Por Paulo André Leitão
A noite desta quarta-feira, 12, já é inesquecível para o casal de cineastas Daniele Leite e Lucas da Silva, co-diretores do curta-metragem O Carnaval é de Pelé. Único filme do Nordeste selecionado para a IX Mostra de Filmes Universitários do Festival de Cinema de Gramado, o documentário ganhou três prêmios: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Ator. O documentário nasceu como um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e se viabilizou com recursos de um edital de microprojetos. Pelé é o apelido de Adalberto Gercino da Silva, o Mateus do histórico Boi Tira-Teima, de Caruaru, que tem mais de 100 anos. Ele herdou o Boi do pai e brincou desde criança. Na entrevista a seguir, Dani fala sobre os desafios da produção independente, a emoção que o filme desperta nas plateias e os próximos passos da produtora Casa das Caiporas.
Revista Araçá: Foi dormir e se acordou muito emocionada com as premiações? Como estão se sentindo neste day after?
Dani Leite: Estamos muito felizes de chegar de tão longe ao Palácio dos Festivais, trazendo uma história do nosso território e fazer com que as pessoas se conectem com ela. Sair premiados no maior festival do país e levando o prêmio de Melhor Filme representa que estamos no caminho certo, fazendo um cinema pernambucano autêntico e sensível.
O filme de vocês foi o único selecionado de Pernambuco para essa mostra?
Na verdade, fomos os únicos selecionados de todo o Nordeste. Fiquei muito surpresa e feliz com esse resultado, pois os outros sete filmes que estão concorrendo na mostra são do Sudeste e do Sul.
O prêmio de Melhor Ator certamente foi uma surpresa porque Pelé não é ator no filme.
Ficamos surpresos porque nunca se premia o personagem.
Esse trabalho já participou de vários outros festivais. Vocês consideram que Gramado é a vitrine mais importante até agora?
Sim, sem dúvida. É a exibição mais importante nesse nosso início de trajetória para marcar a entrada no mundo do audiovisual. Já havíamos feito outros exercícios de linguagem antes, mas este é o nosso primeiro filme de fato. Ele iniciou sua circulação em março do ano passado e já passou por cerca de 50 mostras e festivais. Essa importância se dá muito também por conta da história do projeto, do nosso envolvimento com a comunidade do Boi Tira-Teima — um grupo com mais de cem anos no nosso bairro, em Caruaru — e por estarmos levando essa narrativa tão nossa para fora.
Como se deu a aproximação com o grupo e, em especial, com Pelé, o protagonista do documentário?
A ideia surgiu do nosso próprio convívio com Pelé no bairro do Caju, onde moramos. Queríamos trazer as narrativas que estão ao nosso redor. Pelé era uma pessoa que nem todos na cidade conheciam, pois ele havia deixado de brincar no folguedo há mais de 15 anos. Vivia de forma muito reclusa, arrumando e construindo seus brinquedos dentro de casa. O filme nos permitiu levá-lo para fora e apresentar a história dele para várias pessoas. Ver o reconhecimento que a obra tem gerado é muito emocionante, especialmente por lidar com a dor de perder alguém com quem criamos tantos laços durante a produção. Infelizmente, ele faleceu em setembro do ano passado, aos 70 anos.
O documentário nasceu no ambiente acadêmico. E a parceria entre vocês, como surgiu?
Eu sou formada em Comunicação Social, e Lucas, o codiretor, é do curso de Design. Ambos estudamos na UFPE, no campus de Caruaru. Nossos cursos são muito próximos, no mesmo bloco, e a partir dessa convivência fundamos a nossa produtora, a Casa das Caiporas. Para viabilizar esse filme, conseguimos acessar o Funcultura através de um edital de microprojetos voltado para jovens de até 29 anos. Aprovamos o projeto com um orçamento de R$ 15 mil, o que é um valor baixíssimo para o audiovisual. A equipe contava com apenas seis pessoas e precisamos de muita parceria e camaradagem de amigos para conseguir equipamentos de câmera e som emprestados.
Qual tem sido a resposta do público nos locais onde o filme foi exibido?
A recepção tem sido linda. Nossa exibição mais recente foi no Festival de Campina Grande, na Paraíba, e foi uma experiência incrível. O filme emociona bastante porque Pelé era um ser humano encantador. É um filme que faz rir e chorar, toca muito as pessoas, arranca lágrimas. Foi emocionante em Campina Grande.
Tem uma cena no filme em que Pelé chora por não poder mais brincar como antes. Você chorou também?
Estava chovendo tanto na hora da gravação, eu agoniada com ele e os equipamentos na chuva, que nem percebi que ele estava chorando. Só depois, com calma, vendo o material gravado, me emocionei e fiquei pensando: “Meu Deus, onde nós chegamos! Registrar um recorte da vida de alguém, trazer para o cinema e apresentar uma pessoa a várias outras pessoas”.
Depois dessa longa circulação, quais são os próximos projetos da Casa das Caiporas?
Já estamos com mais três projetos em andamento. Dois deles são de animação, que era uma linguagem que já queríamos muito explorar, até por conta da formação do Lucas como animador. Como a animação exige processos mais longos, tanto técnicos quanto burocráticos, a previsão é que nosso próximo lançamento aconteça apenas em 2028. Mas seguimos trabalhando bastante para colocar essas novas histórias no mundo.



















































































































































































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