Programação intensa nos palcos do Recife          

23 jul 2026 | 0 comentários

Foto Horst Lambert/Divulgação

Por Cleodon Coelho

A programação teatral da cidade está agitada. Além de Marco Nanini e Guilherme Weber, que protagonizam Fim de Partida no Teatro Luiz Mendonça (leia a entrevista com Nanini à Revista Araçá aqui), da quinta (23) ao domingo (26), muitas outras opções aguardam o público. Entre elas, Não se Conta o Tempo na Paixão, que será apresentada na sexta (24) e sábado (25), às 19h30, no Teatro Apolo. A montagem celebra a vida de uma das mais importantes atrizes do teatro pernambucano, Auricéia Fraga, ao mesmo tempo em que homenageia a memória de uma geração de artistas que ajudou a construir a nossa cena cultural.

A grande Auricéia Fraga celebra 80 anos de vida no palco. Foto Horst Lambert/Divulgação

Aos 80 anos de idade e completando cinco décadas ininterruptas de carreira, Auricéia – sob a direção de Rodrigo Dourado – revisita sua infância, adolescência e juventude, narrando a trajetória de uma menina criada em uma família numerosa no interior de Pernambuco, em meio ao universo dos engenhos de cana-de-açúcar e às rígidas estruturas patriarcais que marcaram a sociedade brasileira entre as décadas de 1940 e 1960.

A narrativa acompanha a transformação dessa jovem que, nos anos 1970, encontra no teatro e na efervescência cultural da época um caminho para a liberdade. Sua entrada em grupos fundamentais da cena pernambucana, como o Vivencial, em Olinda, aproxima sua história dos movimentos de contracultura que marcaram o período e consolidaram uma geração de artistas comprometidos com novas formas de criação e de pensamento.

Sucesso em São Paulo, “Romeu e Romeu” ocupa o palco do Parque. Foto Divulgação

Outro destaque da semana é Romeu e Romeu, que chega ao Recife após uma temporada de sucesso em São Paulo. A montagem, que ocupa o Teatro do Parque na quinta (23), busca inspiração no clássico de William Shakespeare para apresentar em cena os desafios de um amor homoafetivo. A história, inspirada – claro – em Romeu e Julieta, mantém o amor como temática principal. No palco, o espetáculo destaca, com leveza e bastante humor, as dificuldades do cotidiano de um casal, os ciúmes, os dilemas domésticos e, certamente, o preconceito.

Eduardo Martini estrela “Clô, Pra Sempre!” no Teatro RioMar. Foto Cláudia Martini/Divulgação

Já no domingo (26), no Teatro RioMar, o ator Eduardo Martini protagoniza Clô, Pra Sempre, peça que revisita a vida e a obra de Clodovil Hernandes, um dos nomes mais marcantes e controversos da televisão e da moda brasileira. O figurinista, que foi eleito deputado federal em 2006, é retratado em toda a sua complexidade: irreverente, sensível, inteligente e contraditório. No palco, o personagem compartilha pensamentos, memórias e episódios marcantes de sua trajetória, revelando as origens de sua criatividade e revisitando mais de quatro décadas de vida pública.

Moda, televisão, amizades, família, o único grande amor de sua vida e a experiência na política se entrelaçam a relatos sobre uma infância e adolescência difíceis, marcadas pela solidão. Sem filtros, Clodovil expõe dores, inseguranças e lembranças que ajudam a compreender a personalidade forte e a postura muitas vezes incompreendida que marcaram sua história. Sucesso de público e crítica, “Clô, Pra Sempre!” já foi assistido por mais de 40 mil pessoas em todo o Brasil. O texto é assinado por Raphael Gama, com direção de Viviane Alfano.

Gregório Duvivier retorna à cidade com “O Céu da Língua”. Foto Adriano Escanhuela/Divulgação

Na quarta (29) e na quinta (30), após percorrer 50 cidades em 10 países, e consolidar-se como um dos maiores fenômenos do teatro brasileiro recente, o espetáculo O Céu da Língua, estrelado por Gregorio Duvivier, volta a Pernambuco para duas apresentações no Teatro Guararapes. Por este trabalho, o ator conquistou o Prêmio Bibi Ferreira 2025 de Melhor Ator, enquanto a peça foi a grande vencedora do Prêmio do Humor RJ 2026 nas categorias Melhor Texto e Melhor Espetáculo. A montagem acumula ainda indicações ao Prêmio Shell e APTR.

Escrito por Gregorio em parceria com Luciana Paes (que também assina a direção), “O Céu da Língua” é um monólogo que transita entre a comédia e a poesia. No palco, ele utiliza seu reconhecido talento para o improviso e o discurso sedutor para convencer o público de que a poesia não é algo hermético. A peça explora as obsessões do artista pela palavra e pela língua portuguesa, brincando com códigos familiares, reformas ortográficas e a ressurreição de gírias. Com cenografia de Dina Salem Levy, o instrumentista Pedro Aune cria a ambientação musical ao vivo com seu contrabaixo, enquanto Theodora Duvivier, irmã de Gregorio, manipula as projeções que dão vida à cena.

Liane Venturella estreia dia 29 na Caixa Cultural Recife. Foto Lara Testa/Divulgação

Também no dia 29, o Teatro da Caixa Cultural Recife será palco da estreia de Meretrizes, que terá oito apresentações até 7 de agosto, sempre de quarta a sábado, às 19h30.. A montagem do Coletivo Gompa, do Rio Grande do Sul, combina teatro, música ao vivo e depoimentos reais sobre temas como vulnerabilidade social, discriminação, violência, sexualidade e relações de gênero, tudo construído a partir dos relatos de diferentes profissionais do sexo.

A peça reúne elementos documentais e narrativas inspiradas em experiências de mulheres marcadas por estigmas sociais, riscos, preconceito e exclusão. Em cena, a atriz Liane Venturella contracena com personagens da vida real que habitam o universo das ruas das grandes cidades. Desse encontro, ganham voz as denúncias de opressões e preconceitos cotidianos. “Meretrizes” conta com trilha sonora original executada ao vivo e direção de Camila Bauer. Liane também assina, com Bauer, a dramaturgia da obra.

Como se pode ver, a programação teatral dos próximos dias está caprichadíssima. Que se abram as cortinas!


Cleodon Coelho é jornalista, pesquisador e biógrafo.

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