I
Estamos há vinte anos sem o João Alexandre Barbosa. Morreu na madrugada de quinta-feira, dia 4 de agosto de 2006. Um ano antes, creio, pensei em viajar, entrevistá-lo e veicular a conversa na TV Universitária – onde eu dirigia e apresentava o programa Opinião Pernambuco. Telefonei e falei sobre isso com Manuel da Costa Pinto (que era editor da Cult, nos tempos em que fui colaborador da revista). Ele avisou que João estava muito doente, internado há meses.
Por coincidência (ou não), no dia 4 de agosto último, lá em Campinas, eu tinha nas mãos A leitura do intervalo (Iluminuras, 1990), recém-comprado na Pontes (cujo terceiro piso abriga um acervo de livros usados). No segundo ensaio ali coligido, “O dentro e o fora: a dimensão intervalar da literatura”, já podemos perder o sono por semanas. Nesse texto, de 1988, o professor, ensaísta e crítico pernambucano demonstrava sua preocupação: “Espera-se do leitor crítico, por assim dizer, que resolva as contradições, plaine as diferenças, encontre uma perspectiva que acomode as divergências, ponha enfim, as coisas em seus devidos lugares”. E, na página seguinte, ele resumiu sua inquietação com esse lugar de “pacificador” atribuído ao crítico: “O sobressalto que, por acaso, a obra possa provocar é amainado pelo salto teórico que explica e reduz as contradições”.
Lá estava eu, em plena viagem de férias, remoendo aquelas palavras. Elas sintetizavam (ou davam forma?) a minha angústia, esse nó que tanto me incomoda (foi um dos motivos de eu ter me afastado do ofício por anos). Em determinado momento, pelas bandas de 2012, eu tinha me dado conta (sem compreender ainda o alcance): boa parte dos meus textos servia ao propósito pacificador.
Minha paz, se havia alguma, foi-se para sempre.
II
Essas e outras coisas giram na cabeça, enquanto busco algo para escrever sobre Coração Pequeno, romance de Gabriel Stroka Ceballos (Cachalote, 2025). Essa agonia (de gostar, mas não saber o que dizer sem “amainar o sobressalto”) acumulou-se por tanto tempo, e de tal modo, que até já conversei sobre isso com o próprio autor (algo que faço muito raramente).
Abro o caderno de anotações. Tenho copiada uma parte da brevíssima sinopse:
Um garoto sabe que, na verdade, ele é Deus. Deusinho. É isso, pelo menos, que seus pais sempre lhe dizem. E o preparam para o dia do grande discurso, quando suas palavras mudarão as vidas daqueles que se deixarem tocar pela mensagem.
Quase tudo o mais que escreveram sobre o romance do Ceballos me incomoda, inclusive os meus próprios rascunhos de resenha. Por quê? Vocês sabem a razão: por mais que evitemos, terminamos por explicar demais, reduzir demais, tentar domesticar o grifo que resiste, que se reparte entre as 145 páginas do livro (cujo projeto gráfico é lindo e muito sensível a essas armadilhas em redor do texto).
Há, por exemplo, naquela mesma sinopse, um trecho em que “Gabriel Stroka Ceballos estreia no romance com uma experimentação ousada, desenvolvendo a trama muito mais pela estética da narrativa do que pelos fatos contados”. E dessa parte eu confesso ter uma cisma gigantesca. Ela me lembra o Raduan Nassar, resistindo e insistindo com os seus entrevistadores, do segundo volume dos Cadernos de Literatura Brasileira (Instituto Moreira Salles, 1996), pois estavam valorizando de forma excessiva a casca, em detrimento do caroço. Para o autor de Lavoura Arcaica, escritores e críticos complicam o lance; sem sentimentos, sem um texto que toque o coração do leitor, “alguma coisa está indo pras cucuias”.
III
Volto à orelha. Gabriel Stroka Ceballos dá voz a um “narrador ingênuo e vulnerável, mas a leitura nos prende por aquilo que entrevemos como possibilidades de lucidez e de fortaleza”. O que aconteceria, porém, se fizéssemos o contrário, se mantivéssemos o grifo alimentado justamente pela nossa decisão de negar (ainda que inutilmente) essa vereda?
Acompanhar o narrador e esticar ao máximo a corda, rejeitar a possibilidade de que revelações e razão sejam a chave dos sobressaltos. Talvez a força desse romance resida na linha tênue e provavelmente inabitável, na réstia entre a voz do Deusinho e nossa leitura pacificadora.
Se vocês aceitarem a minha proposta, não guardem dúvidas: terá sido apenas outra maneira, às avessas, de pacificar o texto. E torçamos, então, pela insuficiência desta e de todas as demais leituras críticas, pois somente assim a literatura há de sobreviver: descendo o rio sobre as tábuas partidas e inchadas dos nossos incontáveis fracassos.

Coração pequeno
Gabriel Stroka Ceballos
Cachalote
144 pp.
R$ 64,90


















































































































































































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