Por Luiz Arraes
Falar de Carrero há alguns anos seria uma tarefa fácil. Ouço ainda a sua risada solta.
Para falar de Carrero agora é preciso uma força que me falta.
Tentarei.
A primeira coisa que vem em mente é a sua generosidade. Lia meus manuscritos, corrigia-os, comentava-os. Me indicava livros, comentava livros que eu já tinha lido e nesses comentários surgiam outros livros daquele. Foi uma universidade que cursei. Não precisei fazer vestibular. As portas estavam abertas. Sei que não fui o único a ter esse privilégio. Era um homem bom e como cristão sabia que essa era a maior das virtudes, como dizia Dostoievski. Como dizia o Cristo, nosso Senhor.
Carrero tinha na literatura uma obsessão. Foi salvo por ela. Doente, sequelado por inúmeras isquemias que lhe afetaram o corpo, permaneceu inteiro porque a sua brilhante, genial mente permaneceu intacta. E um de seus dedos preservou seus movimentos. Não desanimou. Continuou a escrever seus livros, seus artigos, seus ensaios. Com o brilho de sempre. Até o fim.
Da mesma forma quando demônios invadiram em algumas ocasiões a sua mente afugentou-os e exterminou-os com a força de sua literatura. Essa restará como um dos grandes monumentos de nossa cultura.
Falar de Carrero agora, ainda atordoado pela dor aguda, é falar de uma saudade, de uma ausência que não terá esquecimento. Nem quero. Quero ter meu amigo sempre ao meu lado, lembrando-me da pessoa rara que foi, de sua inteligência, de sua vastíssima cultura, de seu bom humor. Insisto, da sua bondade.
O tempo, que costuma andar de mãos dadas com a desmemória, não afetará o legado de Raimundo Carrero.
À medida que sua obra for sendo descoberta ou redescoberta, ela, assim como afugentou em vida as vicissitudes dos males do corpo e da mente, não deixará a mão do esquecimento tocar nela. Pelo contrário, ela será apreciada em sua devida profundidade e grandeza.
Adeus, meu irmão.





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