Por Paulo André Leitão
Sebastião Pereira de Lima nasceu em 31 de maio de 1936. Seu Martelo veio ao mundo quando Sebastião já era adolescente. Sebastião Pereira de Lima é Seu Martelo na certidão de nascimento. Seu Martelo é o Mateus mais velho em atividade em todo o Brasil. Impossível separar um do outro. Sebastião vive Seu Martelo o tempo todo, não apenas quando se entrega à brincadeira do Cavalo Marinho com alma e figurino de Mateus. O certo, talvez, seria juntar em uma só pessoa Seu Martelo e Mateus, deixando-se Sebastião Pereira de Lima para documentos e ocasiões oficiais.
Seu Martelo tem a dimensão da importância de Mateus para o Cavalo Marinho. “O Cavalo Marinho pode brincar sem a rabeca, mas sem o Mateu não brinca. É um serviço pesado que leva a vida inteira para aprender”, afirma ele no livro Mateus de uma Vida Inteira, organizado por Cibele Mateus e Odilia Nunes.
Pausa: Mateu escrito sem o S final pareceu erro de digitação? Pois não é. O livro transcreve literalmente as palavras de Seu Martelo às duas pesquisadoras. Riquíssimo, o resultado.

Seu Martelo brinca como Mateus. Foto: Claudia Dalla Nora
“O Cavalo Marinho ou Cavalo Marim é uma expressão cultural realizada na Zona da Mata Norte de Pernambuco e no Sul da Paraíba, cujas origens estão marcadas pela presença, nessas regiões, de negros escravizados e seus descendentes, trabalhadores livres e indígenas atuantes na lida dos engenhos de cana-de-açúcar. Chamada por seus fazedores de ‘brincadeira’, é composta por música (toadas), loas (poesias versadas), figuras mascaradas, bonecões, bichos e trupés (dança) feitos através de movimentos ritmados dos pés batendo no chão”, explicam Cibele e Odilia na apresentação do livro.
Foi nesse universo, envolto pelos canaviais de Nazaré da Mata (PE), que Seu Martelo se criou e virou o Mateus querido e respeitado por seus pares. Quem gosta da brincadeira sempre encontrou nele a companhia para ganhar a rua e virar a noite até a barra do dia quebrar.
Seu Martelo brincou a vida toda. O dia a dia é com a família na casinha em Condado, também na Zona da Mata Norte pernambucana. Se surge oportunidade de brincar, ele não rejeita. O corpo de noventa anos, claro, está longe dos tempos da mocidade, mas tem caldo para a brincadeira, que também pode representar trabalho e um dinheirinho a mais para reforçar o orçamento sempre apertado. O Mestre – ele não gosta de ser chamado assim porque, na sua visão, Mestre é Deus – ensina a quem quer desvendar os segredos do ofício.
A cabeça cultiva lembranças, personagens, histórias corriqueiras e fantásticas. Prosa muito e ilustra a narrativa com o corpo. Quem tiver a oportunidade de conhecê-lo, vê-lo dançar, conversar com ele, não vacile. Aos noventa anos, Seu Martelo bem que poderia receber a graça de viver mais e mais, com saúde, muita saúde. É pedir demais? É nada. Sebastião Pereira de Lima, Seu Martelo, Mateus e a cultura pernambucana e brasileira merecem.
Riba, pareia!





0 Comentários