O Festival de Inverno ainda forma público?

16 jul 2026 | 0 comentários

A Praça da Palavra formava novos leitores. Foto Jan Ribeiro/ Secult PE- Fundarpe

Por Pedro Henrique Teixeira

A chegada do inverno era a chegada da expectativa por ver a cidade se iluminar de cultura. A festa era ver o espetáculo humano acontecendo diante de nós. Teatro, artes visuais, cinema, dança, música, literatura. Você vinha curtir um clima legal, saborear uma boa comida, ver gente como Caetano Veloso, João Bosco ou Zizi Possi e, de quebra, passar uma semana aprendendo algo que você levaria consigo para sempre. Porque o Festival de Inverno de Garanhuns nunca foi um espaço apenas para se ver show de artista “da moda”, ia além disso. Era um momento de Bildung. 

Eu formei meu ser caminhando de palco em palco, do teatro para o cinema, da música erudita para o maracatu. O FIG cumpria a proeza de nos formar em nossa inteireza: um festival cultural que provia uma formação omnilateral, olhando o ser em sua completude. Saíamos, de fato, de uma edição do FIG como Homo Faber, capazes de elaborar cultura como um bem material, que perdurava em nós. O FIG era uma scholé a céu aberto. Quando acabavam as férias todos nós sempre voltávamos mais fortes de cultura, mais sensíveis. 

Lembro de me vangloriar para amigos de outras cidades de que eu podia, em Garanhuns, no interior de Pernambuco, ver Racionais MC’s, Sepultura, Milton Nascimento, Ney Matogrosso e Gal Costa ao pé do palco, de me abestalhar com os grandes escritores que vinham para a Praça da Palavra. Vendo de perto meus ídolos eu me formava, enquanto ser social e cultural. Aprendi muito com Carlos Janduy ouvindo “No clima do festival”, enquanto me arrumava para ir para o Pau-Pombo ouvir os maiores instrumentistas do país, e de ver sempre os grandes artistas da MPB na praça. Para mim, e para tantos outros, o FIG era um evento ontológico, que ficava tatuado para sempre em quem vinha visitar Garanhuns.

Mas por que eu falo no passado?

Em 2026, as oficinas continuam, o Palco Pop, o Palco da Cultura Popular estão lá, mas há uma sensação de que o FIG perdeu algo de sua aura que nenhuma crítica menos apurada poderia detectar. Não quero ser aqui o crítico radical nem sou ombudsman de nenhuma administração do FIG. Acho pequena, inclusive, a crítica que margeia a política partidária, pois o FIG é — ou deveria ser — um projeto de Estado, com “E” maiúsculo. Por isso, não quero me ater a detalhes e comparações. Minha crítica não se pretende maniqueísta, ela prefere caminhar observando os avanços e recuos do FIG. Sim, eles existem. Para descrevê-los eu despenderia uma energia que eu não sei se a tenho mais. É que ver determinados eventos dentro do FIG, ou a falta de outros, cansa, e eu cansei. Eu prefiro um olhar mais dialético, no sentido hegeliano mesmo. Aufhebung!  

Esse um conceito central na dialética de Hegel, que significa algo como “superação". Na verdade, em alemão, o termo reúne três significados simultâneos: cancelar/anular uma ideia, preservar sua essência e elevá-la a um nível superior de complexidade. Pois bem: se o FIG não puder se cancelar, se superando, se preservar, se elevando, a níveis cada vez mais superiores no que diz respeito ao grande intento da festa, ou seja, a formação humana, uma Paideia no Agreste de Pernambuco, então, para que o FIG? Para reproduzirmos as mesmas atrações que enchem as ondas dos rádios o ano inteiro? Para darmos mais força à indústria cultural de massa? 

