A Copa que eu vi até aqui

2 jul 2026 | 0 comentários

Torcedores assistem a Brasil x Japão em São Paulo. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

Por Fernando Rêgo Barros

Já estamos na segunda fase da Copa. O Brasil superou o Japão no sufoco, com um gol de Martinelli, nos acréscimos, e já temos presença assegurada nas oitavas de final, domingo (5), quando vamos enfrentar a Noruega de Haaland e companhia. Mesmo assim, vou me deter um pouco sobre o que vimos na fase de grupos.

No Mundial inflado pela Fifa para 48 nações, felizmente os países com menor expressão no futebol não deram vexame. E até proporcionaram alguns bons momentos, que já podemos dizer que marcaram essa Copa. Como não se emocionar ao ver a seleção de Curaçao sendo aplaudida por sua torcida ao conseguir empatar em 0 a 0 com o Equador, na segunda rodada? Isso depois de terem levado uma goleada da Alemanha, por 7 a 1, na estreia.

E, para ficar ainda nos estreantes, foi comovente ver a vibração dos cabo-verdianos ao empatar os três jogos e conseguir avançar de fase em sua primeira participação em uma Copa do Mundo. Vão encarar a Argentina nas oitavas, mas e daí? Qualquer que seja o resultado, o goleiro Vozinha e seus companheiros já terão feito história. 

Entre os dezesseis eliminados na fase de grupos, a grande decepção foi o bicampeão Uruguai, que só conseguiu dois pontos e ainda teve o goleiro Muslera em péssimo momento, falhando nos três jogos. Quem também ficou muito aquém do que se esperava foi a Turquia, que só venceu o último jogo, quando já estava eliminada. Ainda entre os que deram adeus na primeira fase, lembro que o Haiti perdeu seus três jogos, é verdade, mas não foi goleado em nenhum deles, como se imaginava. 

Os craques da Copa

O que deu gosto até agora foi ver a atuação dos grandes protagonistas. A começar por Messi, que já fez seis gols e bateu o recorde de maior artilheiro das Copas. Até agora ele tem 19. Messi é superlativo. Em sua sexta Copa e aos 39 anos, continua jogando com toda a seriedade que sempre marcou sua trajetória nos gramados. Ver Messi em campo é algo especial para quem é apaixonado por esse esporte. 

Além de Messi, este início de campeonato nos brindou com grandes exibições de Mbappé, Dembelé, Haaland e Vini Jr. Mbappé mostra que pode superar o recorde de gols de Messi. E Halland, nunca é demais lembrar, tem a surpreendente marca de mais gols do que jogos pela seleção da Noruega. Sobre Cristiano Ronaldo, eu diria que tanto ele quanto seus colegas de seleção ainda estão devendo. Criou-se uma grande expectativa em relação a Portugal, ainda não correspondida. 

Brasil evolui a cada jogo

Quanto ao Brasil, temos visto o time evoluir a cada jogo. Na primeira fase, a partida contra a Escócia foi onde mostramos maior entrosamento. Ancelotti parece estar consolidando sua equipe. Mas ainda vejo a nossa seleção distante de outras que já exibiram um futebol melhor. França, Argentina, Holanda, Alemanha, Inglaterra e Croácia. Todas apresentaram mais futebol que o Brasil nos três primeiros jogos. Embora Alemanha e Holanda tenham sido eliminadas na fase de dezesseis avos, por Paraguai e Marrocos.

Ancelotti levou consigo para os Estados Unidos a pressão para encontrar um lugar para Neymar no time. Não é uma tarefa fácil, até pelo fato de Neymar, depois de tanto tempo em recuperação, estar longe de sua melhor condição física. Colocá-lo em campo em jogos de tanta intensidade como os que temos visto pode ser arriscado e, até mesmo, um erro.  É evidente que Ancelotti cedeu à pressão externa (de parte da mídia) e interna (da CBF). E, por isso, acabou levando Neymar. Gostaria muito de queimar minha língua e me penitenciar por não ter previsto o grande desempenho que ele ainda pode vir a apresentar neste campeonato. Mas confesso que acho isso pouco provável. 

