Poema inédito de Bell Puã

2 jul 2026 | 0 comentários

Foto Rodrigo Garcia

Solo meu

Semente boa eu te ofereço
Como uma reza o meu apreço
E o pedido que mude de endereço
Tudo aquilo que não me agrega

Não aduba, não rega, só suga
Do meu corpo-terra
Que tem sede de se nutrir
De carinho, se nutrir
um tantinho do silêncio
São tantas notícias 
e podcasts e memes 
e o tempo?

Um luxo que eu não ostento
Mas tento aproveita-lo da melhor forma
Tempo, se tu fosse meu
Guardaria dentro de um cofre
Te tiraria longas horas 
Pra jogar conversa fora 
Com meus pais sentados à mesa

Te tiraria uns bons minutos, Tempo, só pra fisgar
O chão rosa enfeitado de flor-de-jambo 
Te tiraria, Tempo, anos pra acompanhar
O crescimento do meu filho o mais pertinho possível

Mas ninguém tem o Tempo
Ninguém tem nem Tempo pra nada
O que tenho é essa semente boa 
e uma rima alada, confessa 
que quero semear
crescer e plantar à beça
por isso tempo 
é que eu tenho
tanta pressa


Bell Puã é artista da palavra, pernambucana, mestra em História pela UFPE. Foi vencedora do SLAM BR 2017, Prêmio Malê 2019, finalista do Prêmio Jabuti 2020 (Poesia), com seis livros publicados.

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