Marcelino Freire, Micheliny Verunschk e Newton Moreno falam sobre Carrero
Foi na Sala Graciliano Ramos que o conheci. Sala que ficava na antiga Livraria Síntese no Recife. Eu tinha 19 anos. Era a primeira oficina literária da qual eu participava. Carrero me ensinou a ler. Levou-me, com fervor, às entrelinhas de um texto, às sub-sombras de uma obra. Quanta paixão pela palavra, esparramada pelo seu corpo inteiro. Seus gestos largos eram de devoção ao ofício da escrita. Quanta fé plantava em seus livros! Carrero era a verdadeira imagem de um escritor comprometido e apaixonado. Ele era grato à literatura por ter o salvado. Ele transmitia a nós esse legado. Tudo o que hoje eu sou tem Raimundo Carrero nessa construção. Esteve e estará sempre em cada livro meu. Em cada leitura também a força de sua presença.
Marcelino Freire, escritor
Primeiro dia da morte de Raimundo Carrero. Agora ele é personagem. E a morte, ficção. Ler Raimundo Carrero aqui. Agora. Esse aqui indefinido. Esse agora que se estende, como se estende o tempo, inapreensível, eterno. A página em branco, inexistente, o computador brilhante. Escrever Raimundo Carrero. Dizer do seu olhar arguto. De sua generosidade. Dizer coisas como “um grande escritor”, “aquele que nos deixou”, “aquele que permanece”. A impossível tarefa de dar contorno ao personagem a partir de uma morte inexistente, porque ao contrário do que se diz, ele está vivo, muito vivo. Se ergue. Caminha. Está entre nós. Raimundo Carrero, sem a sombra severa da morte, essa rasura, esse borrão. E a morte, ficção. Uma ficção ruim.
Micheliny Verunschk, escritora
Raimundo Carrero é um monumento. Não perdemos ele, porque alguém com essa obra não se perde, é uma conquista das artes, é um acervo, é uma fonte a quem podemos sempre recorrer. Para matar saudades leiamos sua obra, sei o quanto isso o fará feliz. Me encanta o fato dele ter sabido, mestre que é, conviver e aprender com outros mestres, Ariano e Freyre, por exemplo. Encontrei-o pela primeira vez (na APL) e, antes que pudesse tecer elogios ao seu Tangolomango, ele me perguntou sobre a construção de diálogo no teatro. Imagine a fome de literatura de alguém sempre disposto ao diálogo, à troca, até diante de um aprendiz e admirador. Viva este mestre. Eu matarei saudades lendo-o sempre.





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