Conto inédito de Danillo Melo

9 jul 2026 | 0 comentários

Foto Divulgação

O curso lento do rio

À meia-luz do restaurante, Dora olha o rio. Ricardo pousa as mãos sobre as dela e a encara como quem cerca e aguarda. Ela reluta em olhá-lo, mas o faz. Seis meses atrás, com a cabeça encostada em seu peito, acariciava seu braço forte. Agora, as mãos dela se encolhem ao toque calculado.

Ela tira do bolso, com os dedos em pinça, um colar dourado, com um pingente em forma de coração, e coloca-o sobre a mesa. Depois volta o olhar para o rio, do lado esquerdo, que se move, lento e enganoso, sob a luz da lua. 

Ricardo faz sinal para o garçom, ao longe.

— Você sabe que eu gosto de você, não é, meu bem? — ele diz, com os dedos entrelaçados.

— Eu sei, Ricardo — ela responde, a voz seca, pesada. 

O garçom se aproxima e monta a entrada: pastéis de carne desfiada com coentro e molho rosé. Ricardo sorri para o garçom, que some entre as mesas. O sorriso de Ricardo some com ele. Morde um dos pasteis, o ar quente escapa, rodopia e desaparece. 

— O que você anda fazendo, meu bem? — ele pergunta. 

— Ando escrevendo. 

— Escrevendo… sério? 

Ele sopra o pastel. Os dedos se engorduram através do guardanapo. Dora não responde. Tenta desviar o olhar dos dedos gordurosos. 

— Quando surgiu essa? —  ele continua — Não sabia que você tinha tempo para isso.

Toma um gole de vinho na taça à sua frente, sem desviar os olhos dela. 

— Comecei há uns cinco meses — ela responde. 

Ricardo move os olhos, calculando o tempo.

Antes de viajar, ele tinha "esclarecido tudo". Ela era madura, bonita e independente, podia fazer o que quisesse da vida. No entanto, antes de partir, ele tinha deixado rastros: um perfume a dois dedos do fim, um par de sapatos debaixo da cama, beijos exageradamente molhados, sexo ávido de despedida. 

E o colar com um pingente de coração. 

Dora observa o objeto sobre a toalha.

— Coma, meu bem, não quero você pálida desse jeito — ele diz, pegando outro pastel e empurrando o pires na direção dela.

Ela observa o movimento do prato, e se demora em silêncio.

— Por onde você andou, Ricardo, por que não entrou em contato comigo? 

— Por aí, meu bem, por aí… são tantos lugares. 

Dora suspira, observa o garçom servindo a mesa vizinha. O casal sorri, se acaricia suavemente.

—  Entendo. — Dora diz.

— Eu rodo o Brasil inteiro, mas acredite, não tenho nada para falar que você acharia interessante.

— Eu concordo, Ricardo — ela afirma, empurrando o coração minúsculo para o centro da mesa, ainda mais longe de si.

O garçom se aproxima com o prato principal, mas ela não nota. Encara o rio seguindo seu curso, noite adentro, impávido e lento. Não vê quando Ricardo se levanta. Percebe apenas a cadeira vazia e o som dos passos que se perdem em meio aos ruídos do salão.


Danillo Melo é ficcionista, poeta, compositor e professor.

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