A Revista Araçá antecipa o prólogo do livro Presunção de Inocência, de Andrea Nunes. O novo romance policial da paraibana se passa em uma faculdade de direito de elite e debate temas contemporâneos como a violência contra a mulher. O livro, voltado para o público jovem adulto, vai ser lançado no próximo dia 7 de maio, às 17h30, na Livraria Jaqueira do Paço Alfândega.
PRÓLOGO
Cento e vinte quilômetros por hora.
Dandara segurou-se como pôde no banco do carona. João Batista dirigia feito um louco, mas a normalidade, àquelas alturas, parecia uma lembrança remota de outra vida.
Da vida que ela tinha até a véspera daquilo tudo.
— A gente não devia estar fazendo isso! Não devia! Não devia mesmo! — Otávio choramingava no banco de trás.
O filho do Senador, que no dia a dia das aulas exalava uma insuportável aura de autoconfiança, estava pálido, como se estivesse prestes a desmaiar.
— Quer calar a boca? — o comando impaciente de João Batista, acompanhado do olhar duro lançado pelo retrovisor, pôs fim ao chilique do rapaz, que mergulhou num silêncio letárgico.
Um chute no banco de trás, vindo do porta-malas, arremessou Camila para a frente.
— Puta que pariu! — ela gritou, e deu uma cotovelada, como se quisesse que o refém parasse de bobagem.
Otávio se encolhia discretamente para não ser chutado também, e começava a murmurar algo, com os olhos suplicantes voltados para o alto.
Será que ele está rezando?
Dandara pegou o celular e começou a digitar um número. Camila reagiu imediatamente e tomou o aparelho das mãos dela.
— Ficou maluca?
— Devolve! Ele vai saber o que fazer nessa situação!
— Ah, vai mesmo! — Camila sacudiu a cabeça; o vaivém dos cabelos roxos varrendo a linha dos ombros, os olhos sarcásticos reduzidos a duas fendas. — Vai é nos mandar pra cadeia!
Cadeia.
Em que momento mesmo quatro jovens estudantes de Direito tinham se tornado sequestradores? Não importava. Estava feito.
— Dandara…
O tumulto dentro do carro parecia ter tirado Otávio do transe em que se encontrava, e ele tocou no ombro da colega do banco da frente.
— Que foi?
— Talvez você esteja ciente de que essa situação em que a gente se meteu pode render uma ficha criminal bem extensa pra todos nós.
Dandara encolheu os dedos dos pés instintivamente. Lembrou do toque gelado nos ladrilhos do banheiro do reformatório, onde tinha de tomar banho às cinco da manhã.
Cadeia não, pelo amor de Deus! Prefiro morrer a passar por tudo aquilo de novo.
Ela não respondeu. Otávio seguiu:
— Acho que só hoje a gente deve ter cometido uns oito tipos diferentes de ilícitos!
João Batista fez o carro cantar pneu quando saiu da autoestrada para uma avenida urbana e cortou um sinal vermelho.
— Nove tipos…. — Otávio choramingou.
Camila colou o nariz no vidro e tentou se concentrar na paisagem.
— Ei! — Otávio apontou alarmado pela janela do carro — Eu conheço essas árvores e esses prédios! A gente tá entrando no Campus!
Como ninguém respondeu, insistiu:
— Ah, não, não, não! Vocês querem ferrar tudo de vez, né?
O condutor do carro reduziu a marcha quando a placa sinalizadora indicou o destino.
“Departamento de Prática Forense”.
Só então João Batista olhou para os colegas pelo retrovisor antes de estacionar.
— Dandara tá certa, Camila. Esse plano foi dele. Só ele pode ajudar a gente a sair dessa.






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