Por Thiago Tião
Durante décadas, personagens nordestinos chegavam à tela falando um sotaque de lugar nenhum. Era tudo aparado, domesticado, dissolvido numa dicção de telejornal que se vendia como neutra, mas que, na prática, sempre teve endereço no Sudeste. Quem é de Pernambuco aprendeu cedo a reconhecer o truque. O nordestino na novela ou no desenho vinha quase sempre com a fala corrigida, para soar “civilizado”, ou escrachada, para arrancar a risada fácil. Falar como a gente fala, sem desculpa e sem caricatura, era o que raramente cabia.
Não é uma queixa de agora. Ariano Suassuna gastou fôlego a vida inteira contra essa caricatura arrastada que a televisão chamava de Nordeste, e cravou a recusa numa frase que o nordestino decorou: “Não troco meu oxente pelo OK de ninguém”. O recado continua de pé. O que mudou é que, de uns tempos para cá, ele começou a encontrar resposta na própria tela.
“Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste” é uma delas. Dirigida por Ale McHaddo e em cartaz nos cinemas, a animação mergulha no cordel para contar uma aventura ambientada no sertão. Pelo caminho, desfilam a cultura popular, a religiosidade, o humor e, acima de tudo, o jeito de falar que pertence ao território. O sotaque não está ali como tempero. É o chão da história.

Entre os dubladores do filme está o ator recifense Bruno Garcia. Em conversa com a Revista Araçá, ele faz questão de desfazer um mal-entendido comum: não se trata de emprestar a voz a um personagem que já chegou pronto. “Na verdade, o personagem não veio pronto para mim. Ele veio pronto na escrita”. A diferença é de método. Por ser uma história original, as vozes foram gravadas antes de os animadores finalizarem os movimentos dos personagens. Isso permitiu ao intérprete participar da criação, em vez de apenas vestir uma forma já fechada. “Foi a primeira vez que trabalhei numa produção assim. A gente tem mais liberdade para criar, para sugerir coisas. Quando você dubla uma animação estrangeira, existe uma estrutura pronta, um limite muito maior”, situa Bruno.
O encantamento, porém, veio mesmo do conteúdo. Bruno reconheceu no filme um repertório que qualquer pessoa criada no Nordeste identifica de imediato: as expressões características, os causos do sertão, a estátua de Padre Cícero erguida como figura da trama. “É uma delícia. Dá orgulho”, resume. E o orgulho de que ele fala não tem nada de carteirada regional. É o gosto de se ver na tela sem precisar de legenda.

Foto: Priscila Prade/Divulgação
Esse cuidado tem raiz, e a raiz é o cordel. Nascido da oralidade, ele vive da rima e do improviso, do verso recitado em voz alta e vendido nos folhetos pendurados no cordão que batiza o gênero. É a mesma veia popular que alimentou o Movimento Armorial no Recife e que deu ao Brasil um João Grilo. Levar essa tradição para a tela do cinema, e para um público de crianças, não é gesto pequeno. “O cordel inspirou a literatura, a música e a forma de se comunicar. Comunicar-se em verso é uma arte”, diz Bruno, que tem como colegas de dublagem Tadeu Mello e o cantor Falcão.
Contar a história do sertão sem a musicalidade da fala sertaneja seria trair o próprio material que inspirou o filme. Ele enxerga na animação um terreno em que o Brasil tem talento de sobra e estrutura de menos. “Tem muito brasileiro trabalhando com animação no Canadá, nos Estados Unidos, no Japão. A gente tem talento. Falta fortalecer mais a indústria”, opina.
O que o seduz no gênero é a liberdade que nenhum outro formato oferece. “No live-action existe um limite. Na animação, você pode imaginar qualquer coisa e fazer aquilo existir”. Em “Cordélicos”, essa liberdade vai para um lugar inesperado: o som do mundo que as crianças já habitam. Uma menina de Petrolina, Arcoverde, Caruaru ou Recife pode entrar na sala escura e ouvir um herói falar do jeito que se ouve em casa, rir das expressões que conhece e perceber que a própria voz também cabe dentro da aventura. Suassuna talvez gostasse da cena. Parece pouco, mas o cinema brasileiro levou tempo demais para chegar a uma coisa tão simples.





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