Um álbum para guardar a memória do coco

18 jun 2026 | 0 comentários

Foto: Sérgio Melo

Por Pedro Cunha

Em um beco do bairro do Amaro Branco, em Olinda, o som nunca precisou de palco. Bastavam o chão de terra, a roda formada entre vizinhos, o grave do bombo e as vozes que se estendiam pela noite para transformar encontros cotidianos em celebrações da cultura popular. Durante décadas, o coco ecoou ali como quem resiste ao tempo. Agora, essa memória coletiva ganha um novo corpo: o registro fonográfico de uma das mais importantes tradições culturais da cidade.

Após 36 anos de trajetória, o grupo Coco do Pneu lança seu primeiro álbum oficial. A obra surge como documento de preservação cultural, reunindo histórias, vozes e sonoridades que nasceram nas sambadas do Amaro Branco e atravessaram gerações. O trabalho chega às plataformas digitais pelo selo Terno da Mata Records e apresenta 14 faixas que buscam reproduzir a atmosfera das rodas de coco que transformaram o grupo em referência dentro e fora de Pernambuco.

Liderado pelo Mestre Lu do Pneu, nome artístico de Fernando Antônio da Anunciação, o coletivo tem raízes na vivência dos pescadores artesanais da região. Sua história está ligada a um objeto que acabou se tornando símbolo de identidade comunitária. Décadas atrás, José Ivo da Anunciação, pai do mestre, encontrou um enorme pneu trazido pelo mar na praia de Pau Amarelo, no município vizinho de Paulista. Impressionado pelo tamanho da peça, decidiu levá-la para o Amaro Branco. O pneu passou a servir como ponto de encontro para moradores, amigos e familiares que se reuniam para conversar, tocar e dançar coco.

Com o passar dos anos, aquele objeto se transformou em referência geográfica, afetiva e cultural. As rodas realizadas ao seu redor deram origem à Sambada do Pneu, considerada uma das mais tradicionais em atividade no estado e realizada até hoje no último sábado de cada mês.

“Esse disco representa a história de muita gente. Não é apenas sobre mim ou sobre quem está cantando. É sobre a comunidade, sobre nossos pais, nossos mestres, nossos ancestrais e todas as pessoas que mantiveram essa tradição viva durante tantos anos. A gente sempre acreditou que o coco era um patrimônio do povo e agora ele fica registrado para as futuras gerações”, declara Mestre Lu do Pneu.

A força da coletividade é uma das marcas do álbum. A formação atual reúne músicos e cantadores que mantêm viva a estrutura tradicional do coco de roda. Nos vocais, o diálogo entre mestre e coro reproduz a dinâmica das sambadas, enquanto a percussão conduz o trabalho com a presença marcante do bombo, dos pandeiros e do ganzá.

Produzido musicalmente por Nilton Júnior, o disco foi gravado no Estúdio Fábrica e tem mixagem de Pedro França e masterização assinada por Pablo Lopes. A proposta foi preservar a espontaneidade das rodas populares, valorizando os elementos que caracterizam o coco tradicional e evitando excessos de produção que pudessem afastar a obra de sua origem.

Entre os momentos mais emocionantes do álbum, conta Lu do Pneu, está a participação póstuma da Mestra Beata. Sua voz, registrada antes de sua partida, aparece nas faixas “Agora foi que eu cheguei” e “Ô mulher”. O disco também reúne participações de Mestre Arnaldo do Coco e de integrantes da própria comunidade.

A obra reafirma ainda o papel do Coco do Pneu como espaço de formação cultural. Ao longo de sua história, as sambadas se consolidaram não apenas como apresentações musicais, mas como ambientes de convivência comunitária, circulação de saberes e fortalecimento da identidade afro-brasileira. Crianças, jovens, idosos, artistas, pesquisadores e visitantes encontram ali um território onde a cultura popular continua sendo transmitida de forma viva.

"Esse compromisso com a preservação também se materializa em ações educativas desenvolvidas pelo grupo em escolas da comunidade, por meio de rodas de diálogo e apresentações voltadas para estudantes. Uma iniciativa que reforça a compreensão do coco como ferramenta de pertencimento, resistência e transformação social”, acrescenta Mestre Lu.

Nos últimos anos, o Coco do Pneu ampliou suas fronteiras. O grupo participou de importantes festivais brasileiros e levou o ritmo do coco de roda para palcos internacionais, realizando apresentações em países da Europa. Mesmo diante dessa projeção, continua mantendo o vínculo com o lugar onde tudo começou: o Amaro Branco.

Mais do que um álbum de estreia, “Coco do Pneu”, defende Mestre Lu, funciona como uma fotografia sonora de uma tradição que continua em movimento. “É o retrato de uma comunidade que transformou encontros simples em patrimônio cultural”, diz o músico. Mas que agora registra, em forma de música, uma história construída coletivamente entre o mar, a roda e as pisadas.


Pedro Cunha é jornalista

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