Concerto com Yamandú Costa na Catedral de Santo Antônio, durante o FIG, 2017. Foto Acervo Pedro Henrique Teixeira

Darei um exemplo simples: a Praça da Palavra foi a primeira estrutura criada só para a literatura no FIG. Tinha uma programação das 9h até 21h, uma mini-feira de livros.  Funcionava na Praça da Fonte Luminosa, no caminho entre o Parque Euclides Dourado e a Praça Mestre Dominguinhos, e era muito movimentada. Soube que, quando a festa era feita pela Fundarpe, a fundação também quis acabar com o equipamento, mas o gestor do espaço conseguiu apoio da Cepe Editora, que passou a patrocinar a Praça. Isso para dizer que não se trata só de comparar a gestão municipal com a estadual, porque a luta por preservar a pluralidade do FIG sempre existiu.

Na primeira edição tocada apenas pela prefeitura, em 2024, a Praça da Fonte Luminosa estava em reforma, e a programação de literatura foi deslocada para o Espaço da Palavra, estrutura montada no recém inaugurado Parque Luiz Carlos de Oliveira, na Boa Vista, distante do centro, onde as atividades principais aconteciam. Se a Praça da Palavra tinha programação todos os dias, o Espaço da Palavra só teve 6 dias de programação, num horário restrito. Por motivos óbvios, a Cepe Editora, uma das maiores editoras públicas do Brasil, não esteve presente na minifeira de livros. No passado não houve sequer isso. A programação coube na Biblioteca Luiz Brasil e basicamente limitou-se a contações de histórias e um ou outro lançamento. Eu estava lá e vi, na biblioteca do parque Euclides Dourado, as cadeiras arrastadas, para juntar seis sonhadores e fazermos um encontro de literatura. O constrangimento era visível. 

Pedro Henrique Teixeira (E) com os premiados autores de Garanhuns
Helder Herik e Mario Rodrigues. Foto Acervo Pessoal

Confesso: fui um dos que propôs a municipalização do FIG. Era insuportável para mim ver os atrasos dos diversos governos estaduais em anunciar as atrações, era penoso ver a cadeia hoteleira desesperada porque não tinha o que anunciar para os turistas, ver que Garanhuns opinava pouco ou quase não opinava. Mas agora me pergunto se um equilíbrio entre município e Estado não seria benéfico. Porque o FIG é grande demais para ser gerido apenas por um ente político. O FIG é de Garanhuns, mas é pernambucano, nordestino, brasileiro, latino americano. 

Aliás, já decolonizei minhas opiniões sobre o FIG. Não aceito que esse festival tão grandioso seja o maior da América Latina. Por que não incluir a América do Norte em sua comparação? O leitor da Revista Araçá acha que na República Teocrática dos Estados Unidos haja uma celebração cultural mais diversa que a nossa? O FIG deveria ser decolonial, mas a verdade é que reproduz muitos vícios que deveria combater. 

Garanhuns é uma cidade prenhe de cultura, temos aqui tudo o que é preciso para dar uma base de sustentação cultural ao FIG, podendo, inclusive, interagir com os artistas de fora. Para valorizarmos cada vez mais o que vem de fora devemos, nós mesmos, oferecer atrações de alta qualidade, com originalidade, mostrando a cara da arte de Garanhuns, de Pernambuco. Podemos criar o novo, nos superar, aparecer para o mundo nesse movimento amalgamado, cultural, brasileiro. O FIG, o maior festival de cultura das Américas — Europa que se cuide — deve caminhar na proposta para a qual foi criado.

Apesar de tudo é preciso continuar amando o FIG, amando e criticando, para que o FIG sempre avance, como o espírito do tempo, Zeitgeist, olhando sempre para o presente, com um olhar de lobo da estepe. Sem reproduzir modismos, trazendo a força do que é popular sem ser populista. Permanecendo grande, sem se diminuir, sem segregar, com o povo próximo da cultura e da formação, e não apartado por um gradeado VIP. A praça deve ser da palavra novamente, da palavra do povo, na participação democrática da festa. 

Lembro de uma passagem de um dos livros da pernambucana Clarice Lispector: “Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida”. 

O FIG está no ar. E apesar de, devemos continuar amando, criticando e lutando por ele. 


Pedro Henrique Teixeira é professor.

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