As torcidas fazem o espetáculo

As manifestações das torcidas são um espetáculo à parte nas Copas do Mundo. Nesta, a coreografia ensaiada dos noruegueses imitando de forma sincronizada os movimentos dos remadores em um antigo navio viking chamou a atenção em todos os jogos do país nórdico. E, no final do segundo jogo da Noruega, foi muito bonito ver a sintonia entre jogadores e torcida, fazendo juntos o movimento: os atletas sentados no gramado, a torcida nas arquibancadas. 

O mar amarelo proporcionado pelas torcidas do Brasil, da Colômbia e do Equador nos estádios da Copa também causa grande impressão e, eu diria, pode até assustar os adversários. Já os japoneses chamaram a atenção por cantarem incansavelmente durante os noventa minutos das partidas de sua seleção. 

A torcida vem fazendo sua parte nos jogos. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Novo formato

Não aprovo a Copa com tantos países, mas vou ter de me acostumar, uma vez que deixar de gostar de Copa do Mundo está fora de cogitação. Para atender ao novo formato, com 48 seleções, a terceira rodada da fase de grupos criou situações no mínimo desconfortáveis. Como o fato de os terceiros colocados de alguns grupos terem de esperar o último jogo de outros grupos, três dias mais tarde, para saber se seguiriam na competição ou não. Foi o que aconteceu com a Escócia, terceira colocada no grupo do Brasil. 

E aqui me permito criticar a “pausa para hidratação”, que acabou por dividir os jogos em quatro quartos. Os técnicos, claro, aproveitam a pausa para fazer ajustes táticos. Essa parada para hidratação seria compreensível e até necessária em jogos com altas temperaturas. Mas a Fifa determinou que todos os jogos fossem interrompidos, mesmo quando a temperatura não chegava aos 25 graus. Com isso, a pausa acabou servindo muito mais para criar novos espaços de inserções comerciais do que para preservar a saúde dos atletas. 

A geopolítica da Copa

Nota negativa no Mundial foi o tratamento recebido pela delegação do Irã. O time enfrentou muitos percalços extracampo. O governo dos Estados Unidos dificultou o que pôde a participação dos iranianos. Uma atitude injustificável e que teve, o tempo todo, a complacência da Fifa. Nada foi feito pela entidade máxima do futebol para contornar a situação. 

O Irã ainda teve a má sorte de, no último jogo, contra o Egito, ter um gol anulado, nos acréscimos, porque o pé do zagueiro Khalilzadeh estava milímetros à frente do pé do adversário. Só o VAR viu. Com isso, o jogo terminou 1 a 1, resultado que, depois de definidos outros jogos, eliminou a seleção iraniana.

Nessas horas, fico imaginando o que Nelson Rodrigues diria do VAR. Chamá-lo de burro, certamente, seria o menor dos impropérios que o grande dramaturgo e cronista esportivo soltaria.  

E houve outros casos que fizeram desta Copa uma das que mais tiveram incidentes diplomáticos e políticos da história. Como esquecer que o árbitro Omar Artan, da Somália, mesmo tendo passaporte diplomático e visto autorizado, foi barrado pela imigração norte-americana por “questões de segurança nacional”? Ou que atletas do Senegal e do Uzbequistão denunciaram abordagens e revistas consideradas desproporcionais e discriminatórias nas pistas de aeroportos americanos? Nas duas situações, a Fifa não se pronunciou. 

Sem falar que jornalistas e torcedores de países como Haiti, Costa do Marfim e Iraque também sofreram com vistos negados ou exigências financeiras abusivas. Coisas desse governo autoritário de Donald Trump. 


Fernando Rêgo Barros é jornalista e autor do livro 1958: Como ganhamos a Copa na Suécia

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