Raiz
Quando mataram a travesti que morava no barraco lá no final da rua, ninguém quis ir tirar o corpo. Ficou lá mesmo, com as facadas no peito, estirada no caminho entre o portão e a casa, os olhos abertos virados para quem passasse pela calçada.
Tinha gente que dizia que era puta, aidética e pedófila. Tinha gente que dizia que era bruxa, macumbeira, ladrona e alma sebosa. Não queriam nem chegar perto do corpo pra não pegar algo ruim. Quando começou a feder, só passaram a evitar se aproximar da casa.
Ninguém pensou em chamar a polícia, porque cada facada foi de um morador ali.
Jaci era a única que sorria pra mim naquela merda de lugar. Então, chamei a polícia. Mas aí não chegou só a polícia. Veio SAMU, bombeiro, jornal, porque ninguém conseguiu tirar o corpo.
Quando foram puxar, viram as raízes que saíam dos buracos, dos dedos, dos cabelos. Eram grossas e fundas, e mesmo depois de escavarem, derrubarem a casa, quebrarem a calçada e um pedaço da rua, não acharam até aonde iam.
As raízes se espalharam pelo bairro, agora abandonado, as ruas cheias de rachaduras. Todo mundo escondido na cidade, esperando o dia que o piso partiria e apareceria uma raiz, um broto, um pé de travesti. Aí, teriam que encarar aquela mata, aquela planta invasora. Teriam que encarar as sementes daqueles olhos tristes de Jaci.





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