Por Túlio Velho Barreto
O título acima é inspirado no livro do jornalista e escritor Zuenir Ventura, 1968, o ano que não terminou, um clássico do jornalismo histórico. Sobretudo porque a expressão contida naquele título passou a ser usada sempre que se deseja apontar o impacto e a perenidade de determinados acontecimentos na vida de indivíduos ou de alguma coletividade. Na obra, Ventura reporta-se ao fatídico ano de 1968 e às suas consequências para o país. Aquele momento marcou o brutal recrudescimento da ditadura civil-militar, estabelecida com o golpe de 1964. Não por acaso, o período inaugurado pelo Ato Institucional Nº 5 (AI-5), baixado em dezembro de 1968, ficou conhecido como ‘os anos de chumbo’ (1968-1974).
Pois bem, essa explicação é relevante para clarear as razões pelas quais defendo, aqui, a ideia de que o ano de 2014 ainda não acabou no Brasil. E agora, no ano da realização da 23ª Copa do Mundo de Futebol da Fifa e de eleição presidencial, isso é ainda mais evidente, tanto do ponto de vista político quanto futebolístico. Mas entendo que o ano de 2014, na verdade, começou em 2013, quando foi realizada a Copa das Confederações. Na ocasião, aqueles megaeventos futebolísticos foram alvos de imensas e difusas manifestações de rua, que culminaram nas chamadas Jornadas de Junho, e canalizaram insatisfações, também difusas, contra a então presidenta Dilma Rousseff e o seu governo. Foram momentos decisivos para a emergência da extrema direita e a polarização política, e de valores, que tanto tem marcado o país, atingindo igualmente a representação brasileira em campos de futebol e os seus símbolos.

Futebol, identidade e trauma cultural
De fato, como importante traço de nossa identidade cultural, portanto, nacional, e sendo o esporte mais popular no país, o futebol não ficaria à margem desse processo. Muito pelo contrário. Assim, uma análise do futebol e do seu entorno pode nos ajudar a entender as relações sociais e o que daí resulta, seja na esfera política, econômica ou cultural. E o inverso também é válido. Basta que lembremos como as modernas arenas, construídas ou reformadas para aqueles megaeventos futebolísticos, foram igualmente palcos de manifestações políticas, e outras diversas, contra a presidenta Dilma Rousseff, o que a constrangeu e inibiu a sua presença ali em vários momentos.
No âmbito futebolístico, a fragorosa goleada sofrida pela seleção brasileira por sete a um frente ao selecionado alemão, em uma partida semifinal e num megaevento realizado no país, terminou por representar mais do que um resultado negativo no campo esportivo, e não apenas futebolístico. O fracasso foi ainda maior do que o principal sofrido até então pelo ‘país do futebol’. Ou seja, o traumático ‘Maracanazo’ de 1950. Naquele ano, jogando pelo empate e marcando um gol de frente, e já no segundo tempo, o Brasil saiu derrotado pelo Uruguai em pleno Maracanã na presença de inimagináveis 200 mil torcedores.
O cientista social Jeffrey Alexander criou o conceito sociológico que chamou de trauma cultural para se referir a situações terríveis – no limite, trágicas –, que afetam uma determinada coletividade. Ou seja, assim como ocorrências pessoais marcam a vida de indivíduos, eventos que atingem negativamente uma coletividade a impactam, afetando, inclusive, sua identidade cultural. Dada a importância e o alcance do futebol como fenômeno social, e, entre nós, como relevante traço de nossa identidade cultural, não parece exagero admitir que tanto a derrota para o Uruguai, em 1950, como foi aqui apontado, como a goleada imposta pela Alemanha, em 2014, afetaram negativamente os atores sociais envolvidos com o mundo do futebol, mas também – outra vez, no limite – a própria sociedade, sobretudo em relação à sua autoestima.
