Samarone está de volta com novo livro de poemas

9 jul 2026 | 0 comentários

Foto Luiz Roberto Lima/Divulgação

Por Sidney Rocha

Depois de alguns anos trabalhando fora de Pernambuco, o jornalista e poeta Samarone Lima volta ao Recife, mais especialmente ao Poço da Panela, onde desenvolve cursos, oficinas e ações comunitárias com literatura & leitura. 

Samarone tem livros de reportagem, Viagem ao Crepúsculo, e de poemas, o box A praça azul & Tempo de vidro, finalistas do Prêmio Jabuti. Os poemas de O aquário desenterrado venceram o Prêmio Alphonsus Guimarães da Fundação Biblioteca Nacional, um dos mais respeitados do país. Além disso, seus livros-reportagens e Clamor foram adaptados para o cinema. Clamor está sendo filmado no Chile.

Neste retorno, Samarone faz alguns lançamentos do seu novo livro de poemas, Quinhão de futuro. A relação da poesia com a política, o mercado e a memória no seu novo livro são temas da entrevista que Samarone me concedeu.

Quinhão de futuro é um livro com forte tom confessional. A poesia no Brasil tem muitos desses autores e autoras “confessionais”, como Ana Cristina César, Hilda Hilst, de quem você já confessou gostar, e Paulo Leminski. Em que momento uma confissão deixa de ser apenas sua e passa a pertencer ou interessar a qualquer leitor? Corre-se o risco de o leitor confundir o poema com uma autobiografia?

Creio que o tema principal da criação, no meu trabalho poético, é o da memória. Ela me atravessa, me move e comove, muito mais que o tom confessional. O que gosto muito na Hilda Hilst é a sofisticação da linguagem, a busca de profundidade e a voz própria. Sempre que posso, pego um de seus livros para me inspirar. A Ana Cristina César, li entusiasmado, quando era mais moço, quando cheguei ao Recife, com pouquíssima bagagem poética. Depois de um tempo, o Paulo Leminski também teve esta pegada.

Sua obra tem um plano, pode-se dizer isso?

Quinhão de futuro é meu oitavo livro de poesia, e creio que segue uma linha não planejada: a cada livro, vou saindo de cena, falando menos do “eu”, em busca mais da observação, invenção, das imagens. As “confissões”, de agora, são menos minhas, se referindo a outro tema que me toca muito, que é o da ancestralidade. Meus pais aparecem, em momentos que me comoveram, mas depois saem de cena. O mesmo acontece com meu filho, Samir, que foi uma revelação tardia, já que fui pai aos 52 anos. 

Mas isso da memória é um tempo recorrente, está em suas crônicas, também, mesmo disfarçadamente.

No meu terceiro livro, O aquário desenterrado, o tema da memória é absoluto. Não há uma página, creio, que não tenha este assunto, de forma explícita. Ironicamente, isso tocou muita gente que se interessou pela minha poesia. 

A questão é como fazer isso sem parecer mesmo a realidade. Há uma técnica?

O grande truque é que essas memórias não são material oficial, nem têm obrigação de verdade. Eu transformo a verdade, em nome da beleza, ou do espanto. De certa forma, fiz as pazes com eles, os que vieram antes, neste território da memória, que tem tantas feridas abertas, até entre os que se amam, mas não sabem o que fazer com isso. 

Insisto nisso do “eu” porque tem-se ouvido falar muito sobre “autoficção”, “escuta”, “empatia”, “ancestralidade”, como se a literatura e a poesia fossem um tipo de prestação de contas, um “pagou-geral-psicanalítico-e-político” para tudo. A minha afirmação soa exagerada para você? Como você vê a literatura, de modo geral, hoje, no Brasil, e a poesia, de modo específico?

Tenho realizado oficinas literárias com o título “Poesia, memória e ancestralidade" há um bocado de tempo, com uma temporada de três anos, no circuito Sesc de São Paulo, com resultados maravilhosos. Mas serviam apenas como porta de entrada, para abrir o imaginário. Alguns sacaram bem a proposta, mergulharam e voltaram mais atentos a esta preciosidade. No fundo, é outra coisa, que não sei o nome, mas um dia, não se sabe como, aparece um ou uma poeta no meio da turma, e todos percebem. É quando, após uma leitura tímida, quase inaudível, todos ficam calados, como se quisessem dizer: “Que porra é essa?!”. A poesia chegou. Ou lá já estava. O mais importante é entender um pouco dos mecanismos de escrita poética e criação. De cara, sem obsessão pela escrita, não dá. É coisa para a vida inteira. Costumo dizer que se não tivesse mercado editorial, publicação de livros, mesas literárias, festivais literários, eu continuaria escrevendo. O motivo? Preciso disso para alimentar minha alma.

Nessas oficinas que tem ministrado, de fato, se lê a conexão: o ato de escrever está ligado à memória. Esta é uma ligação muito presente nos seus livros anteriores de crônica (Estuário, 1995; Trilogia das cores, 2013) ou de poemas. A memória costuma transformar os fatos antes mesmo de serem mencionados. Isso ocorre também em relação ao poema. Na sua escrita, qual é a relação entre a lembrança e essa realidade reinventada que a poesia constrói?

