Por Roberto Lima
A tarde do último domingo (14) estava bastante movimentada em Caruaru. Além do desfile das drilhas numa das principais avenidas da cidade, o polo da Estação Ferroviária estava repleto de gente de todas as idades, que aproveitava as apresentações de bandas de pífanos no Coreto Sebastião Biano ou se encaminhava para o Pátio do Forró, para aguardar as atrações da noite.
Mas, ali mesmo na calçada da antiga estação, reformada e funcionando como centro cultural, uma pessoa com preocupações que passavam ao largo dos festejos juninos aguardava outras pessoas que dali a instantes estariam com ele na sala do Polo Audiovisual e Teatro de Caruaru. Era Wilfred Gadêlha, jornalista, músico e cineasta (ou "um bocado de coisa", como se define), que naquela noite faria a primeira exibição do seu documentário Rexistir, o qual aborda a desigualdade no acesso à água em Goiana, cidade da Mata Norte de Pernambuco.
Inicialmente programada para o dia 13, no cinema São Luiz, no Recife, a estreia foi adiada por causa do primeiro jogo da seleção brasileira de futebol masculino na Copa do Mundo 2026 naquela data. Mas no próximo sábado (20/06), às 14h, o filme terá sua primeira exibição na capital pernambucana. Caruaru, por sua vez, poderá vê-lo em mais duas sessões: na sexta-feira (19/06), às 20h30, e no mesmo sábado (20/06) em que será apresentado no Recife, só que às 19h. Todas com entrada gratuita.
O semblante inicialmente ansioso de Gadêlha, enquanto aguardava o público, foi trocado por um sorriso de felicidade após os aplausos ao final daquela primeira exibição de Rexistir. A plateia, afinal, tinha entendido sua mensagem. Roteirista e diretor do documentário, ele, que é natural de Goiana - cujo nome significa em tupi-guarani “terra com muitas águas” -, voltou a sua cidade natal para mostrar as contradições e as desigualdades provocadas por grandes empreendimentos.
É essa Goiana que foi levada para a tela. Cidade cujas terras já abrigaram grandes usinas que faliram e desde 2015 é sede da Stellantis, quarta maior fabricante de automóveis do mundo. A água que abastece o polo industrial é abundante, mas falta nas demais áreas do município.
A cidade também sofre com as águas de uma outra forma: enchentes que acontecem sempre nos períodos de chuvas. Problema que afeta a mesma parcela da população, que continua vítima de grandes empreendimentos. Como as fazendas de camarão, que nos anos 1990 devastaram mais de 700 hectares de mata e mangue na área do rio Megaó, um dos que cortam o município. “Goiana é a terra do crustáceo, do guaiamum. É preciso que as empresas olhem a educação ambiental com mais cuidado”, diz o pescador André, um dos entrevistados do documentário. Amara, que preside a Associação das Marisqueiras e dos Pescadores de Tejucupapo (distrito de Goiana) também dá um depoimento criticando as usinas que despejam dejetos nos rios do município.
Wilfred Gadêlha reuniu músicos goianenses, como Valfrido Santiago e Juliano Holanda, para fazer a trilha sonora do filme, que faz parte da série de documentários “Água Capital - Uma História de Desigualdades”. Tudo isso o público recifense poderá apreciar no próximo sábado, no São Luiz.





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