Na série Primeiras páginas, Xico Bizerra fala sobre o prazer de escrever para crianças e de ver os netos lendo seus livros, relembra as histórias que povoaram sua infância e reflete sobre as dificuldades e desafios da literatura infantil para autores e editores.
Por Xico Bizerra
É bom escrever. Para criança, melhor ainda. Dá-me a sensação de estar contribuindo, de alguma forma, para a formação intelectual e moral de um pequeno ser que tem algum escrito meu nas mãos. Na verdade, isto mais aumenta a responsabilidade de quem escreve para esse nicho do mercado. Disso, tenho consciência.
Mas para mim, que brinco com letras e palavras, gratifica sobremaneira saber que a relevância de um livro infantil transcende os limites da simples contemplação de um bonito trabalho gráfico de capa ou de belas ilustrações internas. Ela não se exaure aí. Vai muito além e se expande em importância quando o adulto faz a leitura para seus filhos, netos ou alunos, fazendo das histórias contadas algo permanente pelo resto da vida, na cabecinha de quem as escutou. Quem de nós não se lembra das histórias de Cinderela, Chapeuzinho Vermelho ou Joãozinho e o Pé de Feijão ouvidas quando éramos pequeninos? Como esquecer Monteiro Lobato, Ruth Rocha, José Mauro de Vasconcelos e Maria Clara Machado, precursores de todos aqueles que hoje desenvolvem a nobre missão de usar letras e palavras para encantar inocentes juízos?
Uma pena que o acesso a esse tipo de leitura enfrente tantos entraves, impedindo que bons livros dedicados ao público infantil cheguem às mãos de potenciais leitores. O próprio sistema que habita nosso mundo moderno de hoje, com seus computadores, internets e estímulos a outros tipos de atividades que não a leitura, contribui para que a atividade seja enfraquecida, no dia a dia.
O que falta para a expansão da literatura Infantil? O que desincentiva autores e editoras a investir neste mercado? Várias respostas podem ser oferecidas, de problemas de distribuição a pouco acesso aos editais de aquisição pública, do elevado custo de publicação ao desestímulo de bons autores em decorrência dos problemas a que aludimos. Além da falta de uma política pública com objetivos mais amplos, que tenha por tema e fim a formação de leitores, a disseminação da leitura entre as crianças.

Seria injustiça, por outro lado, não reconhecer o esforço federal em contribuir com a difusão e a viabilidade econômica dos produtores de livros infantis, a exemplo do Programa Nacional do Livro e do Material Didático - PNLD. Talvez precise apenas de alguns ajustes, aperfeiçoamentos, de uma desburocratização, talvez, que permita às pequenas editoras participarem efetivamente do programa. É pouco.
Há iniciativas isoladas, louváveis, mas pouco representativas do ponto de vista conjuntural e efetividade prática. Conheço uma amiga aqui do Recife, psicóloga infantil, Dra. Eliane Maria Fernandes Campos, que mantém em seu consultório uma espécie de biblioteca, onde disponibiliza, por empréstimo, livros infantis para seus pacientes mirins.
Louve-se, também, a iniciativa de algumas pequenas editoras regionais, a exemplo da Pó de Estrelas e a Vacatussa, que, nadando contra a corrente, continuam na boa batalha de cuidar de publicações para os pequenos, inobstante todas as dificuldades.
De minha parte, que além de escrever para gente grande em blogs e jornais diversos e em mídias sociais, também me insiro no rol de escritores para os miúdos, já tendo registrado a publicação de alguns títulos da espécie, 12 no total, continuarei a missão de ‘formiguinha’, pelo simples prazer de ver meus netos, ao terem acesso a um livro meu, se contagiarem de alegria, floreando sorrisos no meu olhar de avô. Tomara que outras crianças também desfrutem desse sentimento. Para mim, isso basta.


















































































































































































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