Irineu, o mestre do couro que veste a alma do Sertão

9 jul 2026 | 0 comentários

Foto Rafael Aroeira

Por Pedro Cunha

Não foi preciso procurar muito. Bastava entrar na "Alameda dos Mestres", o corredor mais simbólico da Fenearte, reservado aos grandes nomes da cultura popular pernambucana, para encontrar uma aglomeração. Logo nas primeiras horas da tarde desta quarta-feira (8), primeiro dia da 26ª edição da Feira Nacional de Negócios do Artesanato, realizada no Centro de Convenções de Pernambuco, o estande de Irineu do Mestre já era um dos mais movimentados. Não parava de chegar gente. Uns queriam comprar uma peça. Outros apenas fazer uma fotografia, apertar sua mão ou agradecer pelo trabalho que há décadas ajuda a preservar uma das expressões mais autênticas da identidade sertaneja.

"Eu acompanho o trabalho dele há anos. Hoje vim só para conhecê-lo pessoalmente", disse uma compradora enquanto aguardava a vez de cumprimentar o artesão. "Esse chapéu virou um símbolo de Pernambuco", comentou outro visitante, segurando uma das peças nas mãos. "É um orgulho ver um mestre do nosso artesanato sendo reconhecido assim", explanou uma senhora, entusiasmada diante da movimentação do estande. Em um evento criado para celebrar o artesanato, era o artesão quem, naquele momento, estava sendo celebrado.

A cena diz muito sobre o tempo presente, mas também revela uma velha contradição. O reconhecimento costuma chegar quando a tradição já venceu inúmeras batalhas contra o esquecimento. Mestres da cultura popular passam décadas trabalhando longe dos holofotes, sustentando ofícios centenários que moldaram a identidade de Pernambuco. Só depois de uma vida dedicada ao ofício, muitas vezes impulsionados por um acaso ou pela visibilidade de um artista famoso, passam a ocupar o lugar que sempre lhes pertenceu.

Irineu do Mestre conhece bem essa história. Aos quase 60 anos, ficou nacionalmente conhecido por criar o "bonéu" usado pelo cantor João Gomes. Mas reduzir sua trajetória ao acessório que ganhou os palcos do Brasil seria uma enorme injustiça. Muito antes de vestir um dos principais nomes da música brasileira, ele já carregava sobre os ombros um patrimônio iniciado em 1909, quando seus avós, Mestre Luiz e Mestre Lino, começaram a transformar couro em arte no Sertão pernambucano.

Pernambuco da cabeça aos pés na sandália de Mestre Irineu. Foto Rafael Aroeira

Foi em Salgueiro onde tudo começou. Primeiro vieram os avós, sapateiros reconhecidos na região. Depois, os pais, Zé do Mestre e Dona Toinha, ampliaram a produção para as indumentárias dos vaqueiros sertanejos. Quando Irineu tinha entre seis e sete anos de idade, já observava atentamente cada corte, cada molde e cada costura dentro da pequena oficina da família. Nunca mais saiu dali.

“Com meus avós começou a produção em couro. Meus pais passaram a fazer as indumentárias dos vaqueiros de Salgueiro. Foi quando eu também comecei. Hoje faço mais de 200 criações em peças", conta o artesão em meio ao burburinho da clientela que não parava de chegar. 

Além do artesanato, Irineu também é agricultor. Desde a infância,  divide o trabalho entre a terra e o couro. Atualmente, seu catálogo reúne produtos confeccionados em couro bovino, caprino e ovino. Chapéus, sandálias, cintos, bolsas, arreios, gibões e acessórios para vaqueiros e animais desafiam o tempo, mantendo vivo um modo de fazer herdado de seus antepassados. Há, naturalmente, inovação no acabamento e nos desenhos. Mas a essência permanece.

O sobrenome artístico de Irineu também carrega essa memória. O "do Mestre" não é um adorno. É uma herança. Antes de Zé do Mestre e de Irineu, existiu Luiz Eugênio Barbosa, conhecido em todo o Sertão como Mestre Luiz. Foi ele quem consolidou o nome da família entre os maiores seleiros de Pernambuco. Aprendeu o ofício ainda menino, aos seis anos, ajudando o pai a riscar o couro, e aos 13 confeccionou o primeiro par de sapatos que usaria na vida. Décadas depois, faria gibões para Luiz Gonzaga, para o Papa João Paulo II, para o rei Juan Carlos, da Espanha, além de governadores e inúmeros sertanejos que encontravam no couro não apenas proteção contra a caatinga, mas um símbolo de pertencimento.

Irineu cresceu ouvindo essas histórias e compreendeu cedo que trabalhar com couro era mais do que fabricar objetos. Era continuar escrevendo uma narrativa familiar. Essa consciência aparece até nos versos que improvisa. Repentista, ele costuma resumir a própria trajetória em poucas linhas: "Nasci-me na Cacimbinha, neste belo torrão. Sou filho de Zé do Mestre e também sou artesão. Tornei-me um artista nato, hoje vivo do artesanato, por ofício e vocação." O repente, conta o artesão, funciona quase como um documento oral. Resume uma genealogia construída pelas mãos, pelo trabalho e por carregar um saber de mais de um século.

