Por Cleodon Coelho
No último ano, o cinema pernambucano monopolizou as premiações mais importantes do mundo, com os filmes O Último Azul, de Gabriel Mascaro, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, brilhando em festivais como os de Berlim e de Cannes. Mas o audiovisual local não é de se deitar em berço esplêndido. Se há 30 anos, quando Baile Perfumado estava sendo produzido, a mão de obra tinha que ser trazida em sua maioria de fora, hoje existe todo um mercado preparado para realizar longas e curtas sem precisar "importar" equipe. Passada a euforia do Globo de Ouro e do Oscar, o mercado continua aquecidíssimo.

Em plena fase de filmagem no Recife, "Barreto Júnior - O Rei da Chanchada" é um documentário híbrido sobre Barreto Júnior, ator e comediante que se tornou símbolo do teatro popular no Brasil. Misturando encenações, arquivos e depoimentos, o filme celebra a trajetória do pernambucano pelos palcos do país. "Este projeto nasceu do desejo profundo de resgatar a memória de um artista que dedicou a vida ao teatro, levando cultura popular a lugares onde ela raramente chegava", explica o diretor Marcelo Pinheiro. "Barreto foi mais do que um ator: foi um operário do riso, um gestor de trupe, um incansável contador de histórias. Sobretudo, era alguém que acreditava que o teatro deveria estar ao alcance de todos. Quero contar sua história não como uma cinebiografia convencional, mas como uma experiência cinematográfica viva e inventiva, em que memória, ficção e humor se cruzam o tempo todo".
Para interpretar o personagem-título, que batiza um dos palcos mais tradicionais da cidade, localizado no Pina, foram convocados Lucas Carvalho, na fase jovem, e Albemar Araújo, na vida adulta. No papel de Lenita Lopes, esposa e parceira de cena, estão Clara Pinheiro e Karine Ordônio. Radicada no Rio de Janeiro, Clara é filha da cineasta Renata Pinheiro e do saudoso Sérgio Oliveira, que também dedicou sua vida ao cinema e nos deixou no último mês de fevereiro. Ela foi revelada em O Som ao Redor, estreia de Kleber Mendonça Filho em longa de ficção, e também atuou em Lispectorante, dirigida por sua mãe.

Já em Arcoverde, Leonardo Lacca, diretor assistente e preparador de elenco de O Agente Secreto, roda seu novo longa, Sábado Morto, protagonizado por Jesuíta Barbosa. “Tem sido muito especial ver esse universo ganhar vida ao lado de atores como Jesuíta, Malu Falangola, Múcia Teixeira e Matteus Cardoso. E é maravilhoso realizar mais um trabalho em parceria com Emilie Lesclaux", diz Leo, parceiro da produtora nos filmes Seu Cavalcanti e Permanência. A trama do novo trabalho acompanha a história de Diogo, médico residente no Recife, que precisa retornar ao sertão pernambucano, após anos distante, por conta de um acontecimento inesperado na família. Ao lado da esposa, Aline, ele reencontra sua mãe, Terezinha, determinada a exigir respostas sobre fatos recentes. Entre lembranças e desconfortos, segredos começam a emergir.
Enquanto Sábado Morto e Barreto Júnior - O Rei da Chanchada ainda terão uma longa jornada até chegar aos cinemas, nesta quinta-feira (4) o longa Yellow Cake terá sua primeira exibição no Brasil, abrindo o 15º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. A sessão será no emblemático teatro Ópera de Arame, com as presenças do diretor Tiago Melo e das atrizes Rejane Faria e Tânia Maria, a dona Sebastiana de O Agente Secreto. O filme teve sua estreia mundial no Festival de Roterdã, na Holanda, participou do Bildrausch Filmfest Basel, na Suíça, e do Los Angeles Latino International Film Festival, nos Estados Unidos. Além de Rejane e de Tânia, ele também conta com Valmir do Côco (Azougue Nazaré) e Rosa Malagueta (O Último Azul) no elenco.
O Olhar de Cinema também marcará a estreia de outro longa pernambucano, Segunda Pele, que participa da mostra competitiva Novos Olhares, dedicada a obras de linguagem inventiva e caráter experimental. Dirigido por Dea Ferraz e com produção executiva de Carol Vergolino e Hudson Wlamir, ele será mostrado na terça-feira (9), na Cinemateca de Curitiba, numa sessão seguida de debate com a realizadora. O filme propõe uma travessia sensorial e poética que parte do corpo marcado, vigiado e normatizado ao corpo livre, em mutação e simbiose. Em sua construção, a obra afirma-se como gesto de fabulação entre presente e futuro, ao mesmo tempo em que é um manifesto feminista pela libertação dos corpos e pela reinvenção dos modos de existir.

Enquanto isso, O Último Azul e O Agente Secreto continuam fazendo barulho. Os dois aparecem na lista do Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro, cuja premiação acontece no dia 4 de agosto, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O filme de Gabriel Mascaro recebeu 12 indicações, incluindo Melhor Filme, Direção, Roteiro (que ele divide com Tibério Azul) e Atriz (Denise Weinberg). Já o longa de Kleber Mendonça Filho bateu recorde com 18 indicações. Além de Filme, Direção, Roteiro e Ator (Wagner Moura), ele tem duas de suas musas concorrendo à Melhor Atriz Coadjuvante (Hermila Guedes e Alice Carvalho) e a celebrada Tânia Maria na categoria Melhor Atriz. O cinema pernambucano segue vivo e operante.





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