SaGrama, um grupo musicalmente inclassificável

4 jun 2026 | 0 comentários

Crédito: Lucas Emanuel

Por Paulo André Leitão

O grupo musical SaGrama (a origem do nome é indiana) completou 30 anos de vida em 2025 e desde então comemora a data. Sábado, 6 de junho, o Paço do Frevo recebe a banda para um pocket show e o lançamento de SaGrama ー Um álbum por escrito, do jornalista, escritor e crítico musical Carlos Eduardo Amaral, que, no livro, se refere ao grupo sem meias palavras: "Eles não são armoriais, não são crias do manguebeat, não são um grupo de câmara, de jazz, de música antiga, de música nova, de música raiz ou do que quer que seja. São inclassificáveis, maleáveis, consistentes, receptivos e coloridos ー coloridos, vale dizer, tal qual todos os figurinos que escolhem para se apresentar". Na entrevista concedida à Revista Araçá, Carlos Amaral diz mais sobre a banda cuja formação atual tem dez integrantes. 

Revista Araçá ー Com base no seu relato e nos depoimentos dos integrantes do grupo, conclui-se que o SaGrama tem alguma coisa de família.

Carlos Amaral ー  O SaGrama é um grupo muito harmonioso do ponto de vista do trabalho. Os músicos se entendem, se consultam para abraçar novos projetos e promover novas empreitadas. Existe um clima de descontração muito bom nos ensaios e apresentações, que tive oportunidade de testemunhar. É um ambiente realmente muito saudável para se fazer música.

Revista Araçá ー  Isso facilitou o levantamento de informações, entre eles, para realizar o livro?

Carlos Amaral ー  Eu tive acesso a todos os músicos e também a pessoas de outras artes que trabalharam com eles, estiveram lado a lado com eles e ajudaram nessa construção de trajetória. 

Revista Araçá ー  Essa proximidade lhe deu o necessário distanciamento? O resultado do seu trabalho é realmente isento?

Carlos Amaral ー  Com certeza. Eu fiz a devida organização dos dados, dos depoimentos e pude me sentir verdadeiramente à vontade para escrever. Esse distanciamento, no sentido de ser científico, asséptico, de poder escrever como se fosse uma pessoa de fora, não é possível numa escala ideal quando você está acompanhando o trabalho do grupo e tendo acesso a ele. Pelo contrário, a aproximação com o grupo permite ter acesso a informações que, de outra forma, somente por mera pesquisa, não seria possível levantar. Foi muito mais produtivo, muito mais rico, eu ter conversado com essas pessoas todas e ter dado um relato vivo. Eu escolho sempre fazer uma narrativa de forma ora jornalística, ora histórica, ora ensaística. 

Revista Araçá ー  De que forma a vivência familiar do SaGrama se reflete no trabalho deles?

Carlos Amaral ー  Da forma com a qual eles conseguem estabelecer muito bem o repertório que vai ser pesquisado, construído e ensaiado, Eles delimitam bem qual é a proposta musical que vai ser colocada em prática para um novo álbum, para um novo espetáculo, para chamar novos convidados. Os convidados, em particular, se agregam ao grupo de uma forma muito orgânica, sem problemas de adaptação. Tudo flui em um clima de descontração e de cumplicidade artística.

Revista Araçá ー  Mais de uma vez é dito que o SaGrama é inclassificável do ponto de vista musical. É uma característica realmente marcante?

Carlos Amaral ー  Se você disser que o SaGrama é um grupo de música regional, não está inteiramente exato. O grupo pode tocar em estilo de jazz, de música instrumental de alto nível. Também não pode ser chamado meramente de um grupo de world music até porque isso é um selo, um rótulo um tanto quando eurocêntrico. E não pode ser denominado de armorial porque a música armorial tem uma delimitação bem mais desenhada, e o SaGrama não se enquadra completamente nisso. O SaGrama toca música que pode se enquadrar no armorial ou não. É livre para transitar e ao mesmo tempo tem uma linguagem musical única, de modo que consegue adaptar qualquer gênero musical à formação instrumental dele, e funciona bem, 

Revista Araçá ー  Você escreveu, na página 38, que "O SaGrama ainda não sonhava em gravar o primeiro álbum, mas já havia descoberto a própria identidade sonora e começado a explorar o máximo de combinação de timbres". Não foi trabalhoso, então, descobrir a própria identidade sonora.

Carlos Amaral ー  Exato. A partir do momento em que houve uma transição da formação experimental do grupo, quando era um projeto didático dentro do Conservatório Pernambucano de Música, até a fase profissional, ainda nos dois primeiros anos de existência, o SaGrama era um quarteto de flautas com um violoncelo e um acordeon. Quando o acordeon saiu do grupo e entraram as cordas dedilhadas e a percussão, o SaGrama encontrou seu núcleo central, que persiste até hoje. Depois foi trabalhando a construção de arranjos de diversos gêneros para se enquadrarem nessa formação instrumental, que é genuína e singular. 

Revista Araçá ー  Foi isso que fez o SaGrama se consolidar e trilhar percursos completamente diferentes da música que era feita em Pernambuco?

Carlos Amaral ー  São percursos diferentes porque o SaGrama tem essa sonoridade única, que vem sendo mantida e reinventada até hoje. Eles tocam bem com acompanhamento de voz solista, com coro, tocam bem ao lado de uma banda sinfônica e ao mesmo tempo mantêm a própria identidade. 

Revista Araçá ー  Arrisca dizer qual é o futuro do SaGrama?

Carlos Amaral ー  Eu arrisco dizer que eles vão fazer ainda muito mais parcerias dentro dessa trilha e que vão rodar mais pelo Brasil, com esse livro e com os próximos álbuns, voltando a ganhar destaque nacional. A minha expectativa é a melhor possível para o grupo.

SaGrama – um álbum por escrito

Carlos Eduardo Amaral

Edição do autor

209 pp.

R$ 85

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