A guardiã do acervo e do amor de Capiba

2 jul 2026 | 0 comentários

Por Pedro Cunha

Em uma casa de Surubim, no Agreste pernambucano, o frevo passou quase 30 anos em silêncio. Não o frevo das ruas lotadas, dos clarins rasgando o ar ou dos passistas colorindo o carnaval. Mas um frevo feito de papel, tinta e memória. Um frevo guardado em partituras manuscritas, fotografias amareladas, cartas escritas à mão, discos de vinil, gravações sonoras e objetos pessoais. Um frevo que sobreviveu protegido pelas mãos de uma mulher.

Enquanto Pernambuco continua cantando Capiba, parte da vida de Lourenço da Fonseca Barbosa permanece preservada em sua terra natal, a 107 quilômetros do Recife. Ali, Maria José Barbosa, conhecida por todos como Zezita, dedica boa parte da sua vida à tarefa de proteger a memória do homem com quem construiu uma história iniciada em 1961.

Casados no religioso na Matriz do Espinheiro e, posteriormente, no civil, em 24 de fevereiro de 1961, viveram uma união marcada pela música e pelo carnaval. Frequentavam os tradicionais bailes dos clubes Português, Internacional e Santa Cruz. Zezita lembra que, em meio à animação das orquestras, Capiba desaparecia no salão. Conversava, tocava ou simplesmente se deixava levar pela festa. Reaparecia horas depois, sorrindo, à mesa onde ela o esperava. O casal optou por não ter filhos. A obra de Capiba acabou se tornando, de certa forma, o grande legado de que ambos passaram a cuidar.

Na reunião do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco que aprovou, por unanimidade, no último dia 11 de junho, o tombamento do acervo do marido, ela estava presente. Sentada entre representantes do Instituto Capiba, pesquisadores e conselheiros, acompanhou o momento que transformou oficialmente uma memória familiar em patrimônio cultural do estado.

Questionada pela Revista Araçá sobre o reconhecimento, Zezita responde sem rodeios: “Acho importante e agradeço a todos que contribuíram com isso”. A simplicidade da resposta contrasta com a dimensão da trajetória que a antecede. Desde a morte do compositor, em dezembro de 1997, ela assumiu uma responsabilidade que jamais lhe foi formalmente atribuída, mas que acabou se tornando parte de sua própria vida: impedir que a memória de Capiba se dispersasse.

Zezita Barbosa: "Vou levar esses documentos para onde eu for". Foto Leo Caldas/Instituto Capiba

De volta à terra natal

Quando deixou o Recife e retornou a Surubim, levou consigo muito mais do que lembranças. Transportou caixas de documentos, partituras, fotografias, objetos pessoais, correspondências e registros acumulados ao longo de décadas. “Eu juntei tudo dele, esses papéis velhos, as partituras, os objetos e trouxe tudo para cá. Vou levar esses documentos para onde eu for”, garante.

Mais do que um compromisso com a história da música, a decisão nasceu do vínculo construído ao longo de décadas de convivência. Ao lembrar o que a motivou a seguir cuidando do acervo mesmo diante das dificuldades, Zezita afirma: "Foi o amor por Capiba". 

A frase ajuda a compreender a relação entre a viúva e o acervo. Aqueles documentos, para Zezita, nunca foram apenas registros históricos. São fragmentos de uma vida compartilhada, marcas concretas de uma presença que continua habitando a casa. Entre familiares e amigos, Zezita também costuma brincar sobre as paixões do marido. Diz que ocupava apenas o terceiro lugar no coração de Capiba. O primeiro era a música. O segundo, o Santa Cruz Futebol Clube. Só depois vinha ela.

A brincadeira sempre foi contada com bom humor e nunca como motivo de ciúmes. Ao longo da vida, Zezita aprendeu que dividiria Capiba com as duas paixões. Ainda assim, foi ela quem permaneceu ao lado do compositor até os últimos dias e, depois de sua morte, assumiu a missão de proteger tudo aquilo que ele deixou. Hoje, é impossível separar a preservação desse patrimônio da história de amor construída pelos dois.

Poucos artistas brasileiros viveram sua relação com a música de forma tão intensa. Desde a infância, o piano ocupou lugar central em sua vida. Foi essa paixão que o transformou em um dos maiores compositores brasileiros. Em sua trajetória, Capiba produziu mais de 200 obras, entre frevos, maracatus, modinhas, valsas, canções, músicas sacras e composições eruditas. Mas para que esse legado chegasse ao presente, foi necessário um trabalho silencioso de preservação.

Conquista coletiva

Embora o tombamento tenha sido aprovado apenas no mês passado, a história desse reconhecimento começou há mais de uma década. Diretor-executivo do Instituto Capiba, Amaro Filho conta que a conquista é resultado de uma construção coletiva que envolveu poderes públicos, pesquisadores, produtores culturais e sociedade civil. O primeiro passo formal ocorreu em 2013, quando a Fundarpe realizou o arrolamento do acervo a pedido da então Associação Cultural Capiba. A partir daquele momento, deu-se início à catalogação, levantamento documental, pesquisas e estudos técnicos.

