelamento da verdade da obra de arte, começa por agregar fazeres livres de tutelas ou de cânones. Estou dedicando este ano de 2026 à retomada do processo de interiorização da arte e ao desvelamento da formação da imagem em sua independência técnica.

Também neste ano, tornarei fixas, outra vez, as instalações da Oficina do Tempo, espaço que pretende acolher a pesquisa e o compartilhamento com grupos que nutram o interesse pela ressignificação e pelas técnicas de impressão como caminho para conceito e resolução plástica da minha poética.


Suzana Azevedo é graduada em Artes Plásticas pela UFPE, tem mestrado em Artes Visuais pela Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo, e doutorado em Belas-Artes, com especialidade em Pintura e Gravura, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

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