Aos 70 anos e mais, a 100 km e menos: a estrada com Carrero 

16 jun 2026 | 0 comentários

Foto: Paulo André Leitão

Por Paulo André Leitão

"A vida é traição, Carrero!", eu o saudava. "A vida é traição, Paulo!", gargalhava ele. O título de sua derradeira obra publicada marcava nossos encontros e despedidas. Podia ser um telefonema ou uma viagem, Carrero me fazia rir da vida. 

O tempo nos aproximou meio que por acaso, agosto de 2023, quando ele revelou que estava escrevendo uma novela. Quando ficou pronta e descobri que ele não contava com ninguém para ajudar na divulgação, ofereci o apoio da Araçá. O primeiro lançamento, em 3 de julho de 2025, na Livraria Jaqueira do Paço Alfândega, nos mostrou que teríamos muito trabalho pela frente. Os livros chegaram dois dias antes da data marcada e a participação da editora Record limitou-se ao indispensável. 

Carrero ficava ansioso, mas não perdia o humor. Inexperiente e diante de um autor de sua dimensão, eu só me dizia que era um absurdo o tratamento que ele recebia. A presença de inúmeros amigos, admiradores e ex-alunos garantiu o sucesso do lançamento, apesar de ter sido uma tarde de chuva. Carrero estava alegre o tempo todo e várias vezes expressou gratidão às pessoas e à vida.

Passados poucos dias, me telefonou:
– Paulo, chame Ricardo e venham almoçar na minha casa.
– Onde é sua casa?
– Na Tamarineira. Do lado de fora.

Pra quem não sabe, o bairro da Tamarineira já foi sinônimo de "lugar de doido". Carrero confessou em "A vida é traição" ter a alma atormentada, mas de doido não tem nada. A conversa foi boa e gerou um roteiro de lançamentos por cidades do interior de Pernambuco. Já de saída, vi que os vizinhos criaram no térreo do edifício um recanto que batizaram de Praça Escritor Raimundo Carrero.

Homenagem do condomínio de Raimundo Carrero. Foto: Paulo André Leitão

Caruaru foi nosso primeiro destino. A esposa, Marilena, é inseparável companheira de todas as viagens, anjo da guarda, mas Carrero se benze e beija a medalhinha que leva no pescoço antes de o carro se movimentar, seja o início da viagem, seja reinício na estrada.

– Você tem medo de morrer, é, Carrero?, pergunto.
– Tenho. E também tenho medo de alma. 

A estrada termina antes das conversas, que se prolongam com os convidados para o lançamento. É incrível como uma pessoa com a saúde fragilizada e a locomoção reduzida por mais de um AVC não se cansa de falar, de ouvir, de posar para fotos, fotos sem fim, de puxar assunto com quem pede uma dedicatória no livro comprado no lançamento ou em exemplares trazidos de casa. "O ano passado eu estava doida. O que é que o senhor acha disso?", pergunta-lhe uma jovem. "Eu acho ótimo", responde.

A fila anda. As dores na coluna, entretanto, apontam para o relógio. É hora de pegar a estrada de volta.

Com os livros enviados pela Record esgotados, recorri a uma distribuidora e em seguida à Amazon. As livrarias recifenses já não tinham o livro. Vieram Arcoverde, veio o Recife Academia Pernambucana de Letras, Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Bienal do Livro.

Por onde passamos, Carrero repetia que o amor dá sentido à vida e citava Marilena , fazia reflexões sobre Deus e o mundo que ele enxergava no dia a dia e nos livros que escreveu. E eu, besta que só, me perguntava como um escritor tão denso se expressava com tanta leveza sobre a brutalidade do ser humano e, apesar de tudo, sobre suas possibilidades existenciais.  

Com a atenta Marilena, no lançamento em Arcoverde (Livraria Lira Cultural). Foto: Paulo André Leitão

A companhia de Carrero na estrada estimulava minha curiosidade, que ele nunca repeliu. Jornalista, sabia que quase sempre nossa trilha é a das perguntas. Foi assim, a 100 (ou menos) quilômetros por hora e aos 70 (e mais) anos de idade, que nos tornamos amigos. Telefonemas e breves encontros no Recife ampliaram a amizade. A cada conversa, a pergunta: "Quando vai ser o próximo lançamento?" 

Foi em São Paulo. O escritor Marcelino Freire, aluno da primeira oficina literária de Carrero, em 1988, convidou-o para a vigésima Balada Literária. O lançamento de "A vida é traição" na capital paulista, o primeiro fora de Pernambuco, gerou-se em outra conversa nossa, quando, mais uma vez, critiquei o tratamento da Editora Record. Combinamos com Marcelino lançar o livro, cuidamos de tudo e, desta vez, evocamos o título de um livro de J. D. Salinger, outra de nossas afinidades, para nos despedir: "Erguei bem alto a viga, carpinteiros". 

Carrero na Balada Literária de São Paulo. Foto: Paulo André Leitão

O desafio maior era o avião, medo maior que o de alma, mas com as rezas, a medalhinha e Marilena, Carrero chegou firme a Sampa. A receptividade a ele na Balada, confesso, me emocionou. Chegamos juntos, os três, Marcelino anunciou a presença dele e todos os participantes se levantaram e o aplaudiram. O mestre era uma alegria só! Ao clima de admiração e respeito, a palestra de Carrero somou a intimidade que a literatura proporciona quando quem leu está diante de quem escreveu. 

As últimas conversas nossas foram por telefone e olhavam para o futuro. Carrero pretendia atualizar o livro em que ensina técnicas de redação e começava a delinear um novo romance, cujo protagonista seria Jesus Cristo. Católico, devoto de Nossa Senhora, músico, jornalista, professor, torcedor do Sport Club do Recife, aos 78 anos não parou de escrever. Foi só o coração que deixou de pulsar. A literatura, não. 

A gente se despediu com "A vida é traição", seguida da gostosa gargalhada. Carrero é o amigo que, aos 70 e mais anos, a vida me proporcionou. A ele sou grato por tudo que me deu e que me estimula a seguir em frente, como se estivesse a me dizer: "Erguei bem alto a viga, carpinteiros".   

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