Por Pedro Cunha
Antes mesmo de aprender a ler, Francisca Xukuru já conhecia o caminho da agulha. Aos sete anos, sentou-se ao lado da tia para aprender os primeiros pontos da renda renascença, sem imaginar que aquele gesto simples seguiria toda a sua vida. Mais de sete décadas depois, aos 80 anos, a artesã indígena do povo Xukuru de Ororubá continua fazendo exatamente o que aprendeu na infância. Foi com a renda, trazida da Europa para o Brasil por freiras católicas, instalando-se em Pernambuco na década de 1930, que criou os oito filhos, ajudou a sustentar a casa e preservou um saber que foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco.
Francisca vive na Aldeia Pé de Serra dos Nogueiras, em Pesqueira, onde a renda continua sendo um conhecimento compartilhado entre homens e mulheres da família. Uma das filhas, Alcione Gomes de Souza, de 48 anos, também aprendeu o ofício ainda menina e transformou a técnica em profissão. Assim como a mãe, ela expõe suas peças na Fenearte, que segue até domingo (19), no Pernambuco Centro de Convenções.
Na casa da família, aprender a fazer renda nunca foi uma obrigação. Era um processo natural, quase silencioso. As crianças cresciam observando mães, tias e avós costurarem durante horas. Aos poucos, a curiosidade dava lugar aos primeiros pontos, até que a técnica passava a fazer parte da rotina. "A renda renascença representa a minha vida, meu sustento e primeiro e único emprego", resume Francisca.
Foi esse saber, passado de geração em geração, que recebeu um dos maiores reconhecimentos da cultura pernambucana. A renda renascença foi reconhecida, por unanimidade, como Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural. A aprovação ocorreu no último dia 9, durante reunião realizada em Poção, no Agreste, município reconhecido como a Capital da Renda Renascença. A decisão oficializa o reconhecimento de uma tradição artesanal e reforça sua importância histórica, cultural, social e econômica para Pernambuco.
O coordenador da Comissão de Estudo do Saber Fazer da Renda Renascença e autor do pedido de registro, Lindenberg Filho, avalia que o reconhecimento ultrapassa o caráter simbólico. "É a valorização de uma arte passada entre famílias, que foi e continua sendo um dos principais pilares econômicos e de sustento financeiro de Poção, transformando realidades tanto na área urbana quanto na zona rural do nosso município", afirma. A expectativa, segundo ele, é que o registro fortaleça políticas públicas voltadas à preservação do saber tradicional, incentive a produção artesanal e amplie a valorização das rendeiras.

Francisca, que este ano passou a fazer parte da "Alameda dos Mestres", o corredor mais simbólico da Fenearte, reservado aos grandes nomes da cultura popular pernambucana, sabe que esse reconhecimento tem um significado importante. Mas acredita que a tradição só continuará existindo se houver pessoas dispostas a aprender. Ela própria precisou acompanhar as mudanças do tempo. Além das feiras de artesanato, passou a vender as peças pela internet para alcançar novos compradores. Para ela, tornar a renda conhecida é uma forma de garantir que o ofício continue vivo. "Quando as pessoas conhecem a nossa história, passam a valorizar mais o nosso trabalho”, explica.
Tradição que sustenta famílias
Muito antes de ser reconhecida como patrimônio cultural, a renda renascença já era patrimônio de milhares de famílias do Agreste. Conhecida internacionalmente pela delicadeza dos desenhos e pela complexidade da técnica, a renda encontrou em Poção e Pesqueira seus principais centros produtores no Brasil. Em Poção, segundo dados da prefeitura, aproximadamente 80% da economia local giram em torno da atividade. Os outros 20% estão ligados principalmente à agricultura e à pecuária. Nos períodos de seca, quando o trabalho no campo diminui, muitas famílias encontram na renda a principal fonte de sobrevivência.
Poucas histórias representam tão bem essa relação quanto a de Dona Odete Cavalcanti Maciel. Hoje com 98 anos, ela continua produzindo suas peças. Aprendeu o ofício com Dona Lala, considerada uma das responsáveis por difundir a renascença na região, quando Poção ainda era distrito de Pesqueira. Depois, passou 25 anos ensinando outras mulheres a produzir renda, trabalhando pela prefeitura do município.
"Faço produtos de renda há mais de 80 anos. A renda representa um dinheiro a mais para mim, porque também tenho aposentadoria. Eu invisto no meu trabalho e pago as despesas”, conta a nonagenária. Ao longo da vida, ela viu centenas de mulheres encontrarem na renda uma oportunidade de independência financeira dentro de casa. Muitas delas passaram a ensinar filhas, sobrinhas e netas, formando uma cadeia de conhecimento que ajudou a consolidar a identidade cultural de toda a região.
Desafio de manter a renda viva
Márcia Carneiro tem 70 anos e diz que nunca escolheu a renda renascença. Foi a renda que escolheu sua vida. Criada ao lado da tia, Dona Odete, ela cresceu vendo as mulheres da família passarem horas costurando. Hoje, porém, a preocupação já não está apenas em produzir boas peças. Está em saber quem continuará produzindo quando essa geração não puder mais fazê-lo.
"Fui criada nisso. Minha tia ensinou a família inteira. A renda sustentou muita gente da nossa casa”, revela. Ela observa que o reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco representa uma conquista histórica, mas, sozinho, não garante a continuidade da tradição. "É o normal da vida, mas a gente está perdendo muita valorização. Os jovens não querem aprender”.

A crítica de Márcia é direcionada principalmente à ausência de políticas públicas permanentes nas cidades onde a renda nasceu e se consolidou. "Falta incentivo, principalmente das prefeituras, porque é nas cidades onde a renda acontece. Precisava ter escolas, oficinas, projetos permanentes para ensinar. A renda passa de geração em geração, mas, se ninguém aprender, ela vai desaparecendo."
O alerta dela encontra eco no conceito de patrimônio imaterial. Diferentemente de um monumento ou de um prédio histórico, esse tipo de patrimônio depende das pessoas para continuar existindo. Sem quem ensine e sem quem aprenda, o saber desaparece.
Para o presidente do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural, Antiógenes Viana, a decisão amplia a proteção institucional da manifestação cultural e consolida sua importância para a identidade do estado. Com o registro, a renda renascença passa a integrar oficialmente o conjunto dos patrimônios culturais imateriais, ao lado do Frevo, do Maracatu e da Feira de Caruaru, entre outros.
Enquanto as políticas públicas ainda são aguardadas por quem vive da renda, são as próprias artesãs que seguem garantindo sua continuidade. Francisca passou o ofício a Alcione e às outras filhas. Dona Odete ensinou a Márcia e a outras tantas mulheres. E, como elas, tantas outras mantiveram vivo esse elo de conhecimento muito antes de existir qualquer reconhecimento oficial. O título de Patrimônio Cultural Imaterial representa um marco, mas, para quem dedica uma vida inteira à renda renascença, o verdadeiro patrimônio sempre esteve nas mãos que ensinam, nas crianças que observam e nas famílias que transformaram esse ofício em modo de viver.



















































































































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