Quero junho

18 jun 2026 | 0 comentários

Foto: Toinho Castro

Por Toinho Castro

Quando eu era criança, vivi numa rua sem calçamento. No mês de junho havia fogueiras em frente às casas das famílias. Vizinhos se encontravam, assavam milho, e as crianças soltavam estalinhos e estrelinhas. Recordo que meu pai, e essa é uma das minhas principais lembranças das noites de São João, comprou uma fogueira para acender em frente ao edifício Inês, onde morávamos; um pequeno edifício, tipo caixote, com seis apartamentos. Por muitos anos o único da rua. Mas a fogueira que meu pai comprou era de paus verdes, que não acendiam de jeito algum. Fez-se de tudo. Jornal velho, pedaços de estopa encharcados de álcool ou querosene, mas o fogo que se acendia não pegava na madeira, que chiava e espumava com o calor que se insinuava para ela. Um completo fracasso.

Desistimos da empreitada e voamos para as fogueiras dos vizinhos, feito mariposas atraídas pela luz. Foi frustrante e divertido. Meu pai tinha mil explicações, minha mãe reclamava e nós, crianças, nos divertíamos com tudo. Ninguém deixou de comer milho assado naquela noite. Ninguém deixou de soltar estrelinhas. Tudo memória.

As festas juninas alimentam e se alimentam de memórias. Suscitam alegria, mas  também nostalgia. Desde tanto tempo atrás. Num pequeno livro de 1952, que reproduz uma palestra sobre o São João, proferida no Rotary Club do Recife, o poeta Mauro Mota já fala com nostalgia do período junino. Na crônica Véspera de São João, de 1953, Antonio Maria escreve: De ano em ano, ao passar pelas datas festivas, lavro o flagrante do meu saudosismo

Eu mesmo escrevi algumas vezes sobre as festas juninas, sempre de um ponto de vista nostálgico. Como Antônio Maria, falando por meio de uma Discagem Direta à Distância, desde o Rio de Janeiro. O mesmo Rio de Janeiro onde Antônio Maria morreu subitamente, numa calçada de Copacabana, com saudades do São João. No meu livro Imbiribeira, tem uma crônica/conto chamada, apropriadamente, Junho; nele evoco a fumaça das fogueiras. 

Recordo uma noite em que rodávamos de carro, eu e uns amigos, pelo Recife. Noite de junho, claro. Éramos já universitários, indo de bar em bar, na Zona Norte da cidade, e percebíamos, sem comentar uns com os outros, uma neblina fina cobrindo tudo. Seguíamos em silêncio mas algo pedia para ser dito, então um de nós, não lembro quem, falou: É São João.

Escrevi outros textos, publicados na internet, investigando a mesma saudade, as mesmas referências literárias, artísticas. Os quadros de Guignard, Volpi, Tarsila do Amaral. A quadrilha da Avenida Um, em Natal, que encantou minha mãe. Tenho dessa quadrilha uma foto linda. O forró, o baião, o xaxado, Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson… Tem esse disco do Gonzagão, Quadrilhas e Marchinhas Juninas, que era a trilha sonora obrigatória de toda quadrilha que se prezava. Tenho o disco até hoje.

Quando vim para o Rio, mal percebia o São João pelas ruas. Mas, de alguma forma, a festa veio crescendo, se popularizando, e hoje se espalha pela cidade. Os festejos se estendem até agosto, para caber nas agendas dos clubes, escolas, igrejas, praças. Canjica aqui tem outro nome; mungunzá se chama canjica, e não é exatamente nosso mungunzá. Mas não quero mais ter saudade. Quero olhar pro céu, meu amor. Quero ver como ele tá lindo. Faz um friozinho nessa época, e há bandeirinhas espalhadas por aí, como se um Volpi criança estivesse solto na cidade.

No dia 13 de junho, logo cedo, fui ao Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, e recebi a bênção dos frades franciscanos. À tarde fui numa festa de Exu Tiriri e à noite subi os 187 degraus que vão dar na igreja de Santo Antônio de Lisboa, aqui em Vila Isabel, que está enfeitada de luzes e de onde se vê todo o bairro, e as luzes das janelas de todos esses lares, onde se vive, se sonha e se olha pro céu. Nesse dia 13, olhando essas janelas, como pequenas fogueiras vacilantes, mas acesas, a iluminar os caminhos, a cidade, fiquei comovido. Mas comovido do presente, do hoje.  

Manuel Bandeira, no seu poema "Profundamente":

Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Deixe que durmam sossegados, Manuel. Durma, Manuel, profundamente. Eu estou acordado, de olho nas quermesses. Quando passo em frente a uma igreja, procuro logo a faixa com a data e o horário da festa. O fogo das fogueiras é vida, é calor que assa milho, é como um deus se manifestando, selvagem, incontrolável, e o controlamos, para nos aquecer. Que coisa boa. Procuro festas, procuro fogueiras, procuro vida. O São João, o ciclo junino, é uma afirmação de vida.

Na pandemia, resignados ao espaço do lar… Veja bem, não quero chamar de casa, mas de lar. Para os romanos, os Lares eram espíritos protetores das casas, das famílias. Pois bem, na pandemia, saudosos de tudo, das ruas, das gentes, do São João nos pátios, eu e minha companheira, Raquel, inventamos o Mini São João. Apagávamos as luzes, acendíamos velas, o fogo, e cozinhávamos e assávamos milho, fazíamos caldo de ervilha, salsichão e celebramos, ao som exclusivo de Luiz Gonzaga, o São João, em qualquer dia que quiséssemos. Nós e nossa casa precisávamos disso. E isso nos alimentou e foi a fogueira que iluminou nosso lar, até passar aquela escuridão. E ainda hoje fazemos Mini São João.

Mas não quero ter saudade, quero ter vontade. Quero junho!


Toinho Castro é poeta e escritor, autor de obras que exploram memórias e ficções urbanas. Editor da Revista Kuruma'tá, sua trajetória é marcada pelas artes e agitação cultural.

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