Poesia é invenção. Em todos os meus livros, ela faz sua parte. Mas é um trabalho de muitos anos, encontrar essa invenção, e fazê-la funcionar, sem tentar ser um cara legal, que teve uma vida sofrida, e se derrama na autopiedade rasteira.

Há rumores ou humores do jornalista e repórter Samarone Lima em Quinhão de futuro. Há menções a ícones da poesia e música como o poeta chileno Victor Jara (1932-1973), a poeta argentina Alfonsina Storni (1892-1938), o jornalista também argentino Osvaldo Soriano (1943-1997), e a argentiníssima humanista Estela de Carlotto (1930), que recuperou o neto 35 anos depois de sequestrado pela ditadura argentina; mas também suas “errâncias” por Montevidéu, Buenos Aires, Santiago do Chile. Por que a ênfase à Argentina, em particular, e à América do Sul, no seu trabalho? Isso tem a ver com o trabalho de jornalista?

Sim, é uma parte importante do meu trabalho como jornalista, e da minha alma. Foram longas temporadas na Argentina, Uruguai e Chile, numa pesquisa sobre ditadura e repressão na América Latina, que resultou no livro Clamor, publicado em 2003, pela editora Objetiva. Foram meses mergulhado em realidades que me tocaram profundamente. Passei um reveillon, em 1999, num povoado no norte do Chile, chamado Chiu-Chiu, que tinha 300 habitantes. Um líder indígena me acolheu em sua morada, e ficamos muito amigos. Ele disse que eu poderia morar no povoado sem problemas, e fiquei tentado a ficar, mas precisava continuar a jornada. Fui muito influenciado pela música, literatura e cultura destes povos, e pela amizade, na convivência com muita gente linda. De fato, foi um divisor de águas em minha vida. Ainda irei morar no Uruguai, com certeza. Não por acaso, neste momento, Clamor está sendo filmado, em São Paulo e no Chile. Será um longa-metragem, o primeiro da cineasta Malu de Martinho.

Em um dos melhores poemas do livro, você encara o fantasma do seu pai. Noutro, você acolhe a forte silhueta de sua mãe. Num bom momento, você recorre à imagem do seu filho (e talvez nisso resida o espírito do livro, o quinhão de futuro). O que seu filho permitiu que você escrevesse que seus pais não permitiam?

Ele é mesmo um quinhão do presente. Minha mãe chegou a conhecê-lo, em Curitiba, num festival de cinema, e ficou chapada. Mesmo com a gente morando no interior de São Paulo e ela em Fortaleza, eles se falam pelo WhatsApp. Quando ela morreu, dei a notícia, aquele papo cristão de que a vovó foi para o céu etc. Ele teve uma sacada memorável: “Papai, então vamos fazer um foguete, para ver a vovó Ermira no céu?”. Ele me deu o sopro da leveza, que eu estava aguardando…

A quem interessa a poesia, hoje, no Brasil? 

Interessa a muita gente. As oficinas que venho dando, nos últimos anos, têm sempre turmas entusiasmadas, com gente querendo desenvolver a escrita. Publicar já é outra coisa. É preciso uma dose de sorte também. 

Como foi publicar pela Cobalto, uma editora cujo editor, Vanderley Mendonça, é conhecido e reconhecido pela exigência com a qualidade do que coloca nas prateleiras? Como se deu essa relação em Quinhão de futuro?

No caso da Cobalto, foi numa das boas conversas que tive na casa do velho e bom Xico Sá, em São Paulo. Ele e sua esposa, Larissa, recomendaram fortemente a Cobalto, do Vanderley. Foi o céu. O homem conhece todos os bons e maus poetas, saca do mercado editorial e suas mazelas, e gostou do meu trabalho. Trabalhamos durante quatro meses sem nos ver. Quando nos encontramos, descobri que o poeta chileno que adoro é o mesmo pelo qual ele tem devoção. Eu tinha uma foto da casa onde o poeta nasceu, em Santiago do Chile. Ele tinha uma foto ao lado do túmulo do poeta. Achei o máximo. Quando vi a lista dos poetas que ele publicou, fiquei impressionado. Cheguei em um belo lugar, nesta longa jornada poética. 

Que significa esse retorno ao Recife, cidade de sua formação profissional e intelectual? 

Tudo. Aqui, sempre tive florescimentos. Me afastei por questões econômicas, mas foi muito sofrido. Nesses três meses do retorno, coisas profundas estão acontecendo. Aqui é o meu chão.

Pretende fazer outros lançamentos de Quinhão de futuro? Você e a editora têm uma programação?

Pequenos lançamentos, para encontrar as pessoas queridas e ter tempo para dedicar os livros e conversar.

Quinhão de futuro

Samarone Lima

Cobalto

72 pp.

R$ 45

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