Há outro aspecto que diferencia a produção da família. Toda a matéria-prima, revela Irineu, é resultado da cadeia da pecuária, transformando um subproduto em peças de alto valor cultural e econômico. Antes mesmo de a sustentabilidade se tornar discurso recorrente, mestres como ele já praticavam uma lógica de reaproveitamento que hoje ganha novos significados.

O céu para o artesanato

É essa relação entre tradição, identidade e permanência que a Fenearte decidiu homenagear em sua 26ª edição. Com o tema "Seleiros de Pernambuco: Ofício que Transforma", a feira volta os olhos, até dia 19 de julho, para um trabalho que ajudou a construir a cultura sertaneja e que, durante décadas, permaneceu distante do reconhecimento recebido por outras expressões artísticas.

Para Irineu, a homenagem tem um significado que vai muito além do próprio ofício. "É uma alegria saber que o nosso couro está sendo referência para a Fenearte deste ano. Os vaqueiros são os verdadeiros responsáveis por manter viva essa tradição. É uma homenagem justa e simbólica."

A relação de Irineu com a Fenearte também ajuda a explicar por que seu estande se transforma, ano após ano, em ponto de encontro de admiradores e clientes. Neste ano, ele completa 19 participações na feira de artesanato que é considerada a maior da América Latina, reunindo mais de 5 mil expositores de Pernambuco, do Brasil e de outros países. Há quase duas décadas Irineu vê o fenômeno se repetir: pessoas que primeiro ligam para fazer uma encomenda e, meses depois, fazem questão de conhecê-lo pessoalmente.

"Tenho a Fenearte como o céu do artesanato. É aqui que encontro pessoas de todos os estados do país que compram minhas peças. Muitas vezes a gente só se conhece por telefone, e elas fazem questão de vir até o estande. Além de vender o trabalho que trago, volto para Salgueiro com encomendas para três ou quatro meses de serviço”, revela. 

O "bonéu" que virou símbolo

Apesar das muitas vendas na Fenearte, a popularidade nacional de Irineu chegou por outro caminho. Foi dentro da oficina em Salgueiro, cercado por moldes, ferramentas e pedaços de couro, que nasceu aquele que talvez seja hoje o acessório mais conhecido produzido por suas mãos: o "bonéu". O nome, criado pelo próprio artesão, traduz exatamente o que a peça representa. "Esse aqui é o 'bonéu'. Ele é um chapéu com a aba só na frente. Eu digo que é um 'bonéu', filho do chapéu", explica, mostrando a peça com bom humor.

A ideia surgiu quando Dona Kátia, mãe do cantor João Gomes, procurava um presente para o filho inspirado no avô do cantor, Nato Gomes, vaqueiro respeitado no Sertão. Irineu recorda-se perfeitamente do primeiro modelo. "Fiz ele na cor vinho. Depois Dona Kátia me disse que João dormiu com o boné na cabeça no dia em que ganhou."

O "bonéu" que virou um símbolo do mestre. Foto Rafael Aroeira

Desde então, o acessório passou a acompanhar o cantor em praticamente todas as apresentações. Tornou-se parte inseparável da imagem de João Gomes, aparecendo em shows, programas de televisão, festivais e até no tradicional especial de fim de ano da TV Globo, quando dividiu o palco com Roberto Carlos. O sucesso, naturalmente, mudou a rotina do artesão. "Eu até reclamei com João", brinca. "Ele me fez trabalhar o dobro do que eu estava trabalhando." Logo depois, completa, entre risos: "Sou muito grato a João, muito grato mesmo."

Apesar da fama, pouca coisa mudou na oficina da família. O couro continua sendo cortado manualmente. Os moldes seguem desenhados um a um. A matéria-prima permanece a mesma utilizada por seus avós. E Irineu continua dividindo os dias entre o artesanato e a agricultura. Sua maior conquista, no entanto, não está nas vendas nem na fama. "Meus avós não estudaram nenhum dia. Meu pai estudou quinze dias. Eu fiz a quarta série. Hoje tenho a felicidade de ver meus três filhos com curso superior." Talvez seja essa a maior tradução do que significa herança. Não apenas repetir um ofício, mas permitir que ele transforme a vida das próximas gerações.

Em tempos em que algoritmos produzem imagens, máquinas repetem desenhos e a indústria reproduz peças em escala, o trabalho de Irineu lembra que existem saberes impossíveis de automatizar. Cada corte no couro carrega uma memória. Cada costura preserva uma técnica. Cada peça nasce de um repertório construído por mais de um século de experiência.

Como no repente que costuma declamar para contar quem é, Irineu segue fazendo da própria história uma obra em permanente evolução. E talvez esse seja o maior legado de um mestre: "Tradição não é aquilo que permanece parado no tempo, mas aquilo que continua encontrando novas formas de seguir adiante". E ele continua provando isso, peça após peça.

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