Por um lado, os megaeventos futebolísticos de 2013 e 2014 ocorreram no contexto da emergência da extrema direita e da polarização política, afetando decisivamente o país, como mostraram os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 e os atuais, já antecipando como será a disputa eleitoral deste ano. O que não nos caberá tratar aqui. Por outro lado, a vergonhosa e traumática derrota para a Alemanha parece afetar o nosso futebol, ainda hoje às vésperas da Copa da América do Norte. Se a derrota e o trauma de 1950, ou, como queria o genial jornalista, teatrólogo e escritor Nelson Rodrigues, o nosso ‘viralatismo’, começaram a ser superados em 1958, com a vitória na Copa da Suécia, ou seja, oito anos depois, a derrota e o trauma de 2014, após doze anos, ainda parecem intransponíveis.

Os ciclos vitoriosos e o inferno das quartas de final
Mas é preciso lembrar que, após dois ciclos vitoriosos (1958-1970 e 1994-2002), quando o Brasil conquistou, no primeiro, três títulos dos quatro disputados (1958, 1962 e 1970), e, no segundo, dois dos três disputados (1994 e 2002), com um vice-campeonato no meio (1998), os resultados da seleção brasileira têm sido pífios. Pelo menos para esta que é considerada uma das principais potências mundiais nesse esporte. E a mais vitoriosa. Senão, vejamos. A seleção nacional perdeu para todas as seleções europeias que enfrentou em jogos eliminatórios desde a Copa de 2006, geralmente nas quartas de final. Assim foi contra a França, em 2006; a Holanda, em 2010; a Bélgica, em 2018; e a Croácia, em 2022. Já no fatídico ano de 2014, perdeu na semifinal para a Alemanha e a disputa do terceiro lugar para a Holanda, ambas por goleada.
Note-se, aí, que, em 2014, foi a única vez, desde 2006, que a seleção brasileira não enfrentou uma seleção europeia nas quartas de final. E talvez por isso tenha escapado. Em 2014, duelou contra o Chile e classificou-se para a fase seguinte após acirrada disputa de tiros livres da marca do pênalti. Portanto, a última vitória brasileira contra adversários das prateleiras superiores do futebol mundial foi em 2002, quando sagrou-se campeão pela quinta vez, ao vencer a Bélgica nas oitavas de final e a Alemanha na final. Enquanto as duas últimas derrotas foram contra a Bélgica e a Croácia, que nem são seleções acostumadas a ir muito longe nas Copas, como o são a França e Holanda, apesar de a Croácia ter sido vice-campeã em 2018.
Do ponto de vista dos talentos individuais, os brasileiros já não têm um jogador eleito o melhor do mundo desde 2007, quando Kaká, então no Milan, foi o vencedor do troféu da Fifa. Ou seja, exatamente um jogador da geração vencedora do último título mundial, ainda que fosse, ao lado de Robinho, que ali não estava, o mais novo dentre eles. Aqui, cito Robinho porque, ao lado de Neymar, assim entendo, parecem ter sido os dois últimos representantes daquilo que nos acostumamos a chamar de “futebol arte”. Ou seja, o estilo brasileiro de praticar o futebol. Estilo que teria algo de “dionisíaco”, como o caracterizou o sociólogo, antropólogo e escritor Gilberto Freyre, ainda na década de 1930. Dois jogadores espetaculares que não realizaram, dentro de campo, tudo o que se esperava deles na seleção, enquanto fora das quatro linhas tornaram-se péssimos exemplos.

A crise da cartolagem e a dança dos treinadores
Uma evidência da persistente crise, iniciada ainda antes de 2014, como se mostrou, e do trauma causado pela humilhante derrota para a Alemanha é a própria escolha, ressalte-se, inédita, de um treinador estrangeiro para comandar a seleção brasileira. Sim, pode-se dizer que tal decisão tem a ver com o quanto os resultados mexeram com aspectos de nossa identidade cultural. Talvez seja isso o que estamos a presenciar. No caso, trata-se de um dos mais experientes e vitoriosos treinadores do mundo, mas sua escolha não deixa de escancarar a falta de confiança na capacidade dos treinadores nativos em um país acostumado a vencer – no passado, é verdade – com eles e preservando o seu estilo. A escolha ocorreu faltando apenas um ano para a Copa de 2026, após o selecionado brasileiro passar pelas mãos de três treinadores, o interino Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior, em apenas três anos.
Talvez nem precisemos rememorar que, após o fracasso de 2014, a escolha para substituir Luiz Felipe Scolari, o Felipão, tenha sido o aprendiz de treinador e ex-jogador Dunga, capitão da conquista de 1994, nos Estados Unidos, mas que fracassara na Copa da África do Sul, em 2010. Ou seja, após o ocorrido em 2014, com todo o trauma causado pelos resultados obtidos, quando se esperava, no mínimo, uma renovação nos comandos da seleção e da CBF, entidade que comanda e manda na seleção e no futebol brasileiro, a escolha pelo retorno de alguém tão contestado terminou sendo simbólica da crise já estabelecida na entidade, na seleção e no nosso futebol.
A volta de Dunga foi uma decisão do presidente da CBF, Ricardo Teixeira. O quase eterno dirigente apenas deixaria o cargo em 2012, envolvido em denúncias de corrupção, que o levariam a ser banido definitivamente do futebol sete anos depois. Assim, de 2012 para cá, portanto, em apenas 14 anos, a CBF teve sete presidentes, dos quais dois, Marco Polo Del Nero e José Maria Marin, foram igualmente afastados do futebol envolvidos nos mesmos esquemas de corrupção no interior da CBF e da Fifa, resultando na prisão de um e tornando o outro um foragido.
Da mesma forma, os seus sucessores não permaneceram muito tempo no cargo. Rogério Caboclo foi afastado após denúncias de assédio moral e sexual por parte de funcionárias da CBF e Ednaldo Rodrigues desistiu de brigar para permanecer no cargo depois de ter sido sucessivamente destituído por decisões judiciais. No mais, seria tedioso apontar as relações e trajetórias políticas dos cartolas aqui citados. Coube, enfim, ao atual presidente da CBF, Samir Xaud, a contratação do novo técnico da seleção brasileira, o italiano Carlo Ancelotti.
Solução Neymar?
É nesse contexto político, mais geral e no âmbito do futebol, fora e dentro do campo, que a seleção brasileira disputará mais uma Copa, tendo como principal estrela e líder o santista Neymar. Reconhecido e admirado por quase todos os seus companheiros de seleção, é quase um ex-jogador – para muitos, um ex-jogador de fato –, que não tem entrado em campo com regularidade há três anos. Trocando em miúdos, ou melhor, em números, nesse período Neymar disputou apenas 44 partidas: sete pelo Al-Hilal, 34 pelo Santos e três pela Seleção Brasileira, marcando míseros 17 gols. E tendo vestido a camisa da seleção brasileira pela última vez em outubro de 2023. É muito pouco ou quase nada considerando-se que três anos correspondem ao ciclo de preparação para uma Copa. Nada disso impediu o privilégio dado a poucos: ser convocado e chegar à Copa machucado.
A primeira Copa do Mundo foi disputada no Uruguai em 1930 e o Brasil levou 28 anos até vencer pela primeira vez. Mas é verdade que não ocorreram as Copas de 1942 e 1946 por causa da Segunda Grande Guerra Mundial. Após sair vitorioso do México com a depois surrupiada Taça Jules Rimet, conquistada definitivamente pelo Brasil em 1970, levou 24 anos para voltar a vencer. Não demorou muito e repetiu a dose em 2002, na primeira Copa disputada na Ásia. Agora, enquanto escrevo essas pessimistas ou realistas linhas, a seleção brasileira amarga novamente um longo jejum de 24 anos sem conquistas.
Portanto, penso que é hora de refletir e se perguntar se, diante das crises, não superadas, e dos cenários traumáticos, aqui desenhados, estariam encerrados, em definitivo, os ciclos vitoriosos do selecionado brasileiro no âmbito das Copas. Se não estaríamos apenas repetindo o Uruguai, campeão olímpico de 1924 e 1928 e mundial de 1930 e 1950, e a tetracampeã Itália, que sequer se classificou para as últimas três edições. Ou se outros ciclos vitoriosos virão apesar dos contextos expostos. Bem, enquanto ainda lutamos diariamente para superar, no plano político, o trauma de 8 de janeiro de 2023, as respostas ficarão para depois que soar o derradeiro apito, após um mês de disputas entre as 48 seleções na tumultuada Copa do Mundo de Futebol, agora na América do Norte. Ou antes, se o Brasil repetir os resultados de suas últimas cinco participações.





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