Seu Martelo, noventa anos

28 maio 2026 | 0 comentários

Seu Martelo sentado no chão se pintando

Por Paulo André Leitão

Sebastião Pereira de Lima nasceu em 31 de maio de 1936. Seu Martelo veio ao mundo quando Sebastião já era adolescente. Sebastião Pereira de Lima é Seu Martelo na certidão de nascimento. Seu Martelo é o Mateus mais velho em atividade em todo o Brasil. Impossível separar um do outro. Sebastião vive Seu Martelo o tempo todo, não apenas quando se entrega à brincadeira do Cavalo Marinho com alma e figurino de Mateus. O certo, talvez, seria juntar em uma só pessoa Seu Martelo e Mateus, deixando-se Sebastião Pereira de Lima para documentos e ocasiões oficiais.

Seu Martelo tem a dimensão da importância de Mateus para o Cavalo Marinho. “O Cavalo Marinho pode brincar sem a rabeca, mas sem o Mateu não brinca. É um serviço pesado que leva a vida inteira para aprender”, afirma ele no livro Mateus de uma Vida Inteira, organizado por Cibele Mateus e Odilia Nunes.

Pausa: Mateu escrito sem o S final pareceu erro de digitação? Pois não é. O livro transcreve literalmente as palavras de Seu Martelo às duas pesquisadoras. Riquíssimo, o resultado.

Seu Martelo deitado no chão, vestido como Mateus, dando uma boa risada

Seu Martelo brinca como Mateus. Foto: Claudia Dalla Nora

“O Cavalo Marinho ou Cavalo Marim é uma expressão cultural realizada na Zona da Mata Norte de Pernambuco e no Sul da Paraíba, cujas origens estão marcadas pela presença, nessas regiões, de negros escravizados e seus descendentes, trabalhadores livres e indígenas atuantes na lida dos engenhos de cana-de-açúcar. Chamada por seus fazedores de ‘brincadeira’, é composta por música (toadas), loas (poesias versadas), figuras mascaradas, bonecões, bichos e trupés (dança) feitos através de movimentos ritmados dos pés batendo no chão”, explicam Cibele e Odilia na apresentação do livro.

Foi nesse universo, envolto pelos canaviais de Nazaré da Mata (PE), que Seu Martelo se criou e virou o Mateus querido e respeitado por seus pares. Quem gosta da brincadeira sempre encontrou nele a companhia para ganhar a rua e virar a noite até a barra do dia quebrar.

Seu Martelo brincou a vida toda. O dia a dia é com a família na casinha em Condado, também na Zona da Mata Norte pernambucana. Se surge oportunidade de brincar, ele não rejeita. O corpo de noventa anos, claro, está longe dos tempos da mocidade, mas tem caldo para a brincadeira, que também pode representar trabalho e um dinheirinho a mais para reforçar o orçamento sempre apertado. O Mestre – ele não gosta de ser chamado assim porque, na sua visão, Mestre é Deus – ensina a quem quer desvendar os segredos do ofício.

A cabeça cultiva lembranças, personagens, histórias corriqueiras e fantásticas. Prosa muito e ilustra a narrativa com o corpo. Quem tiver a oportunidade de conhecê-lo, vê-lo dançar, conversar com ele, não vacile. Aos noventa anos, Seu Martelo bem que poderia receber a graça de viver mais e mais, com saúde, muita saúde. É pedir demais? É nada. Sebastião Pereira de Lima, Seu Martelo, Mateus e a cultura pernambucana e brasileira merecem.

Riba, pareia!

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