Ao longo dos anos, diversas reuniões foram realizadas entre representantes da sociedade civil e técnicos da Gerência de Patrimônio da Fundarpe. O Instituto Capiba colaborou com fotografias, documentos, pesquisas e informações que ajudaram a subsidiar a defesa técnica do processo.

Para Amaro, o maior desafio não esteve em uma dificuldade específica, mas no próprio tempo exigido para a preservação patrimonial. “Não foram exatamente obstáculos, mas a necessidade de construir consensos e fazer com que todos os agentes envolvidos compreendessem a dimensão desse patrimônio”, explica o diretor. “Foi uma caminhada longa, marcada por mudanças de gestão, etapas técnicas e muito diálogo".

Amaro Filho. Foto Leo Caldas/Instituto Capiba

A aprovação unânime do tombamento, segundo ele, demonstra que a preservação cultural só acontece quando diferentes instituições conseguem trabalhar em conjunto. O resultado foi um estudo técnico com mais de 300 páginas, que analisou aspectos históricos, documentais, museológicos e memoriais do conjunto preservado em Surubim. A conclusão dos especialistas é inequívoca: "Trata-se de um acervo de valor excepcional para Pernambuco e para o Brasil”.

Detalhes do acervo

Os números impressionam. O acervo reúne 5.481 itens catalogados, entre partituras, manuscritos, fotografias, gravações sonoras, livros, instrumentos musicais, letras de músicas e documentos pessoais. Levantamentos mais amplos apontam ainda cerca de 11 mil partituras originais, quatro mil fotografias, correspondências trocadas com personalidades da música brasileira, entre elas o maestro Guerra-Peixe, além de um raro piano alemão C. Bechstein com mais de cem anos de existência e aproximadamente vinte quadros pintados por Capiba.

Cada peça ajuda a contar uma parte da história. As partituras revelam processos criativos, correções, anotações e versões inéditas de composições conhecidas. As cartas registram diálogos intelectuais e artísticos que atravessaram décadas da música brasileira. As fotografias documentam uma época em que o frevo consolidava sua identidade e ampliava sua projeção nacional.

Apesar da conquista, os responsáveis pelo acervo alertam que a etapa mais difícil pode estar apenas começando. Amaro Filho detalha que a preservação vai muito além da guarda física dos documentos: exige controle de temperatura, umidade, luminosidade, proteção contra pragas, acondicionamento adequado, restauração e protocolos permanentes de conservação.

Nos últimos anos, o Instituto Capiba realizou ações de imunização do histórico piano do compositor,  conservação de centenas de partituras e  digitalização de parte do acervo iconográfico. Ainda assim, o trabalho está longe de ser concluído. Amaro pontua que a urgência é evidente. “O tombamento garante proteção jurídica, mas não garante recursos para preservação”, alerta. Ele lembra ainda que muitos acervos brasileiros sofreram perdas irreparáveis justamente pela ausência de investimentos contínuos.

Preservar vai além do tombamento

A preocupação não se limita à conservação física dos documentos. Para os gestores do Instituto Capiba, o futuro do legado do compositor depende também da capacidade de aproximar sua obra das novas gerações. Vinte e oito anos após sua morte, Capiba continua entre os compositores mais executados do carnaval pernambucano. Mas a permanência da música nas ruas não é suficiente. “Preservar não é apenas guardar. É criar condições para que as novas gerações conheçam, compreendam e se apropriem desse patrimônio”, defende Amaro.

Membros do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco com Zezita Barbosa..Foto Leo Caldas/Instituto Capiba

Nesse sentido, o Instituto vem desenvolvendo projetos voltados à educação patrimonial, pesquisas, exposições, publicações e ações culturais. Entre eles está o Festival Capiba, iniciativa que prevê uma grande exposição fotográfica sobre a vida e a obra do compositor, acompanhada de oficinas, palestras, concertos, apresentações artísticas e atividades educativas.

“Existe muito mais Capiba do que a maioria das pessoas imagina. Nossa intenção é fazer com que novos públicos conheçam um legado que continua vivo, mas que ainda permanece pouco conhecido por parte da população", expressa Amaro. “O acervo revela um compositor que vai muito além do frevo”.

Ao reconhecer oficialmente o acervo de Capiba como patrimônio cultural, o Estado protege a obra de um dos seus maiores compositores. Mas também celebra uma história de amor que atravessou mais de seis décadas. Durante quase trinta anos, Zezita manteve viva, praticamente sozinha, a memória do homem com quem dividiu a vida. Se hoje as partituras, fotografias, cartas e objetos de Capiba permanecem reunidos, é porque antes de serem patrimônio público foram guardados por alguém que nunca deixou de enxergá-los como parte da própria família. Antes de ser patrimônio de Pernambuco, o legado de Capiba foi patrimônio da persistência — e do amor — de Zezita. A mulher que continua guardando o frevo.


Pedro Cunha é jornalista.

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