A gargalhada de Carrero

16 jun 2026 | 0 comentários

Foto: Ney Anderson

Os escritores e jornalistas Mariza Pontes e Xico Sá falam sobre sua relação com Raimundo Carrero


O que mais lembro de Carrero é a gargalhada. Era tonitroante, palavra que descreve bem o som que enchia a redação do velho Diario de Pernambuco, onde eu comecei a trabalhar aos 22 anos. Ao anoitecer, a voz poderosa se sobrepunha ao barulho das máquinas de escrever, na correria do fechamento da edição do dia. Era uma presença forte, ruidosa e engraçada; um chefe amigo, generoso e compreensivo das falhas humanas, mas exigente na qualidade do trabalho. Nos anos 1970 e 1980, acompanhei muitas das suas histórias, compartilhando farras nos bares do Recife Antigo, quando saíamos da redação; ele contava de suas paixões, histórias cheias de reviravoltas, algumas das quais suspeito que serviram de inspiração literária. Tive a honra de ser uma das primeiras leitoras do seu livro de estreia, A História de Bernarda Soledade, a Tigre do Sertão, lançado em 1975, que recebi com dedicatória. Ele pediu minha opinião e eu fiquei intimidada: o que poderia dizer uma simples repórter pra alguém que já era um jornalista conhecido no Recife e despontava tão fortemente para a literatura? Não disse nada, mas guardo até hoje o livro como um dos meus tesouros. Depois passamos muitos anos sem conviver de perto, apenas encontros esporádicos, cada qual levando a vida, até 2008, quando ele me convidou para integrar a equipe que formou para reformular o suplemento Pernambuco, da Cepe Editora. As conversas agora incluíam filhos, trabalho e casamento, ele já não se entregava às farras, e logo a idade começou a cobrar seu preço. Mas a paixão pela literatura continuava cada vez mais forte. E a gargalhada também. E é essa a imagem que vou guardar de Raimundo Carrero: um homem generoso, inteligente, apaixonado pela vida e pelas pessoas, com uma gargalhada que enchia o ambiente e fazia a gente rir junto.

Mariza Pontes, escritora e jornalista


Obrigado, Raimundo Carrero, por aquele estágio (remunerado!) no Jornal Universitário da Reitoria da UFPE. Rapaz, me tiraste do pior momento do miserê. Obrigado, mestre, pelas lições embriagadas no centro do Recife, depois de tantas edições do Diario de Pernambuco. Obrigado pela comoção estética diante da Maçã agreste e a alegria adoidada de Sinfonia para vagabundos. Obrigado ainda por dividir, como se fosse a epopeia do século, a vida & glória de Carlinhos Bala no título de campeão do Sport na Copa do Brasil de 2008. Obrigado por tudo, mestre.

Xico Sá, escritor e